A temática parece inevitável. Impossível não comentar e escrever algo sobre a Copa do Mundo, mesmo só tratando marginalmente de mais um desastre da seleção brasileira. A Copa foi transformada em um acontecimento mundial, como agenda imposta a quase todos como celebração festiva planetária, que mobiliza multidões de emoções mundo afora. Uma agenda alimentada por enormes interesses econômicos, políticos, ideológicos, culturais e até esportivos. Um fenômeno em sintonia fina com a contemporaneidade, em suas virtudes e vícios, em suas contradições e tensões. Portanto, em um acontecimento mundial que deveria permitir uma boa e democrática disputa de narrativas.
O pensamento único tenta se impor por meio de apenas uma narrativa sobre a copa. A Copa do Mundo, empreendimento esportivo-mercantil da FIFA e de seus patrocinadores econômicos, políticos, midiáticos e ideológicos, quer se fazer visível como competição sobretudo esportiva. É a Copa do sucesso, dos vencedores, dos consumos das multidões em festa planetária. Enfim, o evento sem contradições e problemas, no qual tudo parece ocorrer no idealizado mundo das mil e uma maravilhas. FIFA, mídia, empresas e políticos patrocinadores tentam impor mais pensamento único. Tal imposição serve para esconder e silenciar as muitas e contraditórias copas, que vivem e subsistem na Copa do Mundo.
Da narrativa dominante da Copa não é preciso falar muito. Ela se impõe por meio de todos aqueles interessados em seu sucesso, que significa antes de tudo ganho financeiro para a FIFA e patrocinadores, mas também sucesso político, ideológico e até mesmo esportivo. Ainda que todos exaltem o objetivo esportivo, ele tem ficado muitas vezes soterrado pelos brutais interesses econômicos, políticos, midiáticos, culturais e ideológicos entrelaçados e mobilizados pelas mirabolantes cifras envolvidas. A Copa como empreendimento macro se torna cada vez mais gigantesco, planetário em tempo real.
A crítica à captura da Copa do Mundo pelos potentes interesses de lucro econômico-político-cultural-ideológico não pode esquecer que ela se transformou, em verdade, em uma festa comemorativa planetária, que mobiliza milhões-bilhões de pessoas em todo mundo. A sua ampliação para um certame com 48 seleções confirma a continuidade e ampliação do processo de alta complexidade e magnitude até agora realizados. Como festa comemorativa planetária, construída tenazmente durante todo século XX e início do XXI, a Copa tem uma fina sintonia com a sociabilidade contemporânea, moldada sob o capitalismo, que combina, com contradições e tensões, a vida remota global com a vida presencial local. Hoje, vive-se a conjunção global com todas as suas benesses e suas perversidades.
Transformação do local para o planetário
É admirável a passagem da antiga Copa do Mundo presencial, circunscrita a espaços locais e tempos delimitados, para a contemporânea Copa do Mundo global. Sua transformação em Copa do Mundo efetivamente mundial foi um processo admirável, carregado de percalços e de sucessos, no qual brasileiros mundiais, como João Havelange e suas complicadas artimanhas, tiveram papel relevante. Ela se tornou uma comemoração esportivo-festiva cada vez mais planetária. A Copa do Mundo hoje é o maior evento esportivo, econômico, político, midiático e cultural planetário da atualidade. Ela possui fina afinidade com a contemporaneidade e sua vida planetária em tempo real.
Na sua transformação em evento eminentemente global, a Copa sofreu mudanças vitais. Elas ficam patentes, por exemplo, nos jogos e seus horários. Eles já não se orientam pelos tempos adequados às temperaturas propícias às partidas, aos jogadores e aos públicos e torcedores presenciais da festa, submetidos a ingressos cada vez mais extorsivos. Agora as partidas estão aprisionadas aos tempos de exibição dos jogos para outras terras e para os patrocinadores, mesmo que essa atitude signifique colocar os embates em condições escaldantes de calor ou em regiões da terra inóspitas à prática esportiva, com seus eventos extremos de calores, desertos, raios, fadigas. doenças etc. Outra dimensão das mutações: o envolvimento crescente de espaços supranacionais, em detrimento dos tradicionais territórios e dinâmicas nacionais. A multinacional FIFA tem domesticado todos na sua ânsia por auferir mais lucros para si ou para seus patrocinadores econômicos, políticos e midiáticos.
Como evento econômico, a Copa do Mundo envolve bilhões de pessoas e, especialmente, de dinheiro. Múltiplos patrocinadores, mundiais e locais; cotas para exibição pública em múltiplas plataformas; ingressos a preços extorsivos em múltiplos estádios; múltiplos materiais vendáveis referentes à Copa em múltiplas modelagens; contratos e pagamentos para múltiplos trabalhos de gestão e de divulgação relativos ao evento. Tudo é múltiplo em cada Copa. Enfim, trata-se de uma amplíssima rede de serviços e produtos, que moldam e dão vida e lucro à Copa do Mundo.
Brasil: as bets e a mercantilização das transmissões
No caso brasileiro, as bets tomaram a cobertura da Copa de assalto, reforçando o vício das apostas cotidianamente, em jogadas e jogadores em princípio e sem fim. A cobertura total da Copa mostrou novidades, como a ascensão de novos canais, também eles infestados de publicidade e patrocinadores. Na Cazé TV, que desbancou grandes redes como a Globo, a cobertura completa da Copa veio acompanhada pela mercantilização plena de sua programação. Cada espaço e tempo se metamorfoseou em mercadoria. Entre os reclames publicitários emergia discreto o futebol.
Como evento político, por mais que tente negar tais vínculos, a FIFA e a Copa do Mundo não têm pudores em se associar a regimes autoritários e corruptos, por afinidade e por interesses. Ela diz estar acima das posições políticas, mas sua sintonia aos interesses dominantes é notória. Na Copa de 2026, para tomar apenas o exemplo recente, as interferências políticas foram recorrentes. As exclusões de seleções foram seletivas. Rússia excluída pela guerra da Ucrânia. Estados Unidos, causador de guerra do Irã, não sancionado, assim como Israel, esquecido por seu genocídio em Gaza. O puxa-saquismo de Infantino, presidente da FIFA, em relação a Trump foi evidente e vergonhoso em inúmeras oportunidades. A recente suspensão de um cartão vermelho, que impedia um jogador da seleção dos Estados Unidos de competir em jogo contra a Bélgica, tem ares de escandalosa prática antidesportiva do tirano e de submissão da FIFA. As perseguições impostas pelo governo norte-americano, em seu território nacional local das disputas, à seleção do Irã são vexaminosas. Já a atitude da presidenta do México de não estar presente na abertura da Copa no estádio Azteca, devido ao preço escorchante dos ingressos, e seu gesto de doação do seu ingresso a uma menina, via seleção pública, se destaca frente aos abusos políticos, bem como, cabe destaque, à postura do técnico do Egito de defender publicamente a Palestina. Apesar de tudo isso, o mascaramento das opções políticas da FIFA na Copa do Mundo tenta se esconder ainda sob um pretenso afastamento do evento da política.
Mas o futebol resiste como espetáculo maravilhoso, com seus heróis improváveis e prováveis, com seus jogos sensacionais. A Copa deu visibilidade internacional a países quase invisíveis, a exemplo do Cabo Verde, Curaçao, República Democrática do Congo, Bósnia e Herzegovina, Uzbequistão. Os protagonistas aparecem em times e jogadores, em espacial em equipes como França, Espanha e Argentina, bem como em personagens, a exemplo de Messi, Mbappé, Haaland, Kane, Olise, Odegaard e Vini Júnior. Ou mesmo por meio de times mais recentes como Marrocos, Colômbia, Costa do Marfim e Cabo Verde, de partidas memoráveis pela emoção e/ou pelo futebol, como Argentina x Cabo Verde, Alemanha x Paraguai, Bélgica x Senegal, Portugal x Croácia e Espanha X Portugal e lances como o quase gol de Vini Júnior contra o Japão. A magia do futebol se expande em conexão contraditória com sua intensa mercantilização. A afirmação do futebol feminino faz parte desse novo planeta futebol.
No panorama atual, pleno de tensões, possibilidades e retrocessos, o futebol é reinventado constantemente. Novas táticas, processos, jogadas, nomes, heróis, vilões, treinamentos, técnicos, dinâmicas, custos envolvem equipes distintas. Algumas com uma atitude coletiva e vital, como a estreante Cabo Verde, a emergente Marrocos, outras como consolidação de potências futebolísticas como a França, Espanha, Argentina e Portugal, e ainda outras como o Brasil, sua apatia, sua reiterada afirmação ultrapassada do peso da camisa de cinco estrelas, do já ganhou por antecipação, sem sequer conseguir respeitar seu passado, cada vez mais distante, de ser um eterno país do futebol.
A dubiedade entre a existência de uma Copa ou de muitas Copas ficou evidente de modo escandaloso no caso do Brasil em 2026. A seleção oficial foi produzida cotidianamente pela publicidade comercial dos patrocinados, com destaque para o vício das bets, e pelo jornalismo de campanha escancarado da mídia e seus jornalistas-torcedores profissionais. Os fabricadores da seleção exaltaram individualidades potenciais, como Vini Júnior, ou estrelas decadentes há algum tempo, como Neymar, em detrimento de algum possível jogo coletivo, distante da seleção brasileira há bastante tempo. Endeusada como possível candidata ao hexa ou a algum lugar decente no mundo do futebol, a realidade logo se mostrou cruel com esse mundo de fantasia, acalentado pelos fabricantes-patrocinadores visando seu hexa de lucros.
Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador do CNPq
