A experiência do salário mínimo mostra que crescimento e distribuição de renda podem avançar juntos. O Brasil pode articular investimento, inovação e produtividade com melhores salários e empregos, fortalecendo o mercado interno e o desenvolvimento. O desafio da próxima década é transformar essa estratégia em compromisso político e social.
Segundo a Nota Técnica nº 289 do Dieese, o reajuste do salário mínimo para R$ 1.621 acrescentou cerca de R$ 82 bilhões à renda na economia brasileira em 2026, considerando aproximadamente 62 milhões de pessoas cujos rendimentos são referenciados pelo piso. Ao influenciar aposentadorias, benefícios e outras remunerações, o mínimo amplia consumo, faturamento, arrecadação e a dinâmica das economias locais. Um acréscimo mensal de R$ 103, multiplicado por dezenas de milhões de pessoas, converte-se em demanda e retroalimenta produção, empregos e renda.
Salário não é apenas resultado do desenvolvimento. Salário também produz desenvolvimento.
Uma transformação construída socialmente
Em abril de 2002, o salário mínimo era de R$ 200. Em janeiro de 2026 chegou a R$ 1.621. Segundo o Dieese, houve aumento nominal de cerca de 710% e, descontado o INPC, ganho real de aproximadamente 100%. Em pouco mais de duas décadas, o mínimo dobrou seu poder de compra.
Essa transformação resulta de muita luta social e política. A partir de 2004, as centrais sindicais organizaram as Marchas da Classe Trabalhadora e colocaram a valorização do mínimo entre suas principais reivindicações. A negociação com o governo federal levou à política de reposição da inflação e aumento real relacionado ao crescimento da economia.
Por trás dessa fórmula há uma ideia distributiva poderosa: se a economia cresce, uma parte desse crescimento deve chegar a quem vive do trabalho.
A política foi transformada em lei, interrompida entre 2019 e 2022 e retomada a partir de 2023. Elevou o poder de compra; valorizou aposentadorias, pensões e benefícios; repercutiu no mercado informal e influenciou pisos salariais e negociações coletivas pelo “efeito farol”.
Os R$ 82 bilhões estimados para 2026 medem apenas um reajuste. O efeito histórico é maior porque cada ganho real se incorpora à base dos posteriores. Uma política que dobrou o poder de compra do mínimo e hoje referência para mais de sessenta milhões de brasileiros modificou profundamente a distribuição e a circulação da renda.
O mercado interno é uma força econômica
O Brasil possui um ativo extraordinário, que é um mercado interno de dimensão continental. Mas população numerosa não constitui automaticamente um grande mercado: é preciso renda e capacidade de consumo. É nesse ponto que política salarial e desenvolvimento se encontram.
Salários maiores ampliam a demanda, o mercado das empresas, a escala da produção e o estímulo aos investimentos. Estes incorporam tecnologia, conhecimento e inovação, ampliando capacidade produtiva e produtividade.
Mas essa dinâmica não acontece espontaneamente. Se a demanda crescer sem correspondente ampliação e transformação da capacidade produtiva, parte do impulso poderá converter-se em importações, gargalos de oferta ou pressões sobre preços. Portanto, não basta aumentar salários para produzir desenvolvimento. Política salarial e política de transformação produtiva precisam fazer parte da mesma estratégia nacional.
Produzir mais valor, em vez de pagar menos
Essa abordagem muda a discussão sobre competitividade. Em vez de perguntar como reduzir o custo do trabalho, precisamos perguntar como aumentar o valor produzido pelo trabalho?
Competir comprimindo salários, direitos e condições de trabalho pode reduzir custos no curto prazo, mas tende a aprisionar o país em atividades de menor valor agregado, baixa capacidade tecnológica e baixa produtividade.
O caminho é outro, construir relações econômicas de cooperação orientadas pelo investimento, conhecimento, tecnologia, inovação, infraestrutura, qualificação profissional e produtividade.
A Nova Indústria Brasil constitui uma base importante porque organiza a política industrial a partir de grandes missões nacionais e articula inovação, sustentabilidade, soberania e desenvolvimento produtivo. Mas a NIB precisa ser fortalecida e articulada com outras políticas setoriais e territoriais. Saúde e fármacos, transição energética, bioeconomia, inteligência artificial, semicondutores, infraestrutura, agroindústria, turismo, cultura e economia dos cuidados oferecem oportunidades para adensar cadeias produtivas. Investimento, crédito, ciência e tecnologia, infraestrutura, formação profissional e compras públicas precisam convergir para ampliar a produção de maior valor agregado.
O desafio de distribuir os ganhos de produtividade
Inteligência artificial, automação, robotização, digitalização e novas formas de organização das empresas poderão gerar expressivos ganhos de produtividade. Isso abre enormes oportunidades, mas também uma disputa distributiva fundamental: quem ficará com esses ganhos?
