Neste 11 de setembro, muitos de nós teremos na memória a morte de Salvador Allende, presidente socialista chileno deposto em 1973 por um golpe militar. No pronunciamento gravado antes de morrer, ele disse que não renunciaria e pagaria com a vida a lealdade do povo. Os que detinham a força não poderiam deter a história. “La historia es nuestra y la hacen los pueblos”. Havia prometido defender a Constituição e a lei e havia cumprido a promessa. Aquelas eram suas últimas palavras e ele tinha a certeza de que seu sacrifício não seria vão.1
Os diálogos dos chefes militares, gravados nas horas que antecederam o assalto ao palácio presidencial, mostram que eles imaginaram obrigar Allende a assinar a própria renúncia e mandá-lo com a família para fora do país2. Ignorando, no entanto, a capacidade de resistência das forças leais ao governo, dirigiram sua fúria contra o Palácio La Moneda, bombardeado pela Força Aérea e canhoneado pelo Exército. Destruíram assim o que deveria ter sido a sede natural do novo regime, um edifício do século 18, cuja reconstrução iniciou-se em 1974 e só terminou em 1981.
Allende cumpriu quase dia por dia a metade do seu mandato. Apoiado na Unidade Popular, coligação de esquerda, havia sido eleito em setembro de 1970, com uma maioria relativa de 36,63%.3 Era sua quarta candidatura. Em 1952 havia concorrido pelo Partido Socialista Popular, obtendo 5,45% dos votos. Os demais candidatos, Pedro Enrique Alfonso (Partido Radical), Arturo Matte Larrain (Liberal) e o vencedor, Carlos Ibañez del Campo (Independente) obtiveram respectivamente 19,95%, 27,81% e 46,79% dos votos. Em 1958, concorrendo pela FRAP, coligação dos partidos comunista e socialista, Allende ficou em segundo lugar com 28,85%, sendo vencedor Jorge Alessandri, apoiado por uma coligação liberal-conservadora, com 31,56%. Em 1964, Eduardo Frei, do Partido Democrata Cristão, foi eleito por maioria absoluta, com 56,09% contra Allende, que obteve 38,93% dos votos.
A vitória por maioria simples não era portanto excepcional e dependia em grande medida do número de candidatos presentes no pleito. Mas necessitava o referendo do Congresso. Em todos os casos anteriores, o Congresso havia referendado a candidatura majoritária. No caso de Allende, pela primeira vez, houve tergiversação. Após muitas incertezas e a ameaça de cisão no partido, a Democracia Cristã aceitou jogar o jogo. A vitória de Allende foi confirmada por mais de 80% do Congresso. Às vésperas dessa confirmação, a extrema direita havia mostrado a que vinha, sequestrando e matando o comandante-em-chefe do Exército, General René Schneider, conhecido por suas posições constitucionalistas.
É importante retomar os termos do programa da Unidade Popular para que se possa entender as orientações e o horizonte político de Allende.
Datado de 17 de dezembro de 19694, o programa definia o Chile como um país capitalista, dependente do imperialismo, dominado por setores da burguesia estruturalmente ligados ao capital estrangeiro e marcado por uma forte desigualdade social. Metade da renda nacional era acaparada pelos 10% mais ricos. As condições de vida dos mais pobres eram marcadas, ao contrário, pela precariedade das condições de habitação, de educação, de saúde e pelos baixos salários, bem como por um contexto inflacionário, com um custo de vida que se havia elevado em mais de 1000% nos dez anos anteriores. 50% dos menores de 15 anos encontravam-se em situação de desnutrição e o Chile era incapaz de garantir sua própria soberania alimentar. As taxas de mortalidade infantil e adulta eram particularmente importantes no campo, bem como o analfabetismo e a insalubridade. Uma reforma agrária, iniciada durante o mandato de Eduardo Frei, precisaria ser aprofundada. O crescimento econômico, insuficiente, ou mesmo inexistente desde 1967, precisaria ser retomado.
Tudo isso requeria o fim do domínio imperialista sobre a economia chilena, o fim dos monopólios, da oligarquia agrária e o início da construção do socialismo. Daí o chamado à unidade popular não apenas como coligação de partidos, mas como estratégia para a “conquista do poder”. Isso necessitava a formação de “comitês da unidade popular” em cada fábrica, fazenda, bairro, escritório ou escola por militantes dos movimentos e dos partidos de esquerda. Tais comitês não seriam apenas organismos eleitorais. Seriam “intérpretes e combatentes das reivindicações imediatas das massas” preparatórios para o exercício do “poder popular”. Os debates, registrados numa “Ata do Povo”, seriam a base do mandato concedido ao governo popular eleito.
