Debatido como alternativa para modernizar os meios de pagamento no país desde ao menos 2018 e lançado oficialmente pelo Banco Central em novembro de 2020, o Pix se consolidