a janela enquadra
quase ao pé
um jardim
uma faixa de areia
e adiante
um lance de mar
e ainda além
um trecho de terra
que antecipa
uma linha de montanhas

a janela (não) enquadra
o ar maculado
(escórias escárnios)
o estertor dos músculos
acionado pelo trânsito de ruídos
a tensão de ofensas ascos
lacerações (acúmulo
de escombros)

entre o que a janela
e o que não
toda uma vida (oculta)
relances limites
algumas disposições
nesgas de perspectivas
traços de razão

sim o que insistente
degrada o quadro
é tudo tudo
menos
este crespo cansaço e talvez
a música de sua imaginação

Poemas (2006)

Julio Castañon Guimarães, doutor em Letras pela UFRJ e pesquisador em Filologia da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, tem rica folha de serviços prestados à poesia, ao ensaio, à pesquisa e à tradução.

É especialista em Murilo Mendes, objeto de seu doutorado, a quem estuda e edita sem cessar. Mas também estuda e edita vários outros, notórios como Manuel Bandeira ou talvez menos, como Lúcio Cardoso, Gonzaga Duque, Hilário Tácito, Arlindo Daibert. A ele devemos a monumental Edição Crítica da poesia de Carlos Drummond de Andrade, que acaba de sair, pela Cosac Naify.

O requinte de seu gosto vem imprimir-se na escolha dos autores que traduz: Gertrude Stein, Roland Barthes, Mallarmé, Francis Ponge, Michel Butor, George Steiner.

Devotado a sua musa de várias maneiras, destacou-se na direção de revistas de poesia que primam pela qualidade e pelos critérios seletivos, como Inimigo Rumor.

Publicou vários livros de poesia, a exemplo de Vertentes, 17 peças, Dois Poemas Estrangeiros, Matéria e Paisagem, cuja reunião mais recente se intitula Poemas (1975-2005).

Poeta dublê de erudito, não só frequenta a alta literatura como convive com a música clássica e com o jazz: o resultado testemunha um ouvido exigente. Seus poemas salientam-se pelo rigor, pela abstração, pela recusa ao derramamento da subjetividade, na melhor linhagem dos famosos “mineiros”. Manifesta-se ali um eu que mal se entremostra, esquivando-se no discurso elíptico e reticente. Ao recusar o episódico e o temático, mostra-se avesso a qualquer impureza. Lira ascética, meditativa, tendendo à reflexão, privilegiando o trabalho com a linguagem e a economia verbal.