O X – 1 era mais claro do que a cela 10 onde eu permanecera nos últimos meses. E maior. A cela coletiva dava para um pequeno pátio destinado ao banho de sol dos presos políticos. A estrutura do Pelotão de Investigações Criminais (PIC), no Setor Militar Urbano foi desenhada como uma ferradura de celas individuais contíguas que cerca duas celas coletivas com capacidade para vinte presos, cada uma.

O X – 1 era mais claro do que a cela 10 onde eu permanecera nos últimos meses. E maior. A cela coletiva dava para um pequeno pátio destinado ao banho de sol dos presos políticos. A estrutura do Pelotão de Investigações Criminais (PIC), no Setor Militar Urbano foi desenhada como uma ferradura de celas individuais contíguas que cerca duas celas coletivas com capacidade para vinte presos, cada uma.

Cheguei ao X – 1 no final de uma tarde de janeiro de 1973. Fui recebido com a cuidadosa solidariedade e a prudente desconfiança que se misturam nessas ocasiões. Eram dezessete presos de diferentes organizações políticas que lutavam contra a ditadura militar. Entre eles um mito que assombrara durante anos os proprietários de terra do médio norte de Goiás, e a imaginação das crianças do vale do Tocantins e Araguaia: José Porfírio de Souza. Lavrador maranhense que migrara nos anos quarenta para a região de Trombas e Formoso.

Contava então sessenta e dois anos. Era um homem pesado, com um rosto cavo que contrastava com o corpo, dois miúdos olhos azuis inquisitivos. Trazia consigo histórias comuns aos líderes comunitários do continente. Podiam ser contadas por ele ou, para lembrar um exemplo, por Genaro Ledesma, líder dos comuneros do norte Peru na luta contra a Cerro de Pasco Corporation.

A saga de Porfírio inclui, como a de Ledesma, as mais singelas e comoventes formas de luta pela legitimação da posse da terra por suas comunidades: o amarrotado abaixo-assinado pleiteando a regularização das posses. Algumas assinaturas não eram mais que o nome precariamente escrito por alguma professora que dividia os rudimentos da língua que aprendera, ladeada como um selo pela digital correspondente. Ele levou, depois de um mês de viagem, pessoalmente ao Palácio do Catete, no Rio, na vã esperança de entrega-lo ao Presidente Vargas, no início dos anos cinqüenta. Nunca foi recebido.

Talvez a experiência mais significativa – e mais duradoura – cultivada pelos camponeses, com o apoio do PCB, tenha sido a dos Conselhos de Córrego. Rede de vizinhos que se organizavam a partir dos cursos d’água que recortam o cerrado em busca do vale Tocantins. Estruturaram a partir dela uma eficiente forma de auto-governo para responder aos desafios da produção e da defesa de suas lavouras contra grileiros e a polícia, nos momentos mais agudos do conflito.

O Estado brasileiro, para quem os trabalhadores do campo – herdeiros sociais dos escravos – eram invisíveis, mobilizou sua força quando, já na segunda metade dos anos cinqüenta, os posseiros de Trombas e Formoso realizaram as primeiras emboscadas contra grileiros de terra. Eles eram liderados por aquele mesmo Porfírio que, anos antes havia percorrido os sertões de Goiás e Minas para entregar uma petição na capital federal. Antes, o Estado ignorara aquele pacífico instrumento de quem se julgava cidadão, um abaixo-assinado. Agora o mesmo Estado mobilizava contra eles uma força combinada: a Polícia munida do instrumento jurídico e a milícia informal dos latifundiários, os jagunços encarregados da tocaia noturna e da disciplina nas fazendas. Tudo rigorosamente de acordo com a tradição. Assim fora em Canudos, em 97 do século XIX. Assim fora no Contestado, em 1912. Os trabalhadores do campo, no Brasil, só se tornam visíveis aos olhos do Estado quando se rebelam contra o fisco ou contra a força armada.

Os posseiros de Trombas e Formoso venceram as milícias, a Polícia e parte da imprensa que os combatia para defender os interesses dos latifúndiários graças a uma efetiva campanha de solidariedade movida pelo PCB que sensibilizou amplos setores da sociedade, particularmente em Goiânia, capital do Estado. Porfírio se tornaria deputado estadual pela legenda do PTB de Jango, apoiado pelos comunistas. Não concluiu o mandato. Esteve na cabeça da primeira lista de cassações publicada pelos golpistas de 1964.

Era um homem da terra. Reservado. Silencioso. Leu um único livro na vida: a Bíblia. E dela, o que mais gostava era o Livro do Apocalipse. Talvez o delírio e as premonições libertárias do universo de pastores arameus atiçassem seu imaginário de sertanejo lutador.

José Porfírio de Souza deixou o Pelotão de Investigações Criminais (PIC), no Setor Militar Urbano, em Brasília, para encontrar-se com sua advogada, em Goiânia. Não chegou ao destino. Nunca mais foi visto. Foi dissolvido pela noite de terror. Incorporou-se à lista dos homens e mulheres desaparecidos a quem a ditadura militar negou tudo. Até uma sepultura identificada, para escapar à memória dos sobreviventes.

*Pedro Tierra é poeta