Vivemos em uma sociedade que substitui um telefone celular antes mesmo que ele deixe de funcionar. Aos poucos, essa lógica ultrapassou os objetos e passou a orientar a maneira como percebemos a nós mesmos. Mudamos de aparência antes que o tempo a transforme, abandonamos opiniões antes que amadureçam, descartamos sonhos diante da primeira dificuldade e reconstruímos nossa identidade antes mesmo de compreendê-la.

Essa obsolescência programada é a estratégia de projetar um produto para que ele tenha uma vida útil limitada ou pareça ultrapassado antes do necessário, incentivando o consumidor a comprar outro.

Um produto é fabricado para durar menos do que poderia; um equipamento continua funcionando, mas perde compatibilidade; um produto que funciona perfeitamente, mas a publicidade faz o consumidor sentir que ele está inadequado; novos acessórios ou tecnologias deixam de funcionar com equipamentos antigos; um conserto é tão caro ou difícil que vale mais comprar um produto novo. Quem nunca percebeu esse movimento?

A lógica da obsolescência programada passa a atingir também as pessoas com a pressão para mudar constantemente a aparência, a necessidade de reinventar a carreira sem parar, a substituição de relações por novas conexões, a busca incessante por novidades para permanecer relevante nas redes sociais ou a sensação de que envelhecer ou manter convicções significa tornar-se arcaico.

Karl Marx, advogado e filósofo alemão, demonstrou que o capitalismo não se limita à produção de mercadorias, mas ele reorganiza as relações sociais por meio delas. Em O Capital, Marx afirma que a riqueza das sociedades capitalistas aparece como uma imensa coleção de mercadorias. O fetichismo da mercadoria mostra que os produtos adquirem valor simbólico e social. Nos dias de hoje, essa lógica alcança a subjetividade: o indivíduo administra sua imagem e personalidade como ativos continuamente avaliados.

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, nos traz a reflexão de que vivemos em uma sociedade marcada pela fluidez das relações. A constância nos torna inadequados; há uma exigência social de reinvenção constante. Nas redes sociais, perfis, opiniões e estilos são remodelados para acompanhar tendências, transformando pessoas em consumidores e mercadorias. Mas quem lucra quando nos convencem de não sermos suficientes? O que acontece quando a novidade passa a valer mais do que a permanência? Estamos consumindo apenas objetos ou aprendendo a consumir também pessoas? Um minuto para refletirmos.

A lógica da obsolescência programada ultrapassa a indústria quando a cultura produz a sensação de que aquilo que somos também envelhece rapidamente. A identidade passa a ser percebida como algo que precisa de atualização constante para que seja dado seu valor social.

À luz de Marx, percebe-se que o capitalismo comercializa também formas de existência. Com Bauman, compreende-se que essa dinâmica encontra terreno fértil em uma modernidade fluida. Preservar uma identidade construída pela experiência, pelos vínculos e pelos valores representa uma forma de resistência diante da mercantilização da vida.

Digamos que uma pessoa com 55 anos, competente e atualizada, perde espaço para alguém mais jovem porque a empresa busca um perfil “mais moderno”. A mensagem implícita nessa attitude é a de que sua experiência deixou de ter valor. Assim como uma mulher de 50 anos sente que precisa esconder cabelos brancos, rugas e marcas do tempo para continuar sendo respeitada ou considerada bonita. A lógica é a de que envelhecer passa a ser tratado como um defeito.

Um criador de conteúdo muda constantemente sua personalidade para acompanhar tendências e manter engajamento. A consequência é que ele deixa de perguntar quem é para perguntar o que gera mais visualizações. E, nas relações, em vez de enfrentar conflitos e amadurecer uma relação, muitas pessoas optam por substituí-la rapidamente. A lógica do consumo invade os afetos: se deu problema, troca-se. Relações profundas são trocadas por conexões rápidas, mais úteis ou mais convenientes. As pessoas passam a ser avaliadas pelo benefício que oferecem.

Ao abrir as redes sociais, alguém conclui que todos estão mais felizes, mais bonitos, mais ricos e mais realizados. Sem perceber, passa a sentir que sua própria vida ficou “obsoleta”.

Talvez a maior forma de resistência do nosso tempo seja simplesmente recusar-se a tornar-se descartável. Mas, estamos preparados para isso?

Emília Mazzei é jornalista, mãe de dois, especialista em educação do campo e coordenadora de projetos de comunicação e juventude desde 2017