Mais que crimes sexuais: a queda de Jeffrey Epstein expõe o sistema de proteção e o alto preço político da elite global

A rede de poder ao redor do caso Epstein
Jeffrey Epstein e Donald Trump em foto juntos. — Foto: Reprodução

A abertura de milhões de documentos judiciais nos Estados Unidos, os chamados “Epstein Files”, lançou luz sobre a engrenagem de um dos maiores escândalos de abuso e tráfico sexual de menores da história recente. Mais do que o relato dos crimes individuais do financista Jeffrey Epstein, o caso expõe uma estrutura sistêmica de proteção às elites globais, em que o silêncio foi comprado com influência política e econômica.

Dezenas de reportagens internacionais detalham como o esquema sobreviveu por décadas, operando em uma zona cinzenta entre a alta finança, a diplomacia paralela e o crime organizado. O caso foi aberto ao público na internet através de um email, Jmail, criado por um especialista em tecnologia, que pode ser acessado livremente por aqueles que tiverem estômago e tempo.

A gênese do silêncio

O escândalo não nasceu da falta de denúncias, mas da omissão institucional. Já em 1996, a artista Maria Farmer relatou ao FBI abusos cometidos por Epstein e sua sócia, Ghislaine Maxwell. O alerta foi ignorado. Em 2002, a jornalista Vicky Ward tentou publicar as acusações na Vanity Fair, mas o texto foi censurado após pressão direta de Epstein sobre a cúpula da revista.

Essa blindagem culminou em um acordo pouco comum, em 2008, na Flórida. Na época, promotores federais permitiram que Epstein se declarasse culpado de acusações menores, garantindo-lhe uma pena branda e, crucialmente, imunidade a todos os seus “co-conspiradores”. O acordo funcionou como um salvo-conduto para que a rede de exploração continuasse operando sob o manto da legalidade.

O “corretor” das elites

Para além do tráfico sexual, as novas investigações revelam a função de Epstein como um “fixer” (operador) geopolítico. Ele não era apenas um predador, mas um nó conectivo entre Washington, Londres e Tel Aviv. Documentos e áudios mostram sua proximidade com figuras como o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak, a quem Epstein aconselhava sobre investimentos em empresas de cibersegurança e inteligência de dados, como a Palantir.

Essa faceta de “broker de poder” explica por que nomes de ex-presidentes, bilionários da tecnologia e membros da realeza aparecem em seus registros. Epstein oferecia acesso e canais informais de negociação; em troca, recebia a proteção de um sistema que se recusava a investigar seus próprios financiadores.

“Sua Alteza Real”

O desmoronamento público da rede de Epstein arrastou consigo figuras que, até então, pareciam intocáveis, sendo o caso do príncipe Andrew o exemplo mais dramático de como o silêncio das elites foi rompido. 

O ponto de inflexão ocorreu em novembro de 2019, quando o filho “favorito” da rainha Elizabeth II concedeu uma entrevista ao programa Newsnight, da BBC, na tentativa de limpar sua imagem diante das acusações de Virginia Giuffre — que afirma ter sido traficada por Epstein para servir sexualmente ao príncipe.

O resultado foi o que a imprensa britânica classificou como um “desastre nuclear”: em rede nacional, Andrew demonstrou uma desconcertante falta de empatia pelas vítimas e ofereceu justificativas inverossímeis para sua conduta, como a alegação de que uma condição médica o impedia de suar. 

A reação popular e institucional foi imediata, forçando o Palácio de Buckingham a anunciar, em etapas sucessivas, o afastamento de Andrew da vida pública e a retirada de seus títulos militares e do tratamento de “Sua Alteza Real”. O episódio selou o destino do príncipe como um pária da monarquia, transformando-o no símbolo máximo de como a proximidade com o “corretor de poder” Jeffrey Epstein cobrou um preço político terminal.

A repercussão do caso derrubou o chefe de gabinete do Reino Unido, Morgan McSweeney, que renunciou ao cargo assumindo o erro de ter indicado Peter Mandelson para o posto de embaixador em Washington. O anúncio veio na segunda-feira, 9.  A proximidade de Mandelson com o falecido bilionário tornou sua permanência no governo insustentável, levando McSweeney a declarar que a nomeação feriu a confiança nas instituições e no Partido Trabalhista. 

Embora o primeiro-ministro Keir Starmer tenha agradecido os serviços de seu principal assessor, a oposição aproveitou o revés para questionar o julgamento político do governo, exigindo que o primeiro-ministro responda pessoalmente.

A falha da mídia corporativa

O caso também suscita críticas severas à imprensa tradicional. Enquanto veículos focaram em especulações sobre conexões com a Rússia, houve um silêncio obsequioso sobre os laços de Epstein com setores estratégicos da inteligência e da política ocidentais. Para analistas como Murtaza Hussain, do Drop Site News, essa lacuna na cobertura reflete um conflito de interesses: muitas instituições de mídia pertencem ao mesmo ecossistema de poder que Epstein ajudava a lubrificar.