Coerente com essa estratégia política, o programa definia a importância da preservação das liberdades e garantias conquistadas através de um longo processo de luta. O triunfo popular abriria caminho para “o regime político mais democrático da história do país”, aprofundando e tornando mais efetivos os direitos democráticos e as conquistas dos trabalhadores. O Estado seria reconfigurado de modo a garantir ao povo um real exercício do poder. O governo popular garantiria assim “o exercício das liberdades fundamentais de todo o povo” e uma administração mais participativa, graças à eleição por voto secreto das instâncias de decisão dos órgãos responsáveis pelas políticas públicas.
O governo popular garantiria também o acesso de todos à educação e à cultura, com pleno respeito a todas as ideias e crenças religiosas e ao exercício do culto. A todos seriam estendidos os direitos e garantias democráticas. Basearia sua força e autoridade no apoio do povo organizado. Seria pluripartidário, integrado por todos os partidos, movimentos e correntes revolucionárias. Seria um Executivo “verdadeiramente democrático, representativo e coeso”. Respeitaria os direitos da oposição exercida em marcos legais. Iniciaria imediatamente uma real descentralização administrativa e a planificação democrática, através da coordenação de todos os organismos estatais. As municipalidades, com estrutura modernizada, seriam os órgãos sociais da nova organização política.
A polícia seria reorganizada para que não fosse mais um instrumento da repressão às camadas populares, garantindo “o pleno respeito à dignidade e à integridade física do ser humano”. De uma nova Constituição adviria uma “Assembleia do Povo” – câmara única através da qual se expressaria a soberania popular. A magistratura seria reconfigurada, a soberania nacional preservada e as Forças Armadas colocadas a serviço da independência nacional e da amizade entre os povos.
Uma nova economia liquidaria o capital monopolista, nacional e estrangeiro, e o latifúndio. Seria formada uma área de economia estatal dominante, apoiada nas empresas estatais já existentes e naquelas que seriam expropriadas: minas de cobre, ferro, salitre e carvão mineral, bancos privados e seguros, comércio exterior, grandes empresas e monopólios de distribuição, monopólios industriais estratégicos, infra-estrutura e transportes básicos – preservados os interesses dos pequenos acionistas. A propriedade privada permaneceria majoritária e seria apoiada pelo Estado.
Uma reforma agrária promoveria a divisão da terra ali onde a propriedade excedesse os limites estabelecidos. As terras abandonadas, ou mal exploradas, de propriedade estatal, seriam imediatamente desapropriadas. Seriam formadas cooperativas de proprietários, favorecendo a reorganização dos minifúndios. Paralelamente, empresas agrícolas estatais operariam com tecnologia moderna. As comunidades indígenas se beneficiariam de terras, assistência técnica e crédito.
A economia seria reorientada em desfavor do consumo suntuário para privilegiar a produção de bens de consumo popular, baratos e de boa qualidade. Do mesmo modo, seria favorecida uma política de pleno emprego e remunerações adequadas para os trabalhadores. A independência em relação ao capital estrangeiro requeria um comércio exterior aberto e com diversificação de mercados. No plano diplomático, o Chile manteria relações com todos os países, em particular os da América Latina, independentemente de sua orientação ideológica.
Seria garantida plena capacidade civil à mulher casada e igual condição jurídica a todos os filhos gerados dentro ou fora do casamento e uma adequada legislação do divórcio. Desapareceria a divisão legal entre operários e empregados, estendendo-se a todos o direito à sindicalização. Centros locais de cultura popular garantiriam a todos o direito à cultura. Os ensinos fundamental e médio seriam unificados e se criariam berçários e jardins de infância. A educação se pautaria por métodos ativos de ensino e aprendizagem e se travaria uma luta maciça contra o analfabetismo. Haveria integração dos ensinos público e privado, sob a responsabilidade do Estado. Seriam destruídos os monopólios nos meios de comunicação de massa.