Não existe mecanismo automático que transforme produtividade em salários. Os ganhos podem concentrar-se no capital, financiar investimentos e inovação, ampliar a capacidade fiscal do Estado ou melhorar salários e condições de trabalho. Sua distribuição depende das instituições e escolhas políticas.
O desafio é estabelecer uma relação virtuosa entre produtividade e trabalho. Parte dos ganhos deve retornar às empresas em investimento, pesquisa e inovação; outra deve fortalecer a capacidade do Estado de financiar infraestrutura, serviços públicos, ciência e proteção social; e uma parte precisa chegar a quem trabalha por meio de salários, melhores empregos, formação, proteção social e redução do tempo de trabalho. É preciso construir a ponte entre produtividade e qualidade de vida.
Salário mínimo, negociação coletiva e emprego
A política de valorização do salário mínimo é uma das instituições capazes de realizar o processo distributivo da renda, mas não pode ser a única. A elevação do conjunto dos salários exige também sindicatos representativos e negociação coletiva forte.
É por meio da negociação que trabalhadores e empresas podem discutir como os ganhos de produtividade serão compartilhados nas empresas, setores, cadeias produtivas e territórios. Se a estratégia de desenvolvimento pretende elevar a produtividade brasileira, a negociação coletiva precisa voltar ao centro da política econômica. Salário mínimo e negociação coletiva exercem funções complementares: o mínimo movimenta o piso das categorias e a negociação coletiva distribui os ganhos ao longo da estrutura salarial.
A política de desenvolvimento costuma avaliar investimentos pelo montante aplicado, produção, exportações, conteúdo tecnológico ou impactos fiscais. Precisamos incorporar outra dimensão: a quantidade e a qualidade dos empregos gerados.
Quando o Estado financia investimentos, oferece crédito, infraestrutura, compras públicas ou incentivos à inovação, deve conhecer seus impactos sobre o trabalho: empregos, ocupações, remuneração, formação, saúde e segurança e participação nos ganhos de produtividade. Bons empregos também são política industrial e de desenvolvimento produtivo.
Antecipar para incluir
O Brasil possui uma grande população em idade de trabalhar e convive com informalidade, rotatividade, subutilização e milhões de pessoas em atividades de baixa produtividade. Uma transformação produtiva acelerada poderá ampliar a distância entre quem possui as capacidades demandadas e quem permanece à margem das novas oportunidades.
Por isso, precisamos construir uma Política Nacional de Inclusão Produtiva, articulada à estratégia de desenvolvimento. A lógica precisa mudar: em vez de formar depois que aparece a escassez de trabalhadores, formar antes; em vez de preparar o trabalhador somente depois que perdeu o emprego, preparar a transição antes; em vez de descobrir quais profissões serão necessárias quando o investimento já está instalado, identificar essas demandas quando ele é decidido.
Nosso objetivo estratégico deve ser antecipar para formar antes que a mudança produza exclusão. Isso exige conectar investimentos, transformações tecnológicas e demanda de trabalho com educação profissional, reconhecimento de competências, intermediação, empreendedorismo, crédito, assistência técnica, cooperativismo e economia solidária. Essa articulação precisa chegar aos territórios com participação social.
Um projeto de desenvolvimento centrado no trabalho
Investimento amplia a capacidade produtiva; ciência, tecnologia e inovação aumentam produtividade e agregação de valor; a política produtiva organiza prioridades e adensa cadeias; formação e inclusão conectam pessoas às oportunidades. Empregos de qualidade, negociação coletiva e salário mínimo fazem os resultados chegarem ao trabalho. A proteção trabalhista e previdenciária oferece segurança nas transições e deve alcançar todas as formas de ocupação e contratação. Salários maiores fortalecem o mercado interno, alimentando novamente produção e investimento.
Não se trata de escolher entre crescimento e distribuição, nem de imaginar que primeiro devemos crescer para depois distribuir. O desafio é investir, crescer, transformar e distribuir simultaneamente. Mas uma estratégia dessa dimensão precisa de um instrumento político que articule diálogo social, participação, compromissos, metas e ação nos territórios.
Um compromisso nacional para transformar estratégia em ação
O Brasil deveria instituir um Compromisso Nacional pelo Desenvolvimento, Trabalho e Renda, concebido como instrumento permanente de diálogo social, articulação e construção de compromissos para a próxima década, com metas públicas, responsabilidades definidas e revisão periódica.
Sem criar nova burocracia, o Compromisso deve articular conselhos, instituições e políticas existentes para elevar a produtividade, gerar empregos de qualidade, ampliar a renda do trabalho e reduzir desigualdades.
