A campainha tocou.

Levantou o olho mágico.

Um homem estranho: coração disparou.

Gelou.

Andava sempre assim: à espera.

Um dia, chegariam.

Sabia disso.

Abriu a porta, que jeito?

– Pois não.

O homem foi falando:

– Olhe, o Tião envolveu-se numa briga. Está na delegacia. E quer sua presença. Quero que nos acompanhe.

Nazaré, estranhando.

– Minha senhora, não se preocupe, não há problema. Ele só quer que a senhora vá lá na delegacia.

Nazaré, estranhando.

– Está tudo bem. É só ir lá para buscá-lo – homem insistia.

Nazaré teve certeza: eram os homens.

Tião, numa briga?

Nem pensar.

Tião?

Sujeito incapaz de brigar, de envolver-se em qualquer confusão.

Por natureza, pacífico, bonachão.

Carinhoso com todo mundo.

Amigo de todos.

Pronto sempre a apartar qualquer confusão.

E a maconha ajudava ainda mais a mansidão dele.

Estavam de treita com ela.

Era a ditadura.

Sebastião Amaral do Couto nasceu em 16 de novembro de 1950.

Em Maragogipe, a 130 quilômetros de Salvador.

Na cidade natal ficou pouquíssimo tempo.

Cedo, o destino era Salvador.

Ali, passa a maior parte da vida.

No bairro da Saúde, principalmente.

Os pais, Gregório e Eclea Couto mandaram-se logo para a capital.

Tião conviveu com sete irmãos: Luiz Antônio, Lira Graça, Cristina, Antonino, Luciana, Amália Maria e Maria Amália.

Jovem, torna-se militante do PCB.

Vai trabalhar no Pólo Petroquímico de Camaçari.

Não apenas trabalhar.

Com os olhos na classe operária moderna, a nascer no município.

O PCB sabia: o futuro do movimento operário estava ali.

E o futuro da Bahia.

Estava certo: aquele movimento vai propiciar dois governadores, mais tarde.

Wagner e Rui foram petroquímicos.

Tião, todo mundo o conhecia assim.

Nome frio no partido, Jorge.

Cultivava uma visão ácida: pouca coisa prestava no país.

Talvez por isso, comunista.

Queria virar esse mundo numa festa de trabalho e pão, e de muita alegria.

Melhorar o Brasil.

Autodidata, lia muito, compulsivamente.

Nazaré, magrinha.

Cabelo black power.

Meio riponga no vestir.

Por estilo e economia.

Que jeito dar?

Tinha de acompanhar o homem, e sabia não ser nada de delegacia.

A filha chorou, no quarto.

Anastácia queria a mãe.

Nascera em 3 de novembro de 1973.

Nem dois anos tinha, a menina.

Já era noite naquele 4 de julho de 1975.

Seria uma noite de terror.

Só falar com a vizinha, disse ao sujeito, quase inocentemente, ou fingindo inocência.

Ele aquiesceu, sabe-se lá por quê.

Tinha uma vizinha chamada Teresa.

Foi lá, contou tudo, estou sendo presa, Tião está preso.

Voltou.

Teresa havia de contar à mãe de Tião, a quem pudesse.

Cumpria uma determinação do PCB: nunca ser presa sem avisar alguém.

Assim, não seria morta.

Ou ao menos, corria menos riscos de ser assassinada.

Tião fora preso antes de chegar em casa.

Era uma gigantesca operação contra o PCB, no país inteiro.

Vai saber depois.

Encapuzado, jogado num veículo, algemado e encapuzado.

Pra onde?

Só Deus sabia.

Pensou em Nazaré.

Na filha Anastácia.

Restava pensar, naquela escuridão.

No começo, recorda-se, foi morar com ela na pequena casa na Ladeira da Barra.

Eles tinham um quarto.

Os outros dois companheiros do Partidão, Marighella e Zé Ivan, outro.

Lembrava-se bem: ele a conhecera no final de 1971.

Nazaré argumentou: tenho de levar minha filha, deixá-la com minha sogra.

– Nada, ela vai com a gente também. A senhora volta logo.

Ela, consciente de tudo, acompanhou o homem até a rua.

Subiu as escadas, era um apartamento no subsolo, e logo chegados à rua, viu o fusca parado.

Abruptamente algemada, encapuzada, e jogada no fundo do carro.

Havia uma outra pessoa no fusca.

Carlos Marighella – vai saber mais tarde.

Carlinhos Marighella, filho do velho comandante, assassinado pela ditadura em 1969.

Nem viu a filha, levada para outro carro, destino desconhecido.

É.

A filha presa.

Um criança de menos de dois anos de idade.