Entre as medidas imediatas propostas, ressalta a “racionalização das remunerações nos altos cargos da administração pública”, a ampliação da proteção social, o congelamento dos aluguéis, a garantia de assistência médica e a medicina gratuita nos hospitais. E a de mais forte poder simbólico e mais frequentemente lembrada: a garantia de ½ litro de leite diário para todas as crianças chilenas.
O imaginário político que orientou a Unidade Popular e o governo de Salvador Allende era socialista. Mas nenhuma das medidas propostas no programa era incompatível com a democracia liberal, que ele prometeu respeitar. O planejamento e a estatização de parcelas da economia, inclusive dos bancos, foram prática corrente em países capitalistas. A emenda parlamentar que permitiu a nacionalização das minas de cobre, sem compensação às empresas americanas que dominavam o setor, foi votada por unanimidade pelo Congresso chileno, com o argumento dos “lucros excessivos” por elas obtidos ao longo da concessão. O programa afirmava claramente que a propriedade privada seria majoritária e que as liberdades fundamentais seriam respeitadas. A UP visava uma democratização da democracia, estendendo às mais amplas parcelas da população maiores direitos sociais, menos desigualdade, bem como capacidade de escolha e decisão política sobre seu próprio futuro – um tema hoje ainda presente em importantes debates mundo afora. Por que então seu programa suscitou uma tal resistência, conduzindo ao golpe?
Eram tempos ditos de “guerra fria”. Ao selar a divisão da Alemanha em áreas administrativas dirigidas pelos vencedores da II Guerra Mundial, as conferências de Yalta e Potsdam, em fevereiro e agosto de 1945, lançaram também as bases de uma divisão política do mundo sob a égide das duas principais potências da época – os Estados Unidos e a União Soviética. Toda manifestação de autonomia nacional no interior desses blocos era combatida a ferro e fogo. Em outubro de 1956, tanques soviéticos entraram em Budapeste para liquidar um movimento nascente de democratização, dirigido por um comunista histórico, o primeiro-ministro Imre Nagy; em agosto de 1968, tanques também soviéticos entraram em Praga para liquidar um movimento de abertura política liderado pelo primeiro secretário do Partido Comunista, Alexander Dubcek. O alinhamento da Revolução Cubana à União Soviética gerou uma série de sanções contra a Ilha – sua expulsão da OEA em 1962 e um embargo de consequências desastrosas que se mantém até hoje. No Brasil, em 1961, a decisão de abertura do comércio exterior aos países do bloco comunista gerou pressões que levaram à renúncia do presidente Janio Quadros. A insistência na importância da reforma agrária foi uma das bases da mobilização “anticomunista” que, em 1964, conduziu ao golpe contra o presidente João Goulart.
Naquele contexto, o imaginário político prevalente associava ao modelo americano a defesa da democracia e ao modelo soviético a defesa do socialismo. A geopolítica dos blocos engessava os Estados nacionais, principalmente os dependentes, sem lhes dar margem para escolhas políticas próprias. A leste, golpes de Estado eram desencadeados em nome da “ameaça fascista”, a oeste em nome da “defesa da democracia”. No Chile, nas horas que precederam a derrubada de Allende, em diálogo com seus parceiros do comando militar, o general Pinochet pediu que o pronunciamento dirigido aos chilenos destacasse que “as Forças Armadas não [estavam] contra o povo, e sim contra o desabastecimento generalizado que estava causando o governo marxista do senhor Allende, contra as filas, contra a fome, contra a pobreza, contra a miséria, contra o sectarismo…”5. A situação que Pinochet pretendia denunciar era no entanto um dos elementos da própria estratégia golpista.
A preparação do golpe se havia apoiado em três mecanismos principais, muito semelhantes de resto ao que é possível observar, no Brasil, no período que precedeu o 1° de abril de 1964: atentados terroristas, desabastecimento e a conquista das Forças Armadas – no caso chileno, mais ainda do que no caso brasileiro, historicamente constitucionalistas. O início do governo de Salvador Allende foi marcado pela tentativa de sequestro e a morte do comandante-em-chefe do Exército, general René Schneider. Hoje, graças aos documentos desclassificados da CIA, o apoio direto dos Estados Unidos a esse atentado está perfeitamente estabelecido6. Houve apoio também à organização de extrema direita Patria y Libertad, que multiplicou atentados terroristas e criou situações de violência em passeatas e manifestações. Militantes de Patria y Libertad desferiram o tiro que, em 15 de junho de 1973, matou o estudante gaúcho Nilton Rosa da Silva, naquele momento exilado no Chile. Empresas americanas financiaram as grandes greves nacionais de caminhoneiros de 1972 e 1973, que instalaram no país uma importante crise de abastecimento, privando a população de gêneros de primeira necessidade e instituindo o mercado paralelo.
