Recentemente, na mesma semana, duas manchetes se cruzaram como só a imprensa econômica sabe fazer: de um lado, a JBS, maior processadora de proteína animal do planeta, reportou prejuízo líquido de US$ 102 milhões no segundo trimestre, o primeiro resultado negativo da companhia em quase três anos, mesmo com receita recorde de quase US$ 24 bilhões no período. Do outro, o BTG Pactual anunciou lucro líquido ajustado de R$ 5,1 bilhões no mesmo trimestre, alta de 23% em doze meses, com retorno sobre patrimônio na casa de 26,7% ao ano. Uma empresa que emprega dezenas de milhares de pessoas, abate gado, processa carne e exporta para o mundo fechou a conta no vermelho; um banco que administra dinheiro fechou no azul mais intenso de sua história recente. Para quem acompanha, artigo após artigo, a trajetória perversa dos juros reais brasileiros, hoje em torno de 10% ao ano acima da inflação, a cena não é coincidência estatística. É retrato de um país que remunera generosamente quem faz dinheiro circular e pune, com margens cada vez mais apertadas, quem produz.
A tentação é simplificar, “banco bom, indústria ruim” ou o oposto, dependendo de qual lado da Faria Lima se está. Mas a pergunta que interessa é mais funda e menos maniqueísta: no fim do dia, quem contribui mais para o desenvolvimento de um país como o Brasil, um grupo produtivo de escala mundial ou uma instituição financeira operando num ambiente de juros elevadíssimos? Vale a pena destrinchar essa comparação por partes, sem simplismos e sem números fantasiosos, porque a resposta diz muito sobre o modelo econômico que estamos, ano após ano, escolhendo perpetuar.
Quando o vermelho da indústria contrasta com o verde dos bancos
O trimestre da JBS não foi de fracasso operacional generalizado: a receita cresceu, a operação brasileira teve o melhor resultado trimestral de sua história, e a Seara manteve margens saudáveis. O prejuízo veio, em boa parte, de custos não recorrentes – recompra de títulos, acordos regulatórios, somados à pressão persistente sobre a margem de bovinos nos Estados Unidos, onde o preço do boi subiu mais rápido que o preço da carne. É a fotografia clássica de um negócio de capital intensivo, margens finas e ciclos longos, no qual qualquer solavanco nos custos de insumo, no câmbio ou no crédito reverbera diretamente no resultado final.
O BTG, por sua vez, entrega o que vem entregando trimestre após trimestre desde que os juros brasileiros voltaram a patamares de dois dígitos reais: crescimento robusto em crédito corporativo, em gestão de recursos, em serviços de banco de investimento e uma rentabilidade sobre patrimônio que poucas indústrias do mundo conseguem sonhar em replicar. Não há nada de ilegítimo nisso; um banco bem gerido deve, sim, ser lucrativo. A questão não é moral, é estrutural. O ambiente de juros reais elevados cria um terreno em que intermediar capital paga mais, e com menos risco, do que produzir bens físicos.
JBS x BTG: emprego, faturamento e impostos
Aqui os números pedem cautela, são ordens de grandeza baseadas em dados públicos recentes, sujeitas a variação, e não um levantamento contábil fechado. A JBS emprega, globalmente, algo entre 230 mil e 260 mil pessoas, das quais mais de 150 mil só no Brasil, distribuídas em centenas de unidades produtivas e escritórios. Fundações de pesquisa como a Fipe já estimaram que, somando o efeito de toda a cadeia produtiva ligada à empresa, o impacto chega a quase três milhões de postos de trabalho no país. O faturamento anual do grupo caminha na casa de noventa bilhões de dólares, cifra que só recentemente passou a ser reportada em dólar após a reestruturação societária da companhia.
O BTG não divulga “faturamento” no mesmo sentido industrial, sua receita vem de juros sobre crédito, taxas de administração, resultado de tesouraria e comissões de banco de investimento, e girou em torno de dez bilhões de reais apenas no segundo trimestre deste ano. Seu quadro de funcionários, embora venha crescendo com aquisições, está numa escala muito distante da JBS: alguns milhares de colaboradores administram uma base de ativos que já passa de novecentos bilhões de reais.