Nazaré não era militante.

Ainda.

Era arrolada na condição de simpatizante do partido, não obstante cumprisse tarefas de militante.

Quando casou com Tião, não tinha ideia de onde estava se metendo.

Trabalhava na lanchonete do supermercado Paes Mendonça, no Chame-Chame.

Volta e meia, Tião, Marighella e José Ivan Pugliesi, os três militantes do Partidão a compartilhar pequena casa da Ladeira da Barra, iam lanchar lá, por barato e próximo de onde moravam.

Tião, ousado, foi pra cima de Nazaré: ela topou o jogo.

Dois meses, e estavam morando juntos.

Não se conheceram direito, claro.

Meio apertados, pouco espaço.

Pouco depois, vão para o apartamento, onde será presa.

Tião, aos solavancos da estrada, ia pensando.

Primeiro, em como resistir.

Nada dizer aos torturadores.

Era de lei – resistir à tortura.

Era da orientação do PCB.

E curioso, no meio daquela tormenta, pensava em Nazaré.

Fora um encantamento aquele encontro do final de 1971.

Ela tornou-se militante, embora oficialmente apenas uma simpatizante.

Mergulhada na vida política por ele, por Marighella, por Ivan.

Envolveu-se em tarefas arriscadas, como distribuir o “Voz Operária”, jornal oficial do PCB.

Recebia as indicações de a quem entregar o jornal, e cumpria rigorosamente as determinações.

Pra onde estão me levando? – perguntava-se.

Maria Nazaré Mota de Lima nasceu em Nazaré das Farinhas.

Quando a cidade guardava enorme importância.

Entrou em decadência mais tarde.

Nasceu um mês antes de Tião: 16 de outubro de 1950.

A mãe, Maria Mota de Oliveira Lima.

Pai, Cândido de Sena Lima.

Cândido desistiu de ser lavrador, e tornou-se, como ele próprio se definia, um negociante.

Desembarcava em Salvador, comprava uma renca de coisas, e danava-se a percorrer o interior, vendendo as novidades, e o povo gostava, e ele resolvia com isso o pão de cada dia para a família.

Um mascate.

Não, nem carro tinha.

Fazia as vendas conforme desse – a cavalo, de burro, ou pegando um ônibus aqui, descendo, subindo noutro acolá, descendo, chamando o povo, vendendo.

Abrir a mala, e vender.

Bom mascate.

Bom negociante.

Grande vendedor.

Virador.

Passava um tempão longe de casa a fim de ganhar o sustento.

Nazaré, cheia de irmãs e irmãos: Carmosino, Eleyde, Carmelita e Cândido, ela, caçula.

Estudou no Clemente Caldas, em Nazaré das Farinhas, onde fez ginásio e o primeiro ano do Normal.

A cidade ainda guardava alguma importância, resquícios de uma época gloriosa, quando era uma espécie de capital de toda aquela região.

O Colégio Clemente Caldas ganhou renome por abrigar alunos como Waldir Pires e Luís Henrique Dias Tavares, entre tantas figuras notáveis.

Um, governador da Bahia um dia.

O outro, o maior historiador do Estado.

A escola acolheu também Nazaré.

Terminou o Normal no Colégio Alípio Franca, onde fez o segundo ano, e no Costa e Silva, onde o concluiu, tudo na Cidade Baixa, ano de 1969.

Quando desembarcou em Salvador, Eleyde, a irmã, já estava na capital, casada com Elson Luís Alves dos Santos.

Por isso, pôde vir.

Tinha retaguarda.

Em 1972, faz vestibular para Letras, na Universidade Federal da Bahia.

Passa.

Termina o curso em 1976.

Tião se surpreendeu ao chegar.

Foi retirar o capuz e se viu num descampado.

Sentiu logo: estava no município de Alagoinhas, um pouco antes do início da cidade propriamente.

Deparou só com gente conhecida.

Companheiros e companheiras do PCB.

Ouvira falar do cerco ao Partidão, mas não pensara fosse tão rápido e tão abrangente.

Foi chegar e ser amarrado aos demais companheiros.

Parecia corda de caranguejo.

Todos ligados entre si.

Nada de separar homem e mulher.

Tiravam as algemas e amarravam um no outro, com uma corda grossa, nós bem apertados.

Tantos, os conhecidos.

Dirigentes do Partidão, muitos.

Caímos – ele pensou.

Toda a direção estadual estava ali, na corda de caranguejos.

Nazaré ficou estupefata ao chegar à Fazendinha.

Ficou conhecida assim, sabe-se lá por quê.

Talvez pelo descampado.

Fazendinha.