Menos conhecido e de abordagem mais recente na literatura é o apoio prestado ao golpe chileno pela ditadura brasileira. Em “O Brasil contra a Democracia”7, com pesquisas efetuadas no Brasil, no Chile e nos Estados Unidos, Roberto Simon põe em evidência a importância do embaixador Antônio Cândido da Câmara Canto nas articulações do golpe e no posterior apoio à ditadura militar chilena. Câmara Canto lutou ativamente contra a eleição de Salvador Allende. Aproximou-se dos comandantes das Forças Armadas chilenas, num esforço de convencimento de que Allende deveria ser derrubado, antes mesmo que tais cogitações estivessem na ordem do dia para eles. Obteve o reconhecimento imediato da Junta Militar, formada pelos comandantes das três armas e dos carabineros, que governou o Chile durante mais de um ano – o Brasil foi o primeiro país a fazer esse gesto. Obteve também do governo Médici um importante financiamento em apoio à Junta. O Instituto Butantan, como se sabe hoje, foi parte de uma rede de cooperação biotecnológica na América Latina dos anos 1960 e 1970 e esteve na origem do fornecimento da bactéria letal identificada nos restos mortais do poeta Pablo Neruda, causa provável de sua morte em 23 de setembro de 19738.
O Brasil não teve empresas desapropriadas e interesses econômicos contrariados pelo governo de Salvador Allende, como os Estados Unidos. Suas motivações golpistas eram ideológicas e políticas. Tratava-se de impedir a existência de um segundo país socialista na América Latina, capaz de apoiar a resistência à ditadura brasileira, na esteira da Revolução Cubana. O Chile vinha acolhendo, desde 1964, diferentes gerações de ativistas da luta contra a ditadura. Aproximadamente três mil foram cadastrados pela Associação Chileno-Brasileira de Solidariedade, a “Caixinha”. Havia, além deles uma população flutuante, de estatuto residencial pouco definido, ou com recursos que dispensavam apoio. A eles se agregava um número importante de asilados de outros países latino-americanos.
Os estrangeiros foram imediatamente visados pelo comando golpista. Nas conversas entre eles, registradas nas horas que antecederam o golpe, propõe-se que todos – “em situação ilegal, ou mesmo legal” – fossem orientados a se apresentar nas delegacias policiais9. Nos dias subsequentes, aviões espalharam panfletos em Santiago conclamando o povo chileno a denunciar os estrangeiros, que por sua simples condição de estrangeiros, independentemente do que houvessem feito, eram definidos como “uma ameaça à pátria”.
As prisões de chilenos e estrangeiros – nos bairros populares, nos cordões industriais, nas universidades – foram maciças e indiscriminadas. Três brasileiros – Tulio Roberto Quintiliano Cardoso, Luiz Carlos Almeida e Nelson de Souza Kohl – foram presos e fuzilados. A morte de Luiz Carlos Almeida foi testemunhada por um companheiro de infortúnio, que sobreviveu aos tiros desferidos contra ele à beira do rio Mapocho. Todos haviam sido arrancados de suas casas e levados sem razão precisa, apenas por serem homens, potenciais membros de uma resistência armada que o novo governo esperava ver emergir. As mulheres, nesses casos, haviam sido liberadas.
O Estádio Chile e depois o Estádio Nacional serviram de cárcere para muitos milhares de presos, homens principalmente. Wânio José de Mattos, banido por ocasião do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, que permitiu a libertação e o envio ao Chile de setenta prisioneiros políticos brasileiros, morreu no Estádio Nacional. Conforme depoimento do Dr. Otto Brockes à Subcomissão de Memória, Verdade e Justiça do Senado Federal10, Wânio foi acometido por uma peritonite aguda e não recebeu os cuidados médicos de que necessitava, embora seus carcereiros tivessem sido reiteradas vezes advertidos da gravidade do seu estado de saúde. Mulheres também foram presas, mas sempre em número bem inferior. Mulheres chilenas e brasileiras foram estupradas no recinto do Estádio Nacional e fora dele por oficiais chilenos. Anatailde de Paula Crêspo, filha dos fundadores das Ligas Camponesas Alexina Crêspo e Francisco Julião, foi submetida a vários fuzilamentos simulados.
