Bombas limpas, disseram? E tu sorris
E eu também. E já nos vemos mortos
Um verniz sobre o corpo, limpos, estáticos,
Mais mortos do que limpos, exato
Nosso corpo de vidro, rígido
À mercê dos teus atos, homem político.
Bombas limpas sobre a carne antiga.
Vitral esplendente e agudo sobre a tarde.
E nós na tarde repensamos mudos
A limpeza fatal sobre nossas cabeças
E tua sábia eloqüência, homens-hienas
Dirigentes do mundo.
Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974)
Estreando com o volume de poemas Presságio, aos vinte anos, Hilda Hilst (1930-2004) viria a ser a autora de muitos livros. Obra ainda de difícil avaliação, devido à escassez de estudos, causada por seu estatuto quase clandestino: pequenas tiragens, quase que só presenteadas aos amigos, ademais logo esgotadas e promovidas a raridades bibliográficas. Assim, tornou-se uma poeta cult, contando com fãs ardorosos. Nos últimos anos, dois eventos vieram colaborar para o resgate dessa obra. Primeiro, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) adquiriu seu acervo pessoal para colocá-lo à disposição dos pesquisadores. Segundo, a Editora Globo empreendeu a publicação das obras completas, a cargo de Alcir Pécora, especialista da Unicamp; iniciada em 2001, já saíram os primeiros dos vinte volumes planejados, abrangendo a integral de poesia, prosa e dramaturgia. Voz original, não conheceu propriamente popularidade, mesmo quando consideramos o âmbito cerrado em que se move um poeta erudito. Sua trajetória releva do heterodoxo. Bela, loura de olhos verdes, rica e nada convencional, retirou-se aos 36 anos para a Casa do Sol, sua chácara de Campinas, em reclusão que manteria até à morte, dedicando-se a escrever uma copiosa e variadíssima produção. Com livros traduzidos para várias línguas, acumulou prêmios literários e teve sucesso de crítica, embora restrito, já que o público leitor ainda não a descobriu. O tema central a que se dedicou, em suas próprias palavras, foi “a paixão e seus limites”, ou, trocando em miúdos, a loucura, a morte, a dor, Deus, o erotismo. Não se deteve ante o escândalo e parte de sua obra arriscou anátemas. Sobressai o estilo elevado, com inscrição na alta tradição da poesia amorosa ibérica. Porém destilando amargor e desencanto, os quais se traduzem num elemento conflitante com o lirismo, e bem moderno, que é a ironia; também freqüentava o religioso e o místico. Extremamente elaborada, percebe-se em sua lira a poeta culta, iconoclasta e radical, liberta e libertária: o poema da capa evidencia uma veia reflexiva de preocupação com os destinos da humanidade, quando até a linguagem da tecnologia de destruição parece zombaria.