Olhava, e só via rostos conhecidos quando lhe tiraram o capuz, as algemas, e a amarraram na corda de caranguejos.

Tião estava lá.

Não quis falar com ele.

Seguia as instruções recebidas pelos dirigentes do partido com quem se encontrava frequentemente.

Ninguém conhece ninguém.

Não se deve admitir.

As orientações de Paulo Fábio, o assistente político, o encarregado de formá-la até ganhar condições de vir a ser militante.

Tião tentou.

Encontrou maneira de se aproximar, e foi logo dizendo:

– Nazaré, Paulino Vieira caiu…

– Quem? Não conheço ninguém com esse nome…

– Olhe à sua esquerda: Contreiras também caiu… – insistiu.

– Quem? Não conheço….

– Não, não reaja assim, pode abrir porque tudo caiu – ele dizia.

– Como assim? O que caiu? Não sei de nada disso.

Havia recebido orientações para não admitir nada, para não reconhecer ninguém, então fosse assim.

Agiu assim o tempo todo.

Insistia em se manter calada, em nada admitir, impressionando e calando até diante do marido, militante mais experiente, mas quem sabe mais flexível.

Permaneceu assim todo o tempo.

Tião, impressionado, e de alguma forma orgulhoso.

– Que mulher!

Paulo Miguez, hoje reitor da Universidade Federal da Bahia, militante do Partidão, ouviu essa história na Casa de Detenção, em Santo Antônio Além do Carmo, onde cumpriram pena os presos políticos do PCB.

Todos riam, gozavam de Tião.

Soube amar.

Amava a vida.

E as mulheres.

Não foi uma longa existência: morre no início do novo milênio, em 2000.

Tião encarou corajosamente a queda de 1975.

Na Fazendinha, nas contas feitas até agora, estavam 48 militantes, entre homens e mulheres.

Olhava o entorno, a corda de caranguejos, e lá estavam os companheiros, as companheiras.

Nem devia, mas impressionou-se com a precariedade de condições.

Ao relento, todos eles.

Não havia sanitários.

Nada de banho, nenhum local para lavar as mãos.

Muito menos local onde dormir.

Barro, muito barro.

Sapatos atolados.

Por si só, pelas condições do local, todos eram torturados.

Preocupou-se com Nazaré, à chegada, mas logo se despreocupou, tal a firmeza dela, a negar tudo.

Negar-se até a responder perguntas dele.

Nazaré fala com muito carinho da relação deles.

Ele o apresentou a um outro mundo.

Outra cultura.

Outra concepção de mundo.

Sacco e Vanzetti.

Os companheiros.

Cinema Novo.

Glauber Rocha.

Milton Nascimento.

Chico Buarque.

Um refinamento cultural antes desconhecido.

As amizades, crescendo.

Waldemar Oliveira, Domingos Leonelli.

Convivência com a família Santana.

Sérgio, Marcelo, Marcos, Ieda, Luciano.

Com dona Isabel Santana, dona Bebé, matricarca amorosa, consciente, será uma das principais lideranças do Movimento Feminino pela Anistia.

Saíam juntos, conviviam, bebiam juntos.

De alguma forma, uma comunidade.

Comunista com comunista.

Ela e Tião tiveram duas filhas.

Nem sabia: quando presa, estava grávida da segunda.

Uns dois meses de gravidez, nem dava pra sentir ou notar.

Júlia, a segunda filha, nasce em 23 de janeiro de 1976.

Tião, preso.

Morrerá cedo, Júlia: um câncer a leva, aos 43 anos.

O amor deles não vai durar muito.

Por diferenças, vamos dizer assim, de concepções de vida.

Nazaré acreditava, acredita, no amor monogâmico.

Tião, depois de duas filhas e anos de relação, revela-se: poligâmico.

Ela, então, propõe: cada um segue o próprio caminho.

Não era a dela.

Ronilda Noblat era a advogada de Tião e de vários outros presos políticos do PCB.

Lembrar sempre: havia um pequeno time de advogados, abnegados, dedicados à luta contra a ditadura no território das atribuições deles.

Eram os três mosqueteiros: Jaime Guimarães, José Borba Pedreira Lapa, Inácio Gomes, e a mais nova deles, Ronilda Noblat, formada por Jaime Guimarães, o mais respeitado daqueles mosqueteiros.

Ronilda, preocupada em facilitar a vida dos prisioneiros, propõe a Tião fazer vestibular.

Faz para Letras, na Universidade Federal da Bahia.

O exame foi numa sala à parte, devidamente vigiado por agentes policiais.

Constrangedor.

Passou, não obstante o constrangimento.

Nazaré teve a conversa definitiva.

