Uma pera
pode passar a sua vida
sob o domínio das folhas
colhendo os carinhos do vento
até despencar na podridão do humus
O que
uma
pera
realmente
sabe
da
vida
é o prazer
da
mordida
Haverá lugar para a poesia? Affonso Romano de Sant’Anna se pergunta em seu longo poema A Grande Fala do Índio Guarani: “Onde lerei eu os poemas do meu tempo?” Onde estarão os Maiakoviski, os Brecht? Em que viela do destino se esconde o Rilke de hoje? Ou, em nossa América, em qual ventre amadurece o novo Vallejo? Em que lugar Benedetti ainda se pergunta: por que cantamos? Os poetas são filhos do tempo e se constroem no difícil amálgama do mundo e das pessoas insatisfeitas com as formas dadas. Lukács teria dito que a arte é, em parte, fruto da inadequação entre a alma e a ação, acabando por “introduzir no universo das formas a incoerência estrutural do mundo”. Insatisfação que foi expressa, por exemplo, quando Maiakoviski acreditou que seu mais eloqüente epitáfio pudesse ser: “Dize aos séculos futuros pelo menos isto: que eu estou em chamas”. Insatisfação como aquela das peras de Ferreira Gullar que “gastaram-se no fulgor de estarem prontas para nada”, e seu galo canta, pois “cantando o galo é sem morte”. Por isso cantamos, porque como as peras sabemos que o melhor da vida é a mordida.
