1.
Uma divisão social de habilidades está inscrita no DNA da palavra “liberal”, cuja trajetória começa antes do sentido político: distingue homens livres dos que não o são. As “artes liberais” englobam profissionais de atividades com independência financeira, em contraste com as multidões confinadas às atividades mecânicas.
A insinuação de que os “populistas” manipulam os trabalhadores, retoma a antiga distinção das classes inferiores cativas do trabalho manual, em relação às lides mentais das classes superiores capazes de pensar com autonomia. A aculturação legitima uma oscilação do pêndulo discricionário entre o mando e a obediência.
O “bom gosto” é associado aos privilégios classistas, com os juízos presunçosos avalizados por um consumo de luxo, e não pelo brilho individual do consumidor. O preço do rótulo do vinho e os carimbos no passaporte têm a função de separar os plebeus dos aristocratas, no teatro das aparências, das vaidades e preconceitos.
No século 18, o termo liberal adquire a fama de “mente aberta”, “não ortodoxa”, quando o historiador Edward Gibbon menciona as “opiniões liberais” (1781). O termo batiza o jornal The Liberal (1822) e o partido político Liberal Party (1859), no Reino Unido. Seus seguidores, com a aura do livre comércio, se arvoram donos da liberdade, como se esta não fosse amparada no igualitarismo e no solidarismo.
No Rio Grande do Sul, no alvorecer da Revolução Farroupilha publica-se o jornal O Recopilador Liberal (1832-1836). “Liberdade, Igualdade, Humanidade” vem a ser a adaptação do dístico famoso em terras gaúchas. Desde então, corre nas veias de Porto Alegre a mundialização que a torna sede do Orçamento Participativo (OP) e do Fórum Social Mundial (FSM). Em contraponto ao Fórum Econômico Mundial (FEM), em Davos – o lugar onde o personagem burguês do romance A montanha mágica, de Thomas Mann, experimenta uma mudança intelectual e espiritual.
2.
No século 19, o “liberalismo” postula um “livre arbítrio”. O derivativo “libertário” designa a aspiração do socialismo comunal, sem o controle centralizado. Nada a ver com a nova doutrina política, exceto pela ausência de vigilância burocrática. O oxímoro “anarco/capitalista” dos ultraliberais confunde alhos com bugalhos, ao mesclar ideologias contraditórias – o anarquismo e o capitalismo. O resultado é o sociopata de proporções trágicas, que ora aflige a população argentina.
O pensamento liberal parte dos interesses pessoais. Karl Marx, a propósito, rebate a dualidade “abstrata” do indivíduo e a sociedade. O condicionamento social dos indivíduos acontece desde o nascimento pela linguagem, família, classe social, educação, donde não se conclui, necessariamente, um determinismo absoluto. “Ninguém pode supor que todos os indivíduos da mesma espécie sejam fundidos no mesmo molde”, sublinha Charles Darwin, em A origem das espécies (1859).
O individualismo é herança do Renascimento. Já o hiperindividualismo é produto do neoliberalismo, que celebra as virtudes do self-made man e apaga os deveres do Estado com a cidadania. O patrimônio público é privatizado. Os carecimentos invadem lares. Zumbis acampam defronte aos quartéis. Cometem vandalismos. O presidencialismo se enfraquece. O deus-mercado e a necropolítica se impõem.
“A sociedade não existe, o que existe são os indivíduos e suas famílias”, afirma a máxima da conservadora Margaret Thatcher. Tradução: o problema da pobreza, do racismo, do sexismo e do etarismo não é do Estado; senão, respectivamente, dos pobres; negros; vítimas de discriminação sexual; jovens ou idosos. Todos, órfãos do Estado que se exime de formular e implementar políticas públicas e sociais.
O “empreendedorismo” oculta a uberização e as desregulamentações que afetam o labor e romantizam entrepreneurs. As subjetividades ajustam-se ao vocabulário das empresas – custo, produção, rendimento, lucro, prazo de validade. Na dança das cadeiras, cada persona é um empresário de si. A insegurança paira em todos. Pacientes nos consultórios Psi utilizam a terminologia para falar da performance de vendas ou encalhes da mercadoria na semana, em um balancete gerencial.
3.
A demokratia dos gregos (demos/povo, kratos/governo), depende do significado dos construtos. O agronegócio entende por povo os estrangeiros que compram as commodities e, por governo, o socorro às exportações em queda. As bolsas de valores entendem por povo os especuladores ditos investidores e, por governo, os dividendos do dinheiro sobre o dinheiro sem mediação; até eclodir o caos. As big techs entendem por povo os internautas e, por governo, algoritmos da Inteligência Artificial (IA). Bets viciam a equação, com injeções de dopamina em apostadores.
A narrativa de inovação empreendedora, para driblar adversidades da economia, coroa a retórica de influencers que monetizam a “autoajuda” frente a hecatombe climática e a exclusão no processo produtivo. Os responsáveis pelas ameaças ao futuro desaparecem da cena do crime, enquanto os demagogos transformam a miséria em um espetáculo na televisão e travestem algozes da justiça em heróis. A inversão é perversa, por absolver os culpados e cancelar a consciência dos fatos.
Para os chupacabras, elogiar o equilíbrio fiscal na esfera estatal é mais importante do que denunciar os altos juros da Taxa Selic que sacrificam indústrias, o crediário no varejo e a adimplência dos boletos. Com inflação baixa, a política monetária do Banco Central (BC) interessa ao capital financeiro e aos rentistas. Simples assim.
A esquerda? Perfila-se com os antigos escritores. Tucídides: “tudo que se opõe ao poder despótico tem o nome de democracia”. Aristóteles: “uma democracia é um Estado em que homens (junte-se as mulheres) livres e os pobres, sendo maioria, são investidos do poder de Estado”. As assertivas mantêm o conteúdo de verdade; apesar dos modernos deslocarem o foco para as “regras do jogo”. Fenômeno que sintetiza uma rendição ao status quo e o esvaziamento de classe da democracia.
Para o pior: sob efeito da febre bolsonarista, o governador de São Paulo com boné MAGA (Make America Great Again) rende-se ao neocolonialismo imperialista, e o senador miliciano candidata-se ao Palácio do Planalto com uma bandeira norte-americana no palanque. O cinismo, o vazio de propostas e uma cumplicidade da mídia corporativa explicam a desfaçatez dos desprezíveis traidores da pátria.
Para o melhor: liderada pelo presidente Lula da Silva, a marcha da sensatez pela soberania nacional pode barrar os avanços da extrema direita e unir esforços para fortalecer a autodeterminação do continente sul-americano. O Brasil é maior do que suas “elites” vira-latas. Não precisa protelar os seus sonhos, indefinidamente. “Quem sabe faz a hora,/não espera acontecer”, canta o músico Geraldo Vandré.
Luiz Marques é docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul.
