Seria uma tremenda injustiça histórica a derrota de Lula para alguém tão desqualificado quanto o filho de Bolsonaro. A trajetória de uma das maiores personalidades políticas da história do Brasil e hoje uma das maiores lideranças do mundo contemporâneo não merecia terminar de maneira tão absurda, melancólica e nefasta. A circunstância eleitoral de Lula ter de se defrontar na disputa com tal escorria já demonstra como setores da sociedade brasileira estão distantes da democracia, dominados por concepções autoritárias, visões neoliberais e fanatizados pelo ódio. Lula mais uma vez foi gigante em sua capacidade de liderança e de mobilização.
Uma extraordinária conjunção astral ocorreu para que o planeta não sofresse tal derrota. Movimentações estudantis espontâneas de uma juventude que parecia distante de Lula; costura em velocidade tecnológica do gigante exército virtual de Lula; apreensão diante da destruição de direitos sociais; mobilização de idosos contra os riscos do tesouraço; unidade de luta da esquerda e centro-esquerda ante o projeto fascista dos bolsonaros; atuação de setores democráticos e de direita amedrontados com a ameaça à democracia; atitudes corajosas do governo em relação a demandas populares, como o fim da escala 6×1 e das bets, abandonando posturas conciliatórias e tímidas; mudanças mais arejadas de direção da campanha de Lula; maior presença de Alckmin na disputa do segundo turno; todas elas e inúmeras outras variáveis convergiram em um excepcional instante astral, tendo Lula como catalizador de todas as esperanças. Tal confluência possibilitou a vitória. Nenhuma delas isoladamente explica o turbilhão ocorrido no segundo turno.
Conjunção astral geradora de energia vital para viabilizar a maravilhosa vitória. Apesar dos bolsões bolsonaristas cimentados por privilégios de classe ameaçados; interesses capitalistas; fundamentalismos religiosos; autoritarismos militares e civis; manipulação escandalosa da mídia, das big techs e de setores do Judiciário; intromissão indevida de potências estrangeiras; conservadorismos de segmentos das classes médias e atuação violenta, simbólica e física, dos fanatizados pelo ódio: apesar de toda essa enorme concentração de poder, a atitude democrática de parcelas vivas da população brasileira foi capaz de evitar a barbárie e o desastre, além de garantir esperança e vida.
A excepcional conjunção astral coloca desafios gigantescos para o quarto governo Lula. Como aglutinar e ampliar sua base social sem esquecer os princípios fundamentais de sua própria identidade política democrática? Como ser capaz de desenvolver um projeto de país, que agregue esses segmentos e se contraponha de modo vigoroso à extrema direita, instalada no Congresso Nacional, em muitos estados e municípios? Como agregar novos agentes políticos sem cair nos velhos esquemas de cooptação clientelista, que corroem e desfiguram o governo? Como reunir e encantar os complexos segmentos em um projeto de país, que democratize o Estado e a sociedade? Como traduzir a expressiva vitória de Lula em um país criativo, democrático, popular e nacional, que gere um novo bloco histórico? Como elaborar democraticamente um projeto de país que sirva para viabilizar e para orientar as políticas públicas necessárias para transformar o país? Como reunir as forças políticas tão díspares, mas aliadas à democracia? Como defender a democracia e simultaneamente a criticar, visando a confecção de um programa em movimento, aberto às novas questões do tempo-espaço?
Muitas questões surgem no horizonte para serem respondidas e equacionadas em um cenário nacional e internacional no qual predomina o autoritarismo capitalista neoliberal de extrema direita inimigo da democracia. Na verdade, a democracia está no centro do cenário de disputa contemporânea. Mas tal centralidade não pode significar simplesmente ter que defender a democracia liberal-representativa realmente existente, que se desgasta ao não ser capaz de atender as demandas da maioria da população, atacada pelas cruéis políticas autoritárias neoliberais de ampliação das desigualdades e das exclusões sociais. Colocar a democracia como dado vital da disputa contemporânea deve significar criticar as fragilidades-limitações da democracia liberal-representativa e ser capaz de imaginar-desenvolver uma democracia mais ampliada e efetiva, que democratize o Estado e a sociedade, de maneira radical e simultânea, e socialize cada vez mais a política, por meio de mecanismos inovadores de participação política. Essencial que a democracia deixe de ser compreendida apenas em seus necessários ritos formais e se traduza em políticas públicas democráticas efetivas, que melhorem as condições de vida e de trabalho da população.
Abertura e firmeza devem gestar atitudes inventivas, mas assegurar a continuidade crítica de políticas, programas e projetos. Um trabalho cuidadoso e primoroso do governo e da sociedade para configurar um outro Brasil, que comporte e incentive todas as esperanças emancipadoras e libertárias, reunidas pela conjunção astral, torna-se vital. Tal trabalho não pode prescindir de um projeto político-cultural do novo Brasil. Contra as limitações e as aberrações do Congresso Nacional, majoritariamente de direita e extrema direita, os lobbies do empresariado-mercado e a pressão dos setores autoritários instalados nas igrejas, nas forças armadas e agentes tomados pelo ódio, o quarto governo Lula, os partidos democráticos, em especial de esquerda, e a sociedade civil democrática precisam ser capazes de traduzir a excepcional conjunção política do segundo turno em programa firme e generoso de refundação substancial de um novo Brasil: democrático, soberano, justo, generoso e criativo.
Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador do CNPq