No âmbito nacional seriam articuladas prioridades, metas e indicadores. Nos territórios, essas diretrizes ganhariam expressão concreta, relacionadas aos investimentos e oportunidades. Empresas assumiriam compromissos de investimento, inovação e emprego; trabalhadores, instituições de ensino e sociedade civil participariam da formulação, implementação e avaliação.
Não se trata de uma negociação abstrata entre capital e trabalho, mas da construção de uma agenda aplicada para a década.
Fortalecer a participação social
O Brasil já possui uma importante arquitetura de participação social. O CNDI e os diferentes conselhos e espaços relacionados ao trabalho, ciência e tecnologia, educação, desenvolvimento econômico e social, fundos públicos e outras políticas reúnem governo e atores sociais para formular, acompanhar e avaliar políticas.
O Compromisso não deve concorrer com essa arquitetura, mas fortalecê-la e conectá-la em torno de objetivos comuns. Política industrial, ciência e tecnologia, educação, trabalho, proteção social, infraestrutura, desenvolvimento regional e transição ecológica não podem funcionar como agendas isoladas quando incidem sobre a mesma transformação econômica e social.
O diálogo social não deve ocorrer somente depois que as decisões foram tomadas ou quando os conflitos aparecem. Precisa participar da antecipação das mudanças, da construção das escolhas, da implementação e da avaliação dos resultados.
Essa antecipação é ainda mais necessária diante das transições tecnológica, climática, energética e demográfica. O diálogo social deve ajudar a antecipar impactos e distribuir de forma justa custos, oportunidades e benefícios.
Fazer o desenvolvimento chegar ao território
Uma estratégia nacional somente se realiza quando chega ao território. É ali que o investimento acontece, os trabalhadores vivem, as tecnologias modificam ocupações e as políticas públicas se encontram – ou deixam de se encontrar. Não se trata de reproduzir uma estrutura nacional padronizada, mas de traduzir os objetivos nacionais para cada contexto por meio do diálogo social.
Cada território possui estrutura produtiva, instituições, capacidades tecnológicas, infraestrutura, força de trabalho, desigualdades e oportunidades próprias. Por isso, deve identificar investimentos e cadeias prioritárias, capacidades locais, mudanças ocupacionais, demanda por competências, potencial de geração de empregos e medidas para incluir trabalhadores e pequenos empreendimentos.
Mais do que executar políticas concebidas em outras instâncias, trata-se de permitir que a sociedade organizada se aproprie do debate sobre o desenvolvimento do território, participe das escolhas e construa compromissos com sua implementação.
Isso exige reunir governos, empresas, sindicatos, universidades, escolas técnicas, Sistema S, instituições financeiras, cooperativas e organizações sociais. O território deixa de ser apenas o lugar onde políticas nacionais são executadas. Passa a ser espaço de participação, formulação, pactuação e construção de capacidades para o desenvolvimento.
Da participação ao compromisso
Há uma diferença importante entre consultar a sociedade e construir compromissos. O diálogo social permite identificar interesses diferentes, antecipar conflitos, construir convergências e melhorar as políticas. Mas precisa também produzir responsabilidades concretas entre os atores.
Diante de um grande investimento, o poder público pode assumir compromissos de infraestrutura e formação; empresas, metas de inovação e empregos de qualidade; instituições de ensino, a formação necessária; sindicatos, a negociação das mudanças no trabalho; instituições financeiras, crédito para fornecedores e pequenos empreendimentos; e organizações sociais, ações de inclusão.
É nesse sentido que o Compromisso se transforma em uma agenda aplicada de desenvolvimento. A participação social deixa de ser apenas acompanhamento da política e passa também a contribuir para sua construção e implementação.
Tarefa para a próxima década
A experiência do salário mínimo mostra que escolhas institucionais mudam trajetórias. Podemos estabelecer uma ambição para o próximo ciclo: fazer da próxima década um período de transformação produtiva acompanhado por forte e persistente elevação da renda e da qualidade de vida de quem trabalha.
Uma estratégia de valorização do trabalho precisa atuar simultaneamente em três direções: aumentar a renda do trabalho, elevar a produtividade e reduzir estruturalmente o custo de vida. O objetivo é fazer o desenvolvimento chegar concretamente à vida cotidiana.
A experiência do salário mínimo mostrou que distribuir renda pode também fortalecer a economia e produzir desenvolvimento. O desafio da próxima década é levar essa lógica a uma escala maior, articulando transformação produtiva, produtividade, trabalho, renda e qualidade de vida.
Não apenas produzir mais ou crescer mais. Produzir melhor, distribuir melhor e viver melhor.
Clemente Ganz Lúcio é sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República, e do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil. Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, coordenador do Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, consultor e ex-diretor técnico do Dieese (2004/2020).