Do lado tributário, o retrato qualitativo é explícito mesmo sem cravar números exatos. A JBS, como grande operação industrial intensiva em mão de obra e em bens tributados na cadeia de produção e consumo, tende a gerar uma massa expressiva de recolhimento em ICMS, PIS/Cofins, contribuições previdenciárias sobre folha de pagamento, além do IRPJ e da CSLL sobre o que sobra de lucro, quando sobra. É um tributo que nasce do processo produtivo inteiro, do abate ao caminhão que leva a carne ao mercado. O BTG também recolhe tributos relevantes, sobretudo IRPJ e CSLL sobre seu resultado, que, para instituições financeiras, têm alíquota mais alta do que a de empresas comuns, além de tributos incidentes sobre operações financeiras. Mas sua base de arrecadação nasce essencialmente do resultado financeiro, não do emprego direto de dezenas de milhares de trabalhadores nem da movimentação de uma cadeia produtiva inteira território adentro.
Juros reais de 10%: travas à economia real, combustível à intermediação
É aqui que a comparação deixa de ser só uma curiosidade de balanço e vira debate de política econômica. Uma taxa de juros real na casa de 10% ao ano, muito acima do que justificam os fundamentos fiscais e inflacionários atuais, e historicamente elevada mesmo para padrões brasileiros, encarece o crédito para quem produz, eleva o custo de capital de giro, penaliza investimentos de maturação longa como plantas industriais e frigoríficos, e empurra empresas para o gerenciamento apertado de margem que vimos no resultado da JBS neste trimestre. Ao mesmo tempo, esse mesmo patamar de juros é o motor que faz a receita de instituições financeiras crescer: mais spread em operações de crédito, mais remuneração em títulos públicos, mais demanda por produtos de tesouraria e gestão de patrimônio por parte de quem prefere aplicar dinheiro a investir na economia real.
Não é acusação de conluio nem teoria da conspiração, é a lógica elementar de incentivos. Quando o Estado paga generosamente para tomar dinheiro emprestado, ele compete com a fábrica, com o frigorífico, com a obra de infraestrutura pela poupança disponível no país, e paga mais para vencer essa disputa. O resultado é um sistema em que o capital financeiro, que deveria ser meio, se torna fim; e o setor produtivo, que deveria ser o motor do desenvolvimento, se torna o lado mais frágil da equação, o primeiro a sangrar quando o ciclo aperta.
Quem carrega o piano do desenvolvimento?
A resposta a essa pergunta não é binária, e seria intelectualmente desonesto fingir que existe apenas um vilão. Bancos bem capitalizados são infraestrutura essencial de qualquer economia moderna: sem crédito, sem gestão de risco, sem intermediação eficiente, a própria JBS não conseguiria financiar sua expansão internacional. O problema não é a existência do BTG, é o desequilíbrio estrutural de um país que, ano após ano, remunera a intermediação financeira em patamares muito superiores aos da produção, e chama isso de normalidade.
Ainda assim, quando a pergunta é sobre desenvolvimento, no sentido mais concreto da palavra, aquele que se mede em emprego direto e indireto, em renda espalhada por centenas de municípios, em cadeias produtivas que sustentam pequenos fornecedores, em exportação que traz divisas, em produto que chega à mesa de gente comum, a resposta pende, com clareza, para o lado da produção. Um grupo como a JBS carrega o piano: sustenta cidades inteiras onde é o maior empregador, movimenta uma cadeia de quase três milhões de postos de trabalho, produz algo tangível que abastece 190 países. Um banco, por mais sofisticado que seja seu balanço, multiplica dinheiro, o que é necessário, mas não é, por si só, desenvolvimento.
O que este trimestre expõe, então, não é que a JBS “perdeu” e o BTG “ganhou”. É que o Brasil segue estruturando seus incentivos econômicos de um jeito que torna mais fácil e mais lucrativo intermediar capital do que produzir riqueza física e que, enquanto os juros reais continuarem na casa de dois dígitos, seguiremos lendo manchetes de bancos batendo recordes ao lado de manchetes de indústrias apertando o cinto. A pergunta que fica não é apenas de quem “contribui mais”, mas até quando o país vai aceitar pagar, todo trimestre, esse pedágio à financeirização, em vez de cobrar de sua política monetária um pouco mais de compromisso com quem produz.
Marcos Freitas Pereira é doutorando em Turismo pela Universidad Internacional Iberoamericana (UNINI México); Mestre pela Universidad de Alcalá, Espanha e Economista pela PUC-SP.
