Luiz Inácio falou. Luiz Inácio avisou: “agora que temos o básico garantido é hora de dar um salto de qualidade”. A intuição política de Luiz Inácio pressentiu que seu quarto e último mandato não pode ser mais do mesmo, ainda que seu mesmo tenha sido bem mais do que aquilo realizado pelos governantes anteriores. Em seu discurso na convenção que confirmou a chapa Lula-Alckmin, Luiz Inácio sinalizou que é preciso realizar um salto qualitativo, um resoluto passo adiante, que consolide atitudes e políticas estimuladoras de esperanças. Só elas podem anunciar futuros e outros mundos possíveis.
Não que seus três primeiros governos fossem destituídos de avanços na vida brasileira em dimensões sociais, econômicas, ambientais, políticas, educacionais e culturais. Dadas as oscilantes conjunturas internacionais e nacionais do século 21, carregadas de avanços e recuos, em suas gestões conviveram, de modo tenso, conciliações e rupturas, algumas moderadas, outras intensas. Tais avanços deram identidade a seus governos. Ao estilo Lula, o Brasil se modificou em ritmo comedido, mas que incomoda às classes dominantes, pelos riscos que representa a seus muitos privilégios, como também não satisfaz a certos setores de esquerda, que consideram suas gestões travas à transformação revolucionária da sociedade.
Uma perspectiva democrática, progressista, soberana e temperada com ritmo prudente marcou a trajetória dos governos Lula. Eles aconteceram em meio a sua contínua rejeição pelas classes dominantes e por setores das classes médias, com seus arraigados preconceitos classistas contra um trabalhador nordestino no poder. Seus governos foram perpassados por delicadas negociações com o mal denominado e direitista Centrão; pelas armadilhas das gestões inimigas do povo no Congresso Nacional; por perseguições persistentes da mídia; pelo moralismo conservador de setores fundamentalistas religiosos e pelo ódio violento da extrema direita civil e militar.
As cautelosas mudanças produziram entraves e se transformaram em lutas desmedidas, devido a reação brutal das classes dominantes, que tentam ferreamente interditar no Brasil a superação: das desigualdades e dos privilégios de classe, a reversão da desumanização dos subalternizados, dos explorados, dos oprimidos e dos diferentes, além da negação vergonhosa da soberania nacional. A sociedade desigual, elitista, colonizada e autoritária vê em qualquer direito conquistado uma ameaça mortal à sua manutenção no poder.
Em seu discurso na convenção, Luiz Inácio não falou dos trezentos picaretas alojados no Congresso inimigo do povo, mas reafirmou o básico construído nos seus três mandatos. Ele lembrou, ou poderia ter recordado: a Bolsa Família, o SUS, o aumento do salário-mínimo, a reforma tributária, a isenção de imposto de renda para quem ganha até cinco mínimos, a saída do Brasil do mapa da fome, o Minha Casa Minha Vida, a expansão das universidades e dos institutos federais de educação, a diminuição das queimadas e do garimpo ilegal na Amazônia, o Farmácia Popular, a criação do Ministério dos Povos Indígenas, o combate ao feminicídio, o desenvolvimento da agricultura familiar, a transposição do Rio São Francisco, o Pé de Meia, o Agora Tem Especialistas, o aumento das escolas de tempo integral, a defesa da soberania nacional, as cotas sociais e raciais, o enfrentamento do crime organizado, o avanço do IDH, o alto índice de emprego, o Mais Médicos, o PAC, a inflação controlada, o crescimento dos pontos de cultura, o investimento na ciência e tecnologia, o Gás do Povo, a presença internacional do país, a democratização das eleições de reitores, a expansão das intermediações financeiras via Pix, a política para as artes, a luta contra o racismo, o Desenrola, a prisão dos golpistas civis e militares, a proteção da democracia, a presença de políticas culturais, o piso salarial dos professores, a ampliação do apoio às empresas via BNDES, a Política Nacional de Cuidados, a postura altiva frente as taxações norte-americanas, a atitude frente ao genocídio em Gaza, os ricos colocados no imposto, a defesa do meio ambiente, a política industrial, o acordo Mercosul-União Europeia, o compromisso com novas fontes de energia, a diversificação das exportações brasileiras e muitas outras medidas-básicas para construir um Brasil mais democrático e soberano.