A embaixada brasileira não protegeu seus cidadãos presentes no Chile e em risco de vida naquele momento. Eles tiveram de se dirigir a outras embaixadas e aos abrigos das Nações Unidas abertos logo depois. O embaixador Câmara Canto e seu adido militar, em contrapartida, acolheram toda uma equipe de repressão enviada pelo governo Médici (sua composição exata permanece objeto de controvérsia), para identificar brasileiras e brasileiros presos e formar oficiais chilenos nas modernas técnicas de tortura empregadas no Brasil11. Homens brasileiros presos foram usados como cobaias nessas demonstrações, conforme depoimento prestado por um deles à Comissão Nacional da Verdade. Homens e mulheres foram interrogados por esses delegados da ditadura no Estádio Nacional.
De modo geral, todo o serviço diplomático brasileiro no exterior foi mobilizado em prol da espionagem e do controle da vida das exiladas e dos exilados. Os serviços normalmente prestados aos cidadãos nacionais, como o fornecimento de papéis de identidade ou o registro dos filhos, foram-lhes sistematicamente negados, não apenas no Chile, mas em todos os países para onde eles se dirigiram em seu segundo exílio.12
Em 2023, por ocasião dos cinquenta anos do golpe, Ricardo Azevedo, ex-presidente da Fundação Perseu Abramo, teve a ideia de reunir um grupo de amigos, antigos exilados, para voltar ao Chile no 11 de setembro e prestar um tributo a Allende. Para organizar essa viagem, criou um grupo de WhatsApp denominado Viva Chile! Era um ato de memória, imaginado em bases modestas. Mas o grupo rapidamente cresceu. 480 pessoas assinaram um manifesto, relembrando que, ao tempo da Unidade Popular, o Chile havia honrado a letra de seu hino nacional, tornando-se “um asilo contra a opressão”13.
Em Santiago, éramos 150. O grupo de WhatsApp girou (e gira ainda, posto que se manteve) em torno de 250 membros ativos. E se tornou um laboratório de atividade memorial. Todas as referências bibliográficas indicadas neste artigo foram extraídas do WhatsApp do coletivo Viva Chile! Silvio Tendler produziu naquela viagem um curta-metragem, “Memória e Exílio”, cuja transformação em longa foi interrompida por sua morte prematura. Membros do grupo, crianças à época do golpe, produziram um livro extraordinário, “Crianças e Exílio – Memórias de Infâncias Marcadas pela Ditadura Militar”14 – reflexão retrospectiva feita pelos adultos que se tornaram desde então.

Placa em homenagem aos seis brasileiros mortos no golpe, cercada por membros do Coletivo Viva Chile
Plaza Brasil, Santiago do Chile, 12/09/2023
Um primeiro registro sobre essa viagem ao Chile foi produzido no livro de Beluce Bellucci e Valter Pomar, publicado em 2024 pela Fundação Perseu Abramo. Um segundo, bastante extensivo e completo, figura na dissertação de mestrado de Flavia Quintiliano Verri, defendida em 2026 na França, na Universidade de Créteil. Flavia havia acabado de completar um ano quando seu pai, Tulio Roberto Quintiliano Cardoso, foi sequestrado, morto e desaparecido por militares chilenos. Uma homenagem a Tulio e a outros cinco brasileiros mortos em função do golpe lhes foi prestada na Plaza Brasil, em Santiago do Chile, onde uma placa de bronze com seus nomes foi descerrada15. Para Flavia, aquele foi o ponto de partida de um processo de elaboração de sua própria história, que teve como (provável) primeira etapa essa dissertação – atualmente o relato mais completo até aqui realizado sobre as atividades do coletivo Viva Chile!16
Nessa cerimônia, que ocorreu em 12 de setembro de 2023 em presença da prefeita de Santiago, Iraci Hassler Jacob, do então Ministro da Justiça, Flavio Dino, e do então Ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, o embaixador Paulo Roberto Soares Pacheco, em um discurso emocionado, pediu desculpas aos chilenos pela colaboração do Brasil no golpe e aos ex-exilados brasileiros presentes pelo tratamento a eles dispensado pela Embaixada do Brasil, prometendo que isso nunca mais voltaria a ocorrer.
