“O tempo é de terror. Maldito fado / Ter eu de consertar o que é errado. / Vamos, entremos juntos, camaradas”. William Shakespeare, em Hamlet.

1.

O Brasil enfrenta o dilema shakespeareano, em 25 de outubro: “ser ou não ser”. Pode escolher ser uma nação mais justa e igualitária, com soberania nacional; ou optar por ser um país com orgulho das desigualdades, disposto a voltar a uma condição de colônia. O ponto é: como chegamos até a beira desse abismo?

Os meios de comunicação de massas tendo à frente a Rede Globo e o Judiciário com a Operação Lava Jato carregam toda responsabilidade pela gestação e normalização da extrema direita no cenário político. O primeiro passo é dado pela narrativa para que os torturadores durante a ditadura militar fossem travestidos de heróis, na opinião pública. Covardes e perversos viraram exemplos de cidadãos.

A prisão do Presidente Lula entre 2018 e 2019, sem prova de crime cometido, fruto da armação da mídia e do arcabouço institucional da Justiça, buscou dinamitar o patrimônio ético da esquerda. De tempos em tempos o fantasma udenista retorna à ativa – via lawfare – para atacar a reputação das lideranças populares. O calvário foi iniciado com o líder da Revolta da Chibata (1910), o bravo marinheiro João Cândido.

A verdade deixa de significar o valor supremo, desbancada por “fatos alternativos” – as fake news. Os Bolsonaros são o suprassumo do momento histórico de inversão de valores. As regras subjetivas na conduta de honestidade e respeito à dignidade dos que produzem a riqueza dão lugar à “pós-verdade”. O dístico positivista (“ordem e progresso”) cede ao mau-caratismo (“milícia e estelionato”).

“A sociedade não existe, só o que existe são os indivíduos e suas famílias”. Quem pensa de acordo com a ex-primeira ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, não tem espírito público ou projeto de mudança da realidade. Interessa-se apenas por tirar vantagem pessoal da situação, de preferência em um regime de exceção com as liberdades individuais restritas ao círculo de poder. Fora da cordialidade ficam os humanos genéricos, as vítimas da vigarice, os humilhados e ofendidos.

Que Michelle Bolsonaro tenha retirado as moedas do espelho d’água do Palácio do Planalto e o marido, no exercício da Presidência da República, tentasse furtar as joias sauditas pertencentes à União antes de entregar o cargo e sair pela porta dos fundos, não é mera coincidência. Na “guerra de todos contra todos”, a família trata de assegurar sua cota na pilhagem. Os rapazes seguem o “Pai total”, que se confunde com o lúmpem (trapo, pessoa desprezível) da literatura sociológica.

Treinado por um sociopata no papel de canastrão, o primogênito do clã reitera a tradição punguista dos ascendentes. Com bocas e caras atrás do Presidente Lula, invadiu o quadro visual do adversário para intimidá-lo, como desviou a atenção dos telespectadores. A manobra feriu a prerrogativa dos eleitores para formar um juízo autônomo. No encerramento do confronto fez dancinhas de regozijo. Achou-se o “rei da cocada”, quando era o palhaço sem graça de um circo mambembe.

2.

Os sonhos coletivos de transformação e emancipação soam anacrônicos para o individualismo neoliberal. Soluções autocráticas ganham audiência, enquanto a imprensa corporativa continua a naturalizar o monstro surgido do ressentimento social e da crítica às instituições democráticas. As virtudes da democracia foram sequestradas por mentiras em série, sob o signo de uma calamidade triunfal.

Alguns lucram com o caos. Têm interesses econômicos, e não só ideológicos, ao defender políticas de desregulamentação na legislação ambiental. Sob o pretexto do livre mercado, fazem da acumulação um princípio e do meio ambiente o reles estorvo desmatado pela motosserra – às favas com os escrúpulos ecológicos. A hegemonia da necropolítica sepulta o prazer de viver na cova do antropoceno.

O agro e o capital financeiro apresentam interesses particulares como interesses gerais, estimando encarnar o desejo da humanidade in totum. Nenhum endossa o projeto do governo democrático para uma “reindustrialização sustentável”. Nem o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) mostra entusiasmo com a agenda. Paulo Skaf financiou 65,5% da propaganda contra a Lula, de 5 a 10 do corrente, conforme a Redação Quenty com IA. A viralatice não tem limites.

Entende-se. As palavras mais usadas por décadas referem-se: crise da democracia; crise climática; ajustes fiscais; austeridade; cortes em reparações sociais, saúde, educação, transporte público, moradias sociais; pessoas pobres em situação de rua; fome; financeirização do Estado. Jornalistas domesticados repetem a senha. O vocabulário sugere o temor de dias piores; não a percepção otimista do futuro.

O declínio da industrialização impacta o Ocidente e os tristes trópicos. O arrocho salarial, as terceirizações, a informalidade, o empreendedorismo como estratégia de sobrevivência, a carestia, tudo cobra a conta hoje. Manifestações insubmissas na França, Itália, Espanha, Portugal e as mobilizações gigantes nas cidades brasileiras – para avançar mudanças sem retrocessos – sinalizam a virada.

A unipolaridade imperialista, o neoliberalismo, o trumpismo e suas variantes no mileismo e no bolsonarismo caem em descrédito apesar de constituir uma força social de peso. A balança pende para a democracia com a entrada em cena dos jovens, que querem tomar as rédeas do destino ora submetido ao livre mercado. A “geração Z”, de 18 a 24 anos, engajou-se na luta para garantir uma manhã de sol. A esperança renasceu. Lula e o povo brasileiro reatualizam um personagem mítico, Prometeu, ao levar o fogo à civilização na esquina escura da história. A Terra girou.

Como escreve o filósofo alemão G. W. E. Hegel, no livro Ciência da Lógica: “O mais alto amadurecimento ou estágio que qualquer coisa pode atingir é aquele no qual começa a perecer”. A questão é que as lutas sociais deslocaram o iluminismo, da razão, ao coração para pôr a economia a serviço do humano em vez do contrário. Eis o significado do mantra repetido: inserir já os pobres no orçamento da União.

O programa dos progressistas, sintetizado no binômio Lula/Alckmin, tem base na liberdade, na igualdade e na solidariedade. Propõe o reencantamento utópico das relações sociais e uma harmonia com a natureza, com a participação cidadã para democratizar a democracia. Entre ser ou não ser, vamos ser juntos para superar o passado autoritário, vencer os preconceitos, o ódio, o atraso e o medo. Bora lá.

Luiz Marques é docente de Ciência Política na UFRGS, ex-Secretário de Estado da Cultura (RS).