Nunca morei longe do meu país,
Entretanto padeço de lonjuras.
Desde criança minha mãe portava essa doença
Ela que me transmitiu.
Depois meu pai foi trabalhar num lugar que dava
essa doença nas pessoas.
Era um lugar sem nome nem vizinhos
Diziam que ali era a unha do dedão do pé do fim
do mundo.

A gente crescia sem ter outra casa do lado.
No lugar só constavam pássaros, árvores,o rio e
os seus peixes.

Havia cavalos sem freios dentro dos matos cheios
de borboletas nas costas.
O resto era só distância.
A distância seria uma coisa vazia que a gente
portava no olho.
E que meu pai chamava de exílio.

Manoel de Barros, o velho bruxo do Pantanal, enganou o tempo e a geografia: daqui a um ano completará 90. E escreve versos como se contasse 9. Reencantando o mundo a poder de palavra. Nada melhor para defini-lo que um antigo verso seu: “No osso da fala dos loucos tem lírios”.

Há quem imagine Manoel como “o poeta do Pantanal”. É outro engano. Mas, devo dizer, já não seria pouco. Afinal, Lezama Lima, outro bruxo do Caribe, ensinava: “A única coisa que cria literatura é a paisagem”. O Pantanal de Manoel, sendo o mesmo, é outro: é o pântano das palavras. A deliberada subversão da sintaxe, da gramática, a conversão do substantivo em verbo ou do verbo em substantivo na busca permanente de um verso novo, tão difícil na poesia brasileira dos últimos anos.

Alcança uma poesia matinal, desconcertante, que se poderia definir como “réstia de luz espantada que sai das frinchas de um homem.” Manoel, portanto, não pertence a um lugar específico, ainda que este lugar seja o Pantanal, que lhe forneceu os infinitos materiais de que se nutre sua poesia. Não há dúvida de que se trata do poeta que, como seu ofício, melhor alarga os horizontes da língua. Publicou, entre outros, Poemas Concebidos sem Pecado, Compêndio para Uso dos Pássaros, Gramática Expositiva do Chão, Livro de Pré-Coisas, Retrato do Artista Quando Coisa, Ensaios Fotográficos