Inúmeros e complexos motivos podem definir o voto. A cada eleição tal complexidade se afirma, seja pela diversidade humana, seja pelas muitas inovações sociais e tecnológicas. Em um mundo em disputa entre a manutenção guerreira da unipolaridade e a emergência enigmática da multipolaridade, imaginar o lugar do Brasil torna-se crucial. Desejamos um país capaz de navegar com soberania nos tormentos da atualidade ou mais uma vez somos obrigados a aceitar uma nação submissa, que renuncia a seus interesses para se tornar mera colônia dos Estados Unidos? A arrogância do histriônico Trump, no seu afã bélico de império decadente, tenta impor sua nova desordem mundial ao planeta. Nela, a ausência de leis decreta a brutalidade do mais forte como único modo de resolver as enormes dúvidas civilizatórias da atualidade. Trump ameaça a todos, amigos e inimigos, fomenta guerras, persegue adversários, destrói as normas internacionais, rechaça a ciência e a cultura, nega as evidentes crises ambientais e climáticas, ataca os direitos humanos e intervém nos assuntos mundiais sempre a favor do capitalismo mais selvagem e da sua extrema direita, que desrespeita todas as conquistas civilizatórias da humanidade. Trump hoje é inimigo da democracia e da humanidade.
A submissão à Trump, defendida pelos Bolsonaros, significa não só abrir mão da defesa dos interesses e riquezas nacionais, como se aliar àquilo que de pior existe hoje no mundo: a extrema direita autoritária e antidemocrática do capitalismo neoliberal, que concentra recursos, produz gigantescas desigualdades sociais e coloca em risco a própria existência do planeta ao produzir guerras eternas e desconsiderar o colapso ambiental. Lula, em seus governos, sempre promoveu a soberania nacional, manteve o diálogo, ampliou as relações internacionais, defendeu o meio ambiente, lutou pela paz, apoiou a transição energética e diversificou nossos parceiros comerciais, em uma política altiva a favor das regras internacionais pactuadas, do multilateralismo e do respeito aos povos. Não por acaso, o Brasil passou a ser respeitado internacionalmente e Lula se tornou estadista mundial reconhecido por líderes das mais diferentes orientações político-ideológicas. Sua capacidade de diálogo foi testada nos tarifaços impostos por Trump ao mundo e ao Brasil. Saímos deles com um novo recorte das exportações e um leque bem mais amplo de países amigos e parceiros.
A democracia, cheia de ameaças autoritárias no mundo atual vindas não só de Trump, mas de muitos governos e movimentos de extrema direita pelo planeta, é um valor vital para a decisão do voto. Aparentemente distante das questões do cotidiano das pessoas, a democracia se traduz por meio da existência ou da negação de políticas públicas em benefício da maioria da população. A democracia ampliada contemporânea só pode se afirmar para enfrentar o capitalismo neoliberal e sua extrema direita se, e somente se, for capaz de ser governo do povo para o povo, de democratizar o Estado e a sociedade, de desenvolver políticas públicas sociais voltadas para a maioria da população nas mais diferentes áreas da sociedade, tais como: distribuição de renda, emprego, economia solidária, agricultura familiar, pequenas e médias empresas, educação, saúde, habitação, alimentação, meio ambiente, cultura, ciência e tecnologia, transição energética, transportes, reconhecimento da diversidade social e cultural, migração, dentre outras.
O embate pelo poder do Estado envolve a disputa da democracia e das políticas públicas. O capitalismo neoliberal e sua extrema direita, no mundo e no Brasil, buscam capturar o Estado, inviabilizar sua democracia e suas políticas públicas, e “reduzi-lo” ao que eles e a mídia chamam de “Estado mínimo”. Em verdade, trata-se de transformar o Estado em um aparelho, nada mínimo, apenas destinado a beneficiar as classes dominantes. A gestão Bolsonaro foi exemplar nessa perspectiva de entrega do Estado aos interesses das classes dominantes em detrimento daqueles de todo restante da sociedade. Ele destruiu políticas sociais, colocou de volta o Brasil da fome e rebaixou o lugar do país entre as maiores economias do mundo.
A democratização do Estado e da sociedade e a implantação de políticas públicas sociais no país pós-ditadura, com todas as suas ambiguidades, avanços e retrocessos, permitiu pensar o desenvolvimento integrando dimensões econômicas, sociais, ambientais, políticas e culturais.
Os governos Lula, com seus altos e baixos, expressaram tal projeto. As gestões pós-golpe de 2016, de Temer e de Bolsonaro, deprimiram a democracia e o desenvolvimento. A disputa entre a exclusão e a inclusão da maioria da população reapareceu na cena. O Brasil sempre excludente das classes dominantes se contrapõe ao projeto de inclusão e democratização da sociedade vigente nos governos Lula, ainda que em alternativa bastante conciliatória. Mas nem essa atitude foi capaz de apaziguar as resistências e diminuir o ódio visceral das classes dominantes, ainda mais quando o projeto era presidido por um nordestino, operário, pobre e sem educação formal, que na visão elitista se confunde com ausência de cultura. Uma liderança maior que aquela dos dirigentes provenientes das classes dominantes, com sua constante mediocridade, é inconcebível e inaceitável para o elitismo dos donos do poder no Brasil.
O ódio visceral das classes dominantes destinado ao conciliador, mas assertivo, Lula se expressou na sua perseguição implacável em todas as eleições e para além delas. Muitos exemplos podem ser lembrados: a manipulação grotesca do debate entre Collor e Lula em 1989; o “jornalismo de campanha”, abarrotado de fake news, que produziram 59 capas de revistas, 680 manchetes de primeira página e 13 horas de Jornal Nacional, buscando desqualificar e associar Lula à corrupção; o apoio e a conivência à perseguição de parte do Judiciário que prendeu Lula sem provas; as negativas para que ele estivesse presente em mortes de seus familiares, algo que não aconteceu nem na ditadura; a recente e escandalosa “entrevista” da Rede Globo nas eleições de 2026; o estranho almoço na Rede Globo de Flávio Bolsonaro no mesmo dia de sua sabatina pela emissora; enfim, a lista seria por demais longa para esse breve texto. A perseguição das classes dominantes e sua mídia foi implacável com Lula e sua família. Agora, incapaz de imputar mais desvios a ele, seu filho Fábio Luís Lula da Silva se tornou a vítima escolhida para atacar o pai.
Lula não respondeu a toda essa obsessiva caçada com agressões ao Poder Judiciário, mesmo tão injusto contra ele, nem com intimidação aos jornalistas e afronta à mídia e seus donos capitalistas, diferente da extrema direita bolsonarista que, na gestão federal ou fora dela, hostiliza, insulta e ataca todo dia os poderes da República, a mídia e os jornalistas. Seu comportamento nas três derrotas presidenciais eleitorais foi exemplar no respeito aos resultados eleitorais, por mais que manipulações contra ele ocorressem, como no caso escandaloso de debate na Rede Globo. Nada próximo da difamação continuada das urnas e do sistema eleitoral como sempre faz Trump e Bolsonaro no caso brasileiro, um exemplo para o mundo em termos de segurança e de rapidez. Nada de recusar a decisão popular e tentar um golpe, como o de 2023, para subverter a vontade popular.
Ao tentar igualar as atitudes de Lula ao comportamento dos Bolsonaros, os poderes constituídos e, com destaque, a chamada grande mídia, em sua mesquinhez, mentem, assumem uma postura vergonhosa e terminam por apoiar os setores autoritários, que pretendem destruir a democracia por dentro das instituições ou por meio de golpes escancarados como o de 2023 ou encobertos como o de 2016. Enfim, tais segmentos do Judiciário e a mídia, em sua quase totalidade, corroem a, já frágil, democracia brasileira. Apesar de todo esse ódio destilado contra Lula cotidianamente, ele não respondeu e não se alimentou do ódio. O ódio é patrimônio da extrema direita bolsonarista e de seus aliados no Judiciário, no empresariado, nas Forças Armadas, nos fundamentalismos religiosos e na mídia.
Tal ódio tem dilacerado a vida e a política brasileira, algo que nunca acometeu as disputas políticas e eleitorais polarizadas entre o PT e o PSDB. Agora a polarização existente na sociedade não reúne posições divergentes, plurais, próprias e necessárias ao ambiente democrático, mas contrapõe democratas, de tonalidades ideológicas variadas, e forças autoritárias, que querem destruir a democracia. Ao não assumir a diferença vital, as forças políticas de centro e de direita, bem como a mídia terminam colocando em grande perigo a democracia no país. Não há neutralidade possível no embate entre autoritarismo e democracia.
Lula marcou a política brasileira no século 20 e 21. Ele foi protagonista de lutas memoráveis do povo brasileiro, tais como: as greves operárias do ABC, a fundação do Partido dos Trabalhadores, o movimento das Diretas Já, a eleição do primeiro trabalhador para a presidência do Brasil, o embate jurídico-político para desmascarar sua injusta prisão, a vigília e a campanha Lula Livre, a primeira pessoa a ocupar por três vezes a presidência da República por vias democrático-eleitorais. Sua presença na história recente do Brasil e do mundo é marcante.
Agora, com seus mais de 80 anos, ele personaliza a liderança capaz de mobilizar, nas ruas e nas redes, a esperança de dezenas de milhões de brasileiras e brasileiros, petistas ou não, gente de esquerda, de centro e de direita, jovens e velhos, brancos e negros, hetero e homossexuais, membros das mais variadas religiões, ateus, pessoas das classes trabalhadoras, das classes médias e de outros segmentos sociais. Lula hoje representa a resistência ao autoritarismo neoliberal de extrema direita e a possibilidade de ampliação da democracia no Estado e na sociedade. Sua vitória no dia 25 de outubro não só será mais um ato político-eleitoral vigoroso para fortalecer sua notável trajetória existencial, mas será uma vitória vital para a democracia no Brasil, na América Latina e no mundo.
Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador do CNPq