Muitas dessas iniciativas, antes impossíveis/improváveis, se tornaram reais, naturalizadas como mais do mesmo. Isto é, transmutadas agora em acontecimentos possíveis/prováveis. A fome, flagelo secular corriqueiro na história do Brasil, foi enfrentada e vencida e o país saiu do mapa da fome por duas vezes. Bastou uma breve interrupção dos governos petistas para ela retornar, atingindo trinta milhões de pessoas, produzida por mais uma gestão das classes dominantes, em sua versão bolsonarista. Em um país no qual parcela importante de sua população padecia com a fome, ameaçando sua condição básica de vida, não podia haver dignidade e, nem mesmo, futuro, a não ser para alguns poucos. A superação plena da fome é condição vital para se falar em nação.
A transposição do rio São Francisco, projeto secular, inúmeras vezes imaginado e nunca realizado, se tornou realidade. Hoje, ela parece silenciada, quase esquecida, tanto de sua protelação histórica, quanto de sua dimensão monumental de obra de engenharia social. A atenção com o Nordeste, região fundadora do Brasil e depois zona empobrecida, aponta para a conformação mais equânime da sociedade nacional. Ela simboliza a preocupação com a diversidade regional, social e cultural da Federação e a condição de vida de sua população.
A chegada de pobres, negros e indígenas ao ensino superior público por meio da expansão das universidades e dos institutos federais de educação, bem como da implantação de cotas sociorraciais democratizam a então elitista universidade brasileira, restrita às classes dominantes, abrindo amplas perspectivas de vida para largas parcelas da população. As instituições universitárias têm na atualidade o desafio de acolher tais diversidades sociais e culturais brasileiras. A inovadora instalação, em cidades médias e pequenas, de sedes de universidades e institutos federais provoca mudanças sociais, econômicas e culturais relevantes na configuração das regiões e evita a evasão de pessoas formadas e qualificadas para as grandes cidades, abrindo novas perspectivas de desenvolvimento mais inclusivo em termos regionais.
Apenas três singelos exemplos acionados, dentre os inúmeros possíveis, para ilustrar o naturalizado mais do mesmo. Eles servem para mostrar a desimportância do básico, daquilo fundamental para todos: alimento, água, educação e cultura, negados pelo capitalismo feroz/veloz, que parece tudo mercantilizar/mudar para manter tudo sempre igual, em sua imensa desigualdade. Em síntese, apesar da persistência de adversidades, o campo dos possíveis no Brasil, enquanto nação, se ampliou, abrindo novas e sutis alternativas. Agora o impossível pôde se tornar possível, mesmo com diversas limitações.
Tudo virou quase vida naturalizada. Em tempos de história humana dominada pela aceleração tecnológica, a incorporação das novidades à vida societária acontece muito rapidamente. Ela faz esquecer a memória e dificulta a consciência das mudanças. Tudo é vivido como se fosse sempre mais do mesmo, como se sempre tivesse sido assim, como se não houvesse história e lutas, ainda que perpassadas por conciliações, necessárias ou demasiadas, que só os campos de forças políticas existentes na sociedade e a história poderão iluminar.
Por mais que em seu discurso, Luiz Inácio busque demarcar, como esperado, que nos seus governos promessas se transformaram em realidades e que, assim, pretenda se diferenciar dos demais candidatos, não por promessas, mas por realizações, ele vai além e proclama: “Quem fez pode prometer mais”. Pode e deve transcender o mais do mesmo. Pode e deve ir além do realizado. Aqui o salto de qualidade anunciado ganha todo sentido.
O salto de qualidade necessita de: coragem e criatividade; abertura para o possível e o impossível; diálogo com novos temas e novas gentes; ausculta vigorosa da sociedade; mobilização de mentes e corações; atenção com as diversidades sociais e culturais; desenvolvimento de políticas e culturas democráticas; enfrentamento das mais diferentes desigualdades de poder; cultivo do pluralismo e do multilateralismo; inovação de outros formatos de democracias; radicalização da democracia no Estado e na sociedade; invenção de um modelo de desenvolvimento integral com dimensões econômicas, ambientais, sociais, políticas e culturais; sintonia fina com o presente e imaginação do futuro com olhares observadores e perspicazes.
No mundo ferido pelo capitalismo neoliberal autoritário de extrema direita, marcado pela destruição do presente e do futuro do planeta e da civilidade humana, com guerras, genocídios, desastres ambientais, fome, violências, diminuição de direitos, negação da cultura e sua diversidade, desigualdades crescentes, pandemias, restrições à pluralidade, desprezo pelo multilateralismo, o salto de qualidade deve ser capaz de possibilitar a imaginação de futuros em ritmo dinâmico, sempre em diálogo com a contemporaneidade. Ele deve libertar a imaginação dos entraves distópicos do mundo atual para reencantar a vida e a política e fazer florescer a esperança utópica de outro mundo possível.
Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador do CNPq