Quando tudo começou, aquele louco amor, aquele mergulho sem pensar, tinha certeza fosse daqueles amores para sempre.

Verdade, verdade, mal se conheciam.

Dois meses de namoro, e pularam pra dentro.

Pra dentro da pequena casa da Barra.

E menos de dois anos depois, nascia a primeira filha, Anastácia.

A segunda, viria em 1976.

Então, tudo parecia correr como uma relação monogâmica.

Sabe nada, inocente.

Quando ele revela vocação e prática poligâmicas, Nazaré salta fora.

Sem dramas, mas estava fora.

Seguisse o caminho dele.

Ela, o dela.

E vai ter mais surpresas no caminhar da vida.

Quando fala surpresas, quer dizer apenas isso.

Sem julgamentos morais.

Que direitos tinha de fazê-los?

Tião tinha paixão pela humanidade.

Buscava sempre caminhos novos.

Depara com Trigueirinho Netto, autor de dezenas de livros sobre espiritualidade e esoterismo.

Fundador da Comunidade Figueira.

E um dos fundadores da Ordem Graça Misericórdia, idealizada, segundo o que se dizia, por freis e madres videntes, a pedido de Nossa Senhora.

Além da comunidade alternativa, grupos de seguidores urbanos acompanhavam palestras de Trigueirinho e de outros líderes e também aparições de Maria, tudo pela Internet.

É possível um comunista envolver-se com isso?

No caso de Tião, foi.

Radical como era, mergulhou em Trigueirinho, nas ideias da Nova Era, nas concepções intergalácticas.

Provavelmente, deixou de ser comunista.

Ou não.

A Comunidade da Figueira, localizada na cidade de Carmo da Cachoeira, no interior de Minas Gerais, seguia uma organização hierárquica, Trigueirinho no topo.

Não eram permitidos telefones celulares, filmadoras, máquinas fotográficas ou gravadoras.

Os residentes optavam pelo celibato.

Hóspedes ou visitantes eram obrigados a assumir essa condição enquanto permaneciam no local.

Na comunidade, não se estimulavam intimidades e vínculos emocionais.

Alimentos, plantados na comunidade

Orgânicos e sem agrotóxicos.

Os frutos da terra não são comercializados e nenhum dos voluntários que participam dessas tarefas é remunerado.

Refeições, vegetarianas e integrais.

Sem laticínios, açúcar refinado, sal, alho, cebola, temperos, café, bebidas alcoólicas ou refrigerantes.

Drogas, incluindo o fumo, fora.

Roupas simples, relógio para cumprir a agenda de tarefas, incluindo despertador – os chegados devem vir com esses apetrechos.

Limpeza da casa, preparo de alimentos, trabalho na padaria, na lavanderia, marcenaria.

Trabalho ainda de horticultura, jardinagem, plantios e colheitas.

Mutirões para abertura de estradas, radioamadorismo para contatos de emergência, apicultura.

Edição e difusão de livros.

Recepção de hóspedes, além de atendimentos a pessoas necessitadas.

Tais tarefas começam antes de o dia amanhecer, e terminam à tardinha.

A comunidade recolhe-se às 20h30, e o silêncio deve ser respeitado a partir de 21h30.

Palestras com Trigueirinho aconteciam semanalmente.

Ele era cineasta, viajou mundo afora, sedimentou uma vida intelectual, e tornou-se um líder da comunidade, organizando-a.

Defendia “o resgate da raça humana”.

Tal operação salvaria o grupo liderado por ele do fim do mundo. O grupo, para tanto, precisava passar por uma mudança de comportamento: tornar-se humilde, sem liberdade de escolha e sem livre-arbítrio.

Assim, passaria a aceitar, acatar ordens e funções alheias à sua natureza individual egoísta.

E passaria também a atender aos objetivos do coletivo, do grupo, e não aos da individualidade de cada um.

Há muita pesquisa em torno dessa comunidade.

Querendo conhecê-la, pode-se consultar, por exemplo, a dissertação de Mestrado de Márcia de Oliveira Estrázulas, de 2007, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, “A comunidade espiritual “Figueira”: a influência de Trigueirinho sobre o ‘Eu’ (SELF) de seus seguidores”.

Nazaré informa: Tião lia muito.

Deve ter deparado com os livros de Trigueirinho, começado a ler, e encontrado, quem sabe, semelhanças com uma vida comunista nos escritos dele.

Austeridade, vida espartana, comida integral, compartilhamento, nada de dinheiro, tudo deve ter parecido simpático a ele, cuja vida até ali fora em busca do ideal socialista e comunista.

