Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?
Quem me mandou desvencilhar
as portas de meu próprio orgulho?
E quem saiu para viver por mim
quando eu dormia ou adoecia?
Que bandeira se desatou
ali onde não me esqueceram?
Poeta, dirigente comunista, diplomata, Pablo Neruda (pseudônimo de Neftali Ricardo Reyes) nasceu em 1904 em Parral e faleceu em 1973 em Santiago.
Neruda foi embaixador do governo Allende em Paris, cargo do qual se afastou por motivo de saúde meses antes do Golpe Militar de 11 de setembro de 1973. Seu enterro, em Santiago, dias após o golpe transformou-se na primeira manifestação pública contra o regime de Pinochet. O depoimento, dado por Luís Corvalán (secretário-geral do PC chileno na época do governo da Unidade Popular) a Gilberto Maringoni, para Teoria & Debate em setembro passado, em Santiago, define bem a personalidade desse chileno que entre outras coisas cantou o socialismo e a revolução: “Pablo tinha por seu Partido Comunista um extremo carinho. Os versos que lhe dedicou são de uma grande beleza e de um amor infinito. Cada vez que falou do partido, o fez com um amor infinito. Suas intervenções no Comitê Central eram sempre interessa interessantes. ‘Penso – disse ele no Pleno que se seguiu à eleição de Frei – que a massa católica se sente mais inclinada a votar nos democratas cristãos, não tanto porque eles parecem estar mais perto do céu, mas porque em muitos aspectos têm, mais do que nós, os pés no chão’. Esta reflexão era atinada e correta com as preocupações do Pleno que colocou mais ênfase em seu trabalho no seio das massas. Quase no fim da sua vida, eu e minha esposa o visitamos, uns dez dias antes do golpe. Estava muito doente e preocupado com o que estava acontecendo. Pensava, prostrado na cama, que se os golpistas fossem vitoriosos, poderiam chegar à sua residência na Ilha Negra, e cometer não se sabe que sorte de vandalismos. Tratei de tranqüilizá-lo:
– Sim – eu disse – pode haver golpe. Porém em ti, Pablo, não poderão tocar. És grande demais para que se atrevam a fazê-lo.
Ele me respondeu calmo, seguro do que dizia:
-Te equivocas. Garica Lorca era o príncipe dos ciganos e tu sabes o que lhe fizeram”
