O jogo é saber
se ele vai cair ou não,
o engraçado de tudo
é descobrir se foi criança
alguma vez e com um
cãozinho chamado Hipocondricus ou
Leibniz mergulhou
(riso e pavor) em lagoa limpa,
o lúdico é o tapa na cara,
o tabuleiro com pedras brancas,
o dado no sete.
Não é o chapéu que faz o homem
mas o jogo do desejo,
a tempestade silenciosa de violentos
disparos elétricos abrindo
quinze bilhões de microssulcos no córtex
– bacana é se ele
não conseguir mais levantar.
O carioca Carlito Azevedo, de renome firmado no panorama da literatura brasileira, respira sua arte no dia a dia.
Autor premiado, coligiu poemas em quatro delgados volumes apenas, o que já mostra como coloca lá em cima seu padrão de exigência. São eles Collapsus Linguae (1991), As Banhistas (1993), Sob a Noite Física (1996) e Versos de Circunstância (2001). Sairia depois uma antologia, Sublunar (2001).
Dirige há dez anos uma das mais importantes revistas de poesia contemporânea do país, a Inimigo Rumor. E é tradutor de poesia francesa, que considera ímpar como contribuição da língua literária à modernidade. Reconhece em Baudelaire, Rimbaud, Valéry e Mallarmé, a quem não cessa de interpelar, seus mais altos realizadores.
Não teme a intertextualidade nem se preocupa com a “angústia da influência”. Afirma e reafirma, destemidamente, ser herdeiro de algumas tradições – afora os franceses, o modernismo, o concretismo, o surrealismo, os marginais, João Cabral de Melo Neto – e que justamente o desafio maior não é ignorá-las, mas confrontá-las.
Poesia sofisticada, nada simplória nem primitiva, dialoga com todas essas vertentes, o que já revela um alto grau de elucubração. Ele mesmo é a antítese do derramado, publicando escassa e espaçadamente. Sua declaração de princípios, valendo-se de Czeslaw Milosz, aparece em Versos de Circunstância: “Poemas devem ser escritos poucas vezes e sempre de má vontade”.
Livro após livro, veio crescendo em depuração e em fixação de imagens fortes. Nessa dicção sobrenada o componente intelectual, conceitual e de ideias, que não se entrega à decifração com displicência: poesia resistente à narrativa e à interpretação, porém da maior seriedade.
