A rivalidade entre o Irã e a Arábia Saudita é frequentemente descrita de forma simplista como uma disputa religiosa milenar entre xiitas e sunitas. Embora essa dimensão exista e carregue importância simbólica e política inegável, ela está longe de explicar, por si só, a densidade dessa disputa. Para compreender o papel dessas duas potências regionais, é necessário observar um processo histórico mais amplo: a transição do colapso do Império Otomano para a criação de Estados nacionais com fronteiras artificiais, sob o peso da intervenção colonial europeia e da geopolítica do petróleo.
O Oriente Médio contemporâneo é, em grande medida, resultado de decisões geopolíticas tomadas fora da região, sobretudo entre o final da Primeira Guerra Mundial e a segunda metade do século XX. Essas decisões redefiniram territórios, criaram novos Estados e reorganizaram o equilíbrio de poder regional. Ao mesmo tempo, a descoberta e exploração de vastas reservas de petróleo transformaram a região em um dos centros estratégicos da economia mundial. Nesse contexto, Irã e Arábia Saudita emergiram como dois polos de poder cuja rivalidade influencia conflitos e alianças em praticamente todo o globo.
Até o início do século XX, grande parte do Oriente Médio fazia parte do Império Otomano, um Estado multinacional que governava territórios que hoje correspondem a países como Síria, Iraque, Jordânia, Israel, Palestina e partes da Península Arábica. O sistema político otomano não era estruturado em Estados nacionais; em vez disso, organizava seus territórios em províncias administrativas (vilayets) relativamente flexíveis. Identidades tribais, religiosas e locais coexistiam dentro de uma estrutura imperial mais ampla.
Com o colapso do império após a Primeira Guerra Mundial, potências europeias, especialmente Reino Unido e França, reorganizaram a região segundo seus interesses estratégicos por meio do Acordo Sykes-Picot (1916). O instrumento formal dessa reorganização foi o sistema de mandatos da Liga das Nações, que instituiu formas de controle indireto sobre territórios árabes:
A França recebeu controle sobre Síria e Líbano.
O Reino Unido passou a administrar Iraque, Palestina e Jordânia.
Essas novas unidades políticas foram desenhadas com pouca consideração pelas realidades étnicas e tribais da região. Tribos, comunidades religiosas e grupos étnicos foram frequentemente divididos entre diferentes Estados ou forçados a coexistir dentro de fronteiras artificiais — um legado que permanece como uma das principais fontes de instabilidade regional.
Processos de independência e formação dos Estados modernos
Ao longo do século XX, os territórios sob mandato europeu conquistaram, gradualmente, independência formal:
O Iraque tornou-se independente em 1932.
Síria e Líbano conquistaram independência na década de 1940.
A Jordânia tornou-se um reino independente em 1946.
A formação desses Estados foi, em grande parte, conduzida por elites políticas apoiadas por potências estrangeiras. Em muitos casos, instituições nacionais ainda estavam em construção, e o Estado dependia de apoio externo para manter estabilidade. Esse contexto favoreceu o surgimento de regimes autoritários ou sistemas fortemente centralizados, considerados por seus líderes como necessários para preservar a unidade nacional em países marcados por diversidade interna.
A Península Arábica e o surgimento da Arábia Saudita
Enquanto o Levante e a Mesopotâmia eram reorganizados sob influência europeia, a Península Arábica seguiu outro caminho. No início do século XX, a região era marcada por rivalidades tribais e pela existência de pequenos emirados e sultanatos. Nesse cenário emergiu a liderança de Abdulaziz Ibn Saud.
Por meio de alianças tribais e de uma parceria com o movimento religioso wahhabita, Ibn Saud expandiu gradualmente seu domínio territorial. Em 1932, proclamou o Reino da Arábia Saudita. Inicialmente com recursos limitados, o país foi transformado pela descoberta de vastas reservas de petróleo na década de 1930. Com apoio de empresas ocidentais, consolidou-se como um dos principais produtores globais e ator central na política energética mundial.
Cronologia de conflitos e tensões (1916–2026)
1916 – Acordo Sykes-Picot: definição de fronteiras artificiais por Reino Unido e França.
1953 – Operação Ajax: golpe apoiado por EUA e Reino Unido derruba Mohammad Mossadegh no Irã.
1979 – Revolução Iraniana: ruptura com os EUA e ascensão da República Islâmica.
1980–1988 – Guerra Irã-Iraque: conflito prolongado que reforça a estratégia de autossuficiência iraniana.
2011–2015 – Primavera Árabe e Guerra no Iêmen: intensificação de conflitos indiretos entre Irã e Arábia Saudita.
2018 – Retirada do JCPOA: saída dos EUA do acordo nuclear com o Irã.
Janeiro de 2026 – Captura de Maduro: operação norte-americana afeta aliados do Irã e da China.
Março de 2026 – Morte de Ali Khamenei: ataques coordenados EUA-Israel alteram o equilíbrio regional.
O tabuleiro multipolar e as guerras indiretas
Embora Irã e Arábia Saudita sejam os polos centrais, o sistema regional é interdependente. A Turquia mantém influência estratégica como herdeira do Império Otomano; o Egito segue como principal potência demográfica árabe; e Israel consolidou-se como potência tecnológica, hoje alinhada a interesses sauditas diante do avanço iraniano.
A rivalidade se expressa, frequentemente, por meio de conflitos indiretos em países como Iêmen, Síria, Líbano e Iraque. Nesses cenários, grupos políticos e militares recebem apoio de potências regionais rivais, transformando disputas locais em conflitos de alcance global, com impacto direto sobre rotas energéticas e mercados financeiros.
O Oriente Médio moderno resulta de um processo histórico complexo que combina colapso de impérios, partilhas coloniais, formação de Estados e rivalidades estratégicas. A disputa entre Irã e Arábia Saudita, portanto, não se resume a um conflito religioso, mas expressa uma luta por influência regional e segurança em um sistema fragmentado. Compreender essa arquitetura histórica é essencial para analisar os conflitos de 2026 e as transformações que ainda estão em curso.
