A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar, nesta segunda (23), os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS estende o funcionamento do colegiado em um momento decisivo e mantém abertas linhas de investigação sobre fraudes, empréstimos consignados e conexões políticas ainda não esclarecidas.

A prorrogação ocorre após uma sequência de seis sessões esvaziadas e cancelamentos de depoimentos, em um momento em que o colegiado tentava avançar sobre conexões entre fraudes em descontos de aposentados, empréstimos consignados e a influência política e financeira de personagens já citados ao longo da apuração.

Na véspera do prazo final, a comissão cancelou a reunião marcada para 23 de março, na qual estavam previstos os depoimentos da influenciadora Martha Graeff e do presidente da Dataprev, Rodrigo Assumpção. Segundo a Agência Senado, Martha, ex-noiva de Daniel Vorcaro — ex-controlador do Banco Master, investigado por fraudes financeiras — não foi localizada, enquanto Assumpção alegou motivos de saúde.

O requerimento para ouvir a influenciadora, apresentado pelo deputado Kim Kataguiri (União-SP), sustentava que ela poderia esclarecer a rede de relações de Vorcaro, “em especial com autoridades do Poder Judiciário”, e ajudar a entender se houve facilitação de negócios ou blindagem jurídica em relação às fraudes investigadas no sistema previdenciário.

Segundo a CNN, em troca de mensagens com o banqueiro, a influenciadora teria dito que temia a transferência de uma casa para seu nome por meio de uma transação de trust. Ao site, o advogado de Marta negou a propriedade da mansão, avaliada em R$ 450 milhões.

Relatório de 5 mil páginas

Sem a prorrogação, o relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), teria de entregar seu parecer antes do encerramento formal da comissão, cujo prazo original terminava em 28 de março. A decisão de Mendonça, portanto, reabre espaço para aprofundar linhas de investigação que ainda não foram plenamente exploradas. O relatório já estaria concluído e conteria 5 mil páginas.

Entre parlamentares governistas, a prorrogação é tratada como oportunidade para avançar sobre fatos que, na avaliação deles, aproximam o escândalo de figuras do entorno bolsonarista. Em vídeo publicado nas redes sociais, o deputado Alencar Santana afirma que a comissão está perto do fim. Ele reforçou a acusação de tentativa de proteção a envolvidos no esquema.

Ele afirma que o presidente e o relator estariam tentando proteger “Bolsonaro, o Vorcaro, o Zettel e muitas outras pessoas que meteram a mão no bolso dos aposentados”. No vídeo, apresenta a prorrogação como necessária para que a CPMI conclua o rastreamento de vínculos políticos e financeiros já apontados em depoimentos e documentos reunidos até aqui.

A leitura de aliados do governo é que o tempo extra pode impedir que a reta final da CPMI seja reduzida a uma disputa narrativa entre oposição e base, sem o aprofundamento de suspeitas envolvendo operadores financeiros, bancos e conexões políticas citadas ao longo dos trabalhos.

Também reforça a pressão para que a comissão volte a ouvir personagens considerados estratégicos para entender a circulação de dados, a blindagem institucional e o fluxo de recursos que cercam o caso.

Com a decisão de André Mendonça, a CPMI ganha sobrevida em um momento em que seu encerramento iminente ameaçava deixar perguntas sem resposta. O presidente, senador Carlos Viana (Podemos-MG), declarou em coletiva de imprensa que não iria dialogar com o presidente do Senado para definir a data da prorrogação, mas que trabalhava com a possibilidade de que os trabalhos terminem em 60 dias, podendo chegar a 120 dias “caso surjam fatos novos”.

A depender da condução dos próximos passos, a prorrogação pode transformar a reta final do colegiado em uma fase decisiva para consolidar o que já foi apurado e para testar, de forma mais direta, a extensão das conexões políticas do esquema investigado, que revelou o esquema Bolsomaster.