Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.

Vai um sujeito.

Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito

bem engomada, e na primeira esquina passa um

caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma

nódoa de lama:

É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:

Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.

Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas,

as virgens cem por cento e as amadas que

envelheceram sem maldade.

Manuel Bandeira  – Que poeta modernista brasileiro escolher para acompanhar Lasar Segall nesta aventura de T&D? Muitos foram os seus amigos. Muitos foram “tema” para seus desenhos. O agitado(r) Oswald? O organizado(r) Mário? Drummond, o autor do emblemático “No meio do caminho”? Este foi o mais fácil de excluir: já foi poeta da capa de nossa revista nº 25. Sem dúvida, desde o começo manifestou-se uma inclinação por Manuel Bandeira. O decisivo, porém, foi o fato de que o trabalho deste poeta – como o de Segall nas artes plásticas – já se fizera modernista e maduro o suficiente para até mesmo influenciar a Semana de Arte Moderna, embora nenhum dos dois dela tenha  participado. É de 1918 ainda, seu poema “Os Sapos”, com o qual, do “perau profundo/e solitário”, este cururu da beira do Capiberibe vem iluminar o grupo de jovens radicais paulistas, e tornar-se bandeira – o poeta, e hino – o poema, do movimento de 22. O segundo problema foi a escolha do poema. “Os Sapos”, “Debussy” ou qualquer outro trabalho do seu livro Carnaval, de 1919, e que tanto inspirou a “geração de 22”? outra possibilidade seria alguma lira do seu quarto livro, Libertinagem, que compreende poemas escritos entre 1924 e 1930 – “os anos de maior força e calor do movimento modernista “, como diria o próprio autor em sua autobiografia literária, “Itinerário de Pasárgada”, no final dos anos 50. Mas, o que de Libertinagem? “Vou-me embora pra Pasárgada”, “Porquinho da índia” e “Pneumotórax”, certamente não.

Apesar dá grande excelência, são por demais conhecidas. “Cunhatã” e “Irene no Céu” seriam adequadas para acompanhar o tom delicado e grave de Segall no seu trato com os humilhados e as dores do mundo. Mas não são síntese de obra. Neste sentido, talvez devêssemos buscar (no mesmo livro) algo mais “conceitual”, como “Poética” (c. 1925), em que o poeta se declara farto “… /Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor”, faz verso, um seco e direto “Abaixo os puristas”, e conclui afirmando ” – Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

Enfim, depois de várias consultas (literárias, é claro), acabamos nos decidindo por “Nova Poética”, de 1949 e que faz parte do sétimo livro do poeta, Belo Belo, quando Bandeira, já aos 63 anos e membro da Academia Brasileira de Letras (desde 1940) retoma o tema de “Poética”, agora pelo lado da (re)afirmação dos conceitos da sua juventude. Bandeira nasceu em Recife, em 1886, e viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1968.

Em termos políticos, manteve sempre uma relação (mútua) de “pouca simpatia ” com a esquerda. Esta, no entanto, irá se reconciliar com o grande poeta depois da Anistia de 1979, quando um grupo de ex-presos políticos, militantes, exilados e punidos pela ditadura militar prestaram-lhe uma homenagem póstuma.