eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
Deixou escrita apenas uma frase: “Pra mim chega.” Como na canção, fechou a porta e abriu o gás. Perdíamos um poeta inventivo, que carregava consigo a solidão dos desesperados, que imprimiu como um selo trágico e único a marca dos suicidas na sua geração, pródiga de talentos na palavra e na música. O gesto final de Torquato Neto sublinha irremediavelmente sua poesia iluminando seus significados: para as lutas sociais de sua geração e para os dramas individuais que encarnou até o gesto definitivo. Torquato Neto nasceu no Piauí e se encontrou no Rio – lugar de encontro do que houve de mais criativo na cultura brasileira naquele momento da vida do Brasil – com Gilberto Gil, Edu Lobo, Caetano Veloso, Glauber Rocha, Rogério Duarte para produzir um movimento que, sem dúvida, foi divisor de águas na cultura brasileira: a Tropicália.
