Em 1969, o maior revolucionário brasileiro foi emboscado em São Paulo por agentes da repressão política e alvejado com um tiro no peito. A morte de Carlos Marighella intensificou uma onda de ataques a líderes e organizações da esquerda brasileira, ao mesmo tempo em que comoveu e emocionou militantes e ativistas políticos influenciados e dirigidos por sua liderança.
Os anos que se seguiram à morte do líder comunista foram marcados por uma longa batalha por sua memória. Jornalistas como Emiliano José, Frei Betto e Mário Magalhães escreveram sobre sua trajetória; cineastas produziram filmes e documentários sobre sua vida; e compositores imortalizaram seu legado em músicas célebres, como “Um comunista”, de Caetano Veloso, e “Mil Faces de um Homem Leal”, dos Racionais MC’s. No plano pessoal, a família de Carlos Marighella e os seus companheiros batalharam para que seus restos mortais fossem transferidos de São Paulo, onde fora enterrado como indigente, para Salvador (BA), onde foi definitivamente sepultado, em 1979, em uma lápide projetada especialmente pelo arquiteto Oscar Niemeyer, no cemitério Quinta dos Lázaros.
A luta da família de Marighella se somou à luta de outras famílias de vítimas da repressão política, que logrou alcançar, em 2024, a retificação das certidões de óbito dos mortos e desaparecidos, para fazer constar a violência política como a real causa da morte de seus entes queridos. O legado de Marighella permanece vivo. Seja nas fotos das camisas dos jovens nas manifestações ou em ruas, praças e escolas que levam seu nome. A fortuna crítica do pensamento deste grande brasileiro continua impulsionando debates sobre as tarefas da luta revolucionária e animando conversas acerca do papel dos heróis na construção da identidade nacional.
No último dia 4 de novembro, mais um capítulo desta reinvenção da memória foi celebrado. Junto com familiares e velhos ativistas políticos da geração de 1968, participamos do ato promovido na Quinta dos Lázaros pela passagem de mais um ano da morte de Marighella. Com emoção e compromisso, novos e velhos militantes compareceram para juntos falarmos palavras de compromisso com a justiça, a liberdade e a promoção dos direitos humanos.





Um ato de lealdade com a luta que custou a vida de Marighella no qual, de maneira respeitosa e solene, depositamos flores no túmulo do grande guerrilheiro e, um a um, fomos nos reafirmando na construção de uma sociedade mais justa e democrática.
Ao mesmo tempo, o ato também significou uma reivindicação ao Estado por um maior compromisso com o direito à memória, com a promoção das lutas de resistência contra a ditadura militar e pelo fortalecimento de narrativas de defesa dos direitos dos trabalhadores e dos excluídos. Não há dúvidas de que é dever do Estado brasileiro valorizar a história daqueles que doaram suas vidas à luta pela democracia em nosso país e que este reconhecimento representa um instrumento de fortalecimento da identidade nacional e de prevenção a novas tentativas de violação da ordem democrática.
Ao sair do cemitério, meu sentimento (como sempre ocorre em atos dessa natureza) era o de que a ditadura não venceu e nunca vencerá. O amor à vida cultivado pelos amantes da liberdade mais uma vez conseguiu sabotar os poderosos. Em um cemitério – lugar onde repousam os mortos –, celebrava-se, mais uma vez, um pacto com a imortalidade.
O militante contra a ditadura que seus algozes julgavam ter aniquilado em uma esquina em São Paulo, em novembro de 1969, ressuscita em coro contra o fascismo entoado na porta do Colégio Central da Bahia, onde o próprio Marighella estudou, para enfrentar a extrema direita; nas flores depositadas no túmulo como compromisso político com a luta pela liberdade; ou nos rompantes de felicidade vividos com a vitória de Maria Marighella, neta do guerrilheiro brasileiro, eleita no último dia 4 de outubro para um mandato pelo Partido dos Trabalhadores no Congresso Nacional.
O inimigo número um da ditadura não morreu. Ele renasce todos os dias nas lutas e nas disputas da memória e nos recorda sempre que não temos tempo de ter medo.
Felipe Freitas é secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia
