Este ser que se compõe de adjacências.
E de um cimento claro e matinal.
Tem nos seus nervos finos transparências.
De luz se alimenta. Fala cristal.
Por seu través mantendo as aparências.
Da limpidez é símbolo e sinal;
Meu coração, por essas excelências,
Nele se mira e se vê por igual.
Nele se ajusta, assim como vertida
Onda de anseios vagos e dispersos
Que um sopro dual juntasse em verbo e vida.
Lendo-o com precaução modesta e ágil
Cuidado tenham no seguir seus versos
Que este soneto é de matéria frágil
A mão invísivel de Joaquim Cardozo está aqui. De tanto inventar transparências, rarefez-se. No verso e no cálculo. A poesia são os impossíveis ao alcance da voz; o cálculo de Joaquim Cardozo sustenta as estruturas impossíveis de Niemeyer, que mal tocam o chão do planalto. Apesar da infâmia da Gameleira, que de algum modo o matou, Joaquim Cardozo é um poeta do cálculo e do verso.
Pernambucano, do Recife, nascido em 1897, Joaquim Cardozo cumpriu um destino em que conjugou engenharia, arquitetura, matemática e poesia. Destaco Signo Estrelado (1960), do qual extraí este “Soneto de vidro” e O coronel Macambira talvez mais conhecida de suas obras literárias. Sem “poetizar o poema” como diria João Cabral, seu discípulo confesso, esse mestre da transparência é também um mestre da contenção. Escapa da retórica caudalosa que a tradição impôs a muitos poetas do seu tempo, prefigura modos e caminhos que a poesia brasileira – a melhor – trilharia mais tarde.
secretário de Cultura do Distrito Federal