Sabia: não tinha nada a ver com o materialismo histórico, no sentido comunista.

Mas, por tudo, lhe pareceu um simpático modo de vida.

Não, Nazaré não vivia mais com ele.

E nada daquilo lhe atraía.

Não era dada a seguir gurus, e Trigueirinho obviamente era um deles.

Soube dele querendo mudar-se para uma parte mais alta da Chapada Diamantina.

Mundo se acabando, estaria a salvo.

Não comia mais carne.

Nada que se movesse.

Não comia ovos.

Havia uma preocupação permanente com a morte.

Tornou-se um místico – a impressão dela.

Seu veículo, uma bicicleta.

Seguia os preceitos de Trigueirinho.

Vida muito modesta.

Morava no bairro de Cajazeiras, em Salvador.

Em frente à morada dele, um amplo terreno.

Ocupou.

Passou a plantar todo o necessário para a alimentação dele.

Não comprava mais nada.

A pequena lavoura, suficiente.

Como diria Manoel de Barros, se suficientava.

Viveu com muitas mulheres.

Nazaré conheceu-as.

Talvez esqueça alguma.

Viveu com Berta Calmon de Passos.

Com Sônia Mara.

Com Alice.

Com Nazaré.

Com outras três, quatro, difíceis de serem contadas.

Filhos à mão cheia: Olívia, Anastácia, Júlia, Pedrinho, Amanda, Luz, Tiago, Lira Graça.

Tião, na Fazendinha, naquelas horas de terror, pensava em Nazaré, de como foi trazendo-a para o mundo da militância.

Jogando-a nos braços dos comunistas.

Do PCB.

Envolveu-a em intensa programação cultural.

Ela, gostando muito.

Depois, ela se afirmando, tornou-se membro do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da Bahia, representando Letras.

Começou a discutir com ela a necessidade de aprimorar ainda mais a formação política

Devia passar um tempo na Universidade Patrice Lumumba – Universidade Russa da Amizade dos Povos.

Fundada em 1960, tornou-se uma das três mais importantes da URSS, hoje Rússia, ao lado da Universidade de Moscou e da Universidade de São Petersburgo.

Em 1992, passa a se chamar Universidade Russa da Amizade dos Povos – Instituto Estatal de Educação Superior, vinculado ao governo da Federação Russa.

Não deu tempo para ir estudar na Patrice Lumumba.

Presa antes.

E teve de responder aos policiais sobre a ida à Patrice Lumumba quando da repressão de 1975.

Conhecer isso, saber da proposta de ela ir para a Universidade Patrice Lumumba era um indício claro de como a repressão seguia o cotidiano do PCB na Bahia.

Quando a chamaram, quando a tiraram da corda de caranguejo, soube: iriam levá-la para outro destino.

Angústia de quem está preso: você não tem noção sobre o destino.

Sabia não para onde a levavam.

Depois de umas duas horas de viagem, lenta, sacolejando, algemada, ao descer percebe-se no Forte do Barbalho.

Não foi para uma cela.

O conjunto de celas do Forte do Barbalho não tem sequer sanitários.

Deparou com uma espécie de dormitório, de razoáveis condições, onde havia inclusive sanitário.

Um luxo, se comparado com as condições da Fazendinha.

Passara um dia ou dois na Fazendinha.

Ao chegar ao Barbalho, só pensava na filha.

Perguntava por Anastácia, e eles diziam se despreocupe ela está bem.

Não sabe quantos dias passou no Barbalho.

Talvez sete, oito dias.

Quando saiu, para desassossego dela, a filha já estava com a sogra, Eclea.

Soube do grande, amplo movimento de mães, de parentes, de entidades contra as arbitrariedades das prisões.

Inclusive da luta das mães para libertar Anastácia.

No Forte do Barbalho, enquanto esteve presa, era chamada para interrogatórios.

Perguntavam sobre Paulino Vieira, principal dirigente do partido no Estado.

Sobre a Universidade Patrice Lumumba – quando iria viajar, cadê o passaporte.

Mais e mais nomes.

Ela, nada.

Não conhecia.

Não sabia.

Quando saiu, direto para a casa da sogra.

Abraçar a filha.

Ter a certeza da existência dela, de ter se livrado das mãos dos carrascos.

De Tião, nada sabia.

Só saberá alguns dias depois.

Vida que segue.

Professora adjunta da Universidade do Estado da Bahia, pesquisadora associada da Universidade Estadual de Campinas, colaboradora do Iceafro: Educação para a Igualdade Racial e de Gênero.

Inquieta.

Certa de que a luta não cessa.

Luta coletiva, sempre.

Como aprendeu no velho PCB.


Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros