O que raras vezes a forma
Revela.
O que, sem evidência, vive.
O que a violeta sonha.
O que o cristal contém
Na sua primeira infância

Destino paradoxal o de Murilo Mendes (Juiz de Fora, 1901/Roma, 1978): seu prestígio junto aos críticos e poetas só faz com a perspectiva do tempo mas a difusão mais ampla de sua obra não parece beneficiar-se com isso.

Terá contribuído para a sua distância do grande público o exílio precoce na Itália, a partir de 1954, que o fez ausente da vida e da imprensa literária brasileiras por quase duas décadas. Mas esse relativo ostracismo resulta também de sua singularíssima fisiognomia espiritual e artística, do caráter pode-se dizer marginal de seu projeto humano e literário: Murilo foi um cristão essencialista e não raro apologético em época de profunda laicização da cultura e de quase generalizado ceticismo religioso. E foi igualmente tributário da desmesura e do “caos” surrealista em época de predomínio da racionalidade construtivista ou neoclássica, cujo caso-limite viria a ser o geometrismo verbal e visual da chamada poesia concreta.

Nenhuma dúvida, porém, de que se trata de um dos nossos poetas maiores, de reverbação (ainda que sutil e não-programática) em toda a melhor poesia brasileira do segundo novecentos. Dele disse João Cabral de Melo Neto, sempre tão avaro em louvações: “a poesia de Murilo me foi sempre mestra, pela plasticidade e novidade da imagem. Foi ela que me ensinou a dar precedência (…) ao plástico sobre o discursivo.” E completa, lapidar, Jorge de Lima, seu irmão no órfico ofício: “Murilo Mendes foi o maior distribuidor de poesia que jamais conheci.”

Ressalte-se a centralidade, carnal e cósmica, da mulher na poesia de Murillo, e da dimensão feminina da vida.

Entre seus volumes de poemas, destacam-se: História do Brasil (1932); Tempo e Eternidade (1935); A Poesia em Pânico (1938); O Visionário (1941); As Metamorfoses (1944); Poesia Liberdade (1947); Contemplação de Ouro Preto (1954); Convergência (1970). Em prosa, A Idade do Serrote (1969) e a belíssima antologia Transístor (1980).