O anarquista cospe fogo.
Traga-balas come bombas.

Vê como maxixam postes graves.
Explodem focos na cara do edil.

Casas berram pelas portas,
a Via Láctea é um cartaz elétrico,
dança o bonde…
Ué!

Que noite! goela dos delírios líricos…

O caminhão morreu de amor.

Negligentemente encostado no obelisco,
acendo estrelas no céu com o meu cigarro.

Augusto Meyer (1902-70). Nascido no Rio Grande do Sul, ocupou posição de liderança no Modernismo gaúcho, estreando com livro de poesia em 1923.

Homem culto e erudito, acabou por ver sua arte eclipsada por produção ensaística de primeira linha enquanto crítico literário e comparatista. Além disso, sua atividade pessoal em prol da cultura foi extraordinária no largo período em que, transferindo-se para o Rio de Janeiro, dirigiu o Instituto Nacional do Livro.

Entre suas atividades modernistas quando ainda vivia em Porto Alegre destaca-se a fundação da revista Madrugada (1926), que durou quatro números. Data do mesmo ano a antologia de novos poetas gaúchos por ele organizada e editada, Coração Verde.

Seu mais famoso poema é “Oração ao Negrinho do Pastoreio”, e seus principais livros de poesia são Giraluz (1928), Duas Orações (1928) e Poemas de Bilu (1929). Deste último vai aqui transcrito um exemplar, que releva a estética modernista com laivos de surrealismo: poderia servir de ilustração (ou vice-versa) para uma tela do pintor pernambucano Cícero Dias, seu contemporâneo.