Angelina Peralva é socióloga, ex-professora da Universidade de São Paulo (1983-1997) e da Universidade de Toulouse (1997-2015). Viveu exilada no Chile entre maio de 1972 e outubro de 1973. Esteve presa por 45 dias no Estádio Nacional.
Notas
1 Salvador Allende, “Ultimo Discurso”. In Beluce Bellucci, Valter Pomar. 50 Anos (1973-2023). Golpe de Estado no Chile. Viva Chile! São Paulo: Fundação Perseu Abramo. Partido dos Trabalhadores, 2024, 181-184.
2 Maria Olivia Monckeberg, Fernando Paulsen. La grabación del GOLPE. Archivos Savador Allende, s.d..
3 O segundo colocado, Jorge Alessandri (Partido Nacional) obteve 35,29% e o terceiro, Radomiro Tomic (Democracia Cristã), 28,08%.
4 Programa básico de gobierno de la Unidad Popular: candidatura presidencial de Salvador Allende. 17 de diciembre de 1969. In Beluce Bellucci, Valter Pomar. 50 Anos (1973-2023). Golpe de Estado no Chile. Viva Chile! São Paulo: Fundação Perseu Abramo. Partido dos Trabalhadores, 2024, 67-109
5 “Hay que recalcar que las FFAA no están contra el pueblo, sino que están contra el hambre, contra la pobreza, contra la miseria, contra el sectarismo…” In Maria Olivia Monckeberg, Fernando Paulsen. La grabación del GOLPE., s.d, op cit..
6 Peter Kornbluh, The Pinochet File. The New Press, New York & London, 2003
7 Roberto Simon, O Brasil contra a Democracia. A Ditadura, o Golpe no Chile e a Guerra Fria na América Latina. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, 783 páginas.
8 Alvaro Marchant Cuevas, « Neruda, la bacteria y la justicia : el hallazgo científico que mantiene abierta la causa por sua muerte a más de 50 años”. El Desconcierto, 23 de diciembre de 2025. Ver também “Instituto Burtantan produziu veneno letal para a ditadura chilena”. Pública, março de 2024.
9 Maria Olivia Monckeberg, Fernando Paulsen. La grabación del GOLPE., s.d, op cit..
10 Depoimento prestado em 14 de abril de 2014.
11 Roberto Simon, op. cit.. Segundo Simon, essa função foi delegada aos brasileiros pelas autoridades americanas, que preferiram não se ocupar diretamente do assunto.
12 Silvia Whitaker (com Guilherme Sattamini). Chile, Setembro de 1973. A Atuação do Ministério de Relações Exteriores com relação aos cidadãos brasileiros que se encontravam no Chile por ocasião do Golpe de Estado de 11 de setembro de 1973. Relatório de Pesquisa. Brasília: Comissão Nacional da Verdade, setembro de 2014.
13 Manifesto Viva Chile! In Beluce Bellucci, Valter Pomar. 50 Anos (1973-2023). Golpe de Estado no Chile. Viva Chile. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. Partido dos Trabalhadores, 2024, 39-55.
14 Helena Lucas de Oliveira e Nadjejda Marques (Orgs.) Carta Editora, São Leopoldo, 2025. O livro foi vencedor do 42° Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, 2025. Comentário de Angelina Peralva em A Terra é Redonda (aterraeredonda.com.br), 7 de junho de 2025.
15 Os outros nomes registrados nessa placa são os de Luiz Carlos de Almeida, Nelson Kohl e Jane Vanini, como Tulio desaparecidos; o de Wânio José de Mattos, morto no Estádio Nacional; e o de Nilton Rosa da Silva, morto em junho de 1973, por um tiro disparado pela organização de extrema direita Patria y Libertad.
16 Flavia Quintiliano Verri. Les Brésilien.nes du collectif «Viva Chile-Brasil» et la commémoration du cinquantenaire du coup d’Etat militaire au Chili: enjeux et mémoires. Mémoire de recherche pour l’obtention du Master 2 «Histoire européenne comparée». Sous la direction de Mme Fanny Gallot. Faculté des Lettres, Langues et Sciences Humaines. Université Paris-Est Créteil, année universitaire 2025-2026.
