O título se justifica por meio de múltiplas perspectivas. O planeta está em perigo de sua destruição humana. Diferente de todos os outros animais, os seres humanos, ao criarem cultura, adquirirem certa liberdade em relação à natureza, da qual são parte não se pode esquecer, e passaram a possuir o dom de ser o único animal capaz de destruir a natureza, seja por meio de alterações climáticas-ambientais, seja através de armas nucleares. A liberdade frente à natureza, que nos permite voar, viver nos mais diversos ambientes e criar outros mundos, dentre muitas maravilhas, possibilita também a tragédia de poder destruir o planeta e matar toda a humanidade. Tais ameaças de destruição pairam sobre o mundo, em um instante, no qual nem os desastres ecológicos, nem as guerras parecem realidades distantes. Pelo contrário, ambos se tornam cada vez mais possibilidades reais, em especial, quando o império mais poderoso do mundo fabrica ameaças, guerras, nega as mudanças climático-ambientais e submete tudo a ganância do lucro.

Não bastasse o enorme poder humano-social de liberdade e de destruição do planeta terra, a contemporaneidade coloca em cena outras ameaças nada desprezíveis e intimamente associadas às anteriores. A ascensão dos autoritarismos mundo afora, em especial concatenados com o ódio da extrema direita, alimenta violências de toda ordem contra as democracias, os povos explorados e as pessoas oprimidas, em conexão com a violência da ampliação inaudita das desigualdades sociais, ocasionadas pelo capitalismo neoliberal. A gigantesca concentração de poder e de riqueza produz migrações, miséria, violência, fome e muitos flagelos que ferem bilhões de seres humanos mundo afora. Países pobres e ricos são atravessados por calamidades das mais distintas. Ninguém escapa delas. O surgimento do primeiro trilionário da história é sintoma da desumanização plena do capitalismo neoliberal, pois para que ele exista, bilhões de seres humanos são jogados na miséria, explorados e oprimidos.

A desigualdade social alimenta a violência social e criminal por todo mundo. O crime organizado atravessa países e adquire o formato de empresa multinacional. Tráfico de drogas e pessoas assolam a humanidade. Seu “combate” instituído pelas normas padrões dos países dominantes, impostos a toda a humanidade como única solução possível, nada mais fazem que gerar um espiral de crime e violência sem fim, incontrolável, que tão somente serve de pretensa justificativa para intervenções, em verdade, arbitrárias de potências dominantes agredindo a soberania de países e de povos, taxados de criminosos por seus opressores. O “combate” às drogas e as organizações narco-criminosas atinge fortemente os países periféricos, como se nos países capitalistas centrais não existissem violências, nem tráfico e nem consumo de drogas.

O mundo perigoso está envolto em diferentes revoluções tecnológicas promissoras e comprometedoras, a depender de seus usos, controles e controladores. As tecnologias não têm efeitos autônomos e próprios sobre a realidade. Suas dinâmicas e suas repercussões dependem de suas inserções na sociedade. Não existe uma dinâmica da tecnologia que garanta sua vida autônoma frente às contradições da sociedade. Pelo contrário, suas diversas potencialidades e possibilidades são desenvolvidas seletivamente a depender dos poderosos interesses dominantes envolvidos e rigidamente controlados. Potencialidades e controles vivem intensas contradições e lutas.

As alternativas ensejadas pela invenção das máquinas e da internet, por exemplo, tiveram podadas as interfaces que não se submetiam plenamente aos interesses dominantes. A máquina aumentou a produtividade do trabalho, mas não produziu uma automática redução da jornada de trabalho, como se poderia esperar. A redução só vem sendo alcançada por meio de intensas lutas em todo mundo, a exemplo daquela que acontece hoje no Brasil pelo fim da escala de seis dias de trabalho por apenas um de descanso. A internet poderia tecnologicamente aumentar a comunicação e a cultura, permitindo ampliar a diversidade e a pluralidade humanas. Com seu controle pelas big techs, ela tem se tornado fonte enorme de lucros e de desigualdades sociais de poder, impondo brutais monopólios. Sua utilização perversa coloca em xeque a democracia e mesmo a vida humana, devido ao seu potencial de disseminação de vícios e de doenças de toda ordem. Mas usos alternativos articulam resistências e inovações político-sociais-culturais.

O mundo perigoso tem nome e vida. Ele deriva do capitalismo neoliberal contemporâneo. O neoliberalismo não é somente um modelo econômico, mas uma concepção econômica, política, social, ambiental e cultural do mundo. A sua exploração gigantesca do planeta e dos povos pretende não ter nenhuma limitação seja do ambiente, da sociedade, do Estado e da democracia. Nada casual que o capitalismo neoliberal trate a natureza, o Estado, os setores majoritários da sociedade e a democracia como inimigos a submeter e, se possível, destruir. Seu alinhamento com a extrema direita se torna cada vez mais evidente. Contra todas as alternativas possíveis de desenvolvimentos criativos, justos e sustentáveis, o capitalismo neoliberal, intimamente associado com a extrema direita, torna o planeta um perigo cada vez maior para todos.

O Brasil está inserido no mundo perigoso. Aqui a extrema direita nega a ciência, ataca as artes, investe contra a cultura, desqualifica a educação, descuida da saúde, suspeita das vacinas, desmantela as políticas públicas, destrui os direitos sociais da população e agride a soberania nacional, ao se submeter vergonhosamente aos interesses e às atitudes arbitrárias do império norte-americano e do seu truculento presidente. A recente taxação de produtos brasileiros pelos Estados Unidos, estimulada pela família Bolsonaro, é mais uma tentativa clara de intimidação do Brasil e de interferência indevida nas próximas eleições nacionais.

Não bastassem tais atitudes antipovo e antinacionais, a extrema direita se arvora como única alternativa de combate ao crime organizado. Logo ela, que a cada notícia, mesmo na submissa e vergonhosa grande mídia brasileira, fica cada vez mais evidente a umbilical conexão entre a extrema direita e o crime organizado no país. Tais relações se ampliaram a partir da família Bolsonaro, que nasceu em íntima cooperação com as milícias no Rio de Janeiro e com os setores militares autoritários de linha dura. Hoje, pode-se afirmar, sem medo de errar, que o enlace entre a extrema direita e o crime organizado permitiu a captura por eles de muitas estruturas empresariais e estatais. Ou seja, como demonstram denúncias e investigações, parte do mundo empresarial e do Estado na atualidade está sob o controle da contaminação extrema direita-crime-organizado, colocando em alto perigo a vida, a população, a sociedade, a civilidade, as empresas, o Estado e mesmo a nação brasileira.

O mundo perigoso precisa ser chamado pelo nome. A “civilização” produzida pelo capital necessita corajosa e vigorosamente ser criticada, pois a vida prejudicada imposta à imensa maioria da população humana não pode continuar a deprimir a população, desqualificar a sociedade presente e bloquear as possibilidades de futuros. Nada casual que hoje o capitalismo só consiga produzir distopias, com futuros carregados de guerras, violências e misérias. Nada de humano, demasiadamente humano, tem lugar nos futuros do capital. Nada de alguma utopia de mundo melhor e possível. Mas as contradições produzidas, em sua magnitude, fazem emergir, em todo lugar e tempo, forças contrárias à barbárie, que se insurgem, das mais diferentes maneiras, contra o perigoso mundo capitalista, por meio de gestos grandiosos ou pequenos, conscientes ou não. Lutar contra a perversidade do mundo capitalista, perigoso em todas as suas facetas, é o grande desafio de todos nós, que sofremos seus desatinos na atualidade.

Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador do CNPq