Por que não acorrem como sempre nossos ilustres oradores
a brindar-nos com o jorro feliz de sua eloqüência?
Porque hoje chegam os bárbaros
que odeiam a retórica e os longos discursos.
Por que de repente essa inquietude
e movimento? (Quanta Gravidade nos rostos!)
Por que esvazia a multidão ruas e praças
e sombria regressa a suas moradas?
Porque a noite cai e não chegam os bárbaros
e gente vinda da fronteira
afirma que já não há bárbaros.
E o que será agora de nós sem bárbaros?
Talvez eles fossem uma solução afinal de contas.
(tradução do espanhol de Ricardo Azevedo)
Konstantinos Kaváfis nasceu e morreu em Alexandria, centro cultural do helenismo egípcio, em 1863 e 1933. Era o nono e último filho de uma importante família burguesa, de origem grega e de passado aristocrático. Seu pai, nascido na Macedônia, emigrara para lá alguns anos antes e tornara-se o mais rico e influente comerciante local. Consta em sua biografia que a mãe, ansiando por ter uma filha mulher, criou-o como uma menina durante algum tempo, fato que muitos vêem supostamente como origem da reconhecida homossexualidade do poeta. Em 1870 morre o pai, deixando a família em dificuldades financeiras. A mãe viaja com ele para a Inglaterra, onde vivem em Londres e Liverpool.
Em 1882 estão de volta em Alexandria, mas com a intervenção armada britânica no Egito refugiam-se em Constantinopla. Em 1885 volta a Alexandria, onde viverá até a morte, embora, ocasionalmente, tenha feito viagens à Inglaterra, França e Grécia. Morou com a mãe enquanto ela viveu. Tornou-se funcionário do Ministério da Irrigação.
A partir de 1907, com a morte ou imigração dos irmãos, viveu praticamente só. Kaváfis tornou-se um dos poetas mais importantes de Alexandria, escrevendo em sua língua materna, o grego. Em vida publicou muito pouco: duas plaquetas em 1904 e 1910, uma com 14 e a outra com 21 poemas, e poemas esparsos, em folhas soltas, que enviava a quem os pedia. Assim mesmo seu prestígio literário foi grande e imediato, ao ponto do governo grego lhe conceder o prêmio Fênix. Em sua poesia renunciou à métrica tradicional; combinava o moderno e o arcaico, e elementos helenísticos com bizantinos. Criou uma expressão própria e peculiar, marcada pelo que os críticos chamaram de um lirismo objetivo, por tons dramáticos e uma tonalidade trágica. Dizia-se um poeta historiador. Morreu em 29 de abril de 1933, no dia de seu aniversário. Em 1935 sua obra ganhou uma edição completa, e a partir daí foi traduzida para várias línguas, entre elas o português. A edição mais abrangente de suas obras no Brasil é a da tradução de José Paulo Paes, publicada em 1982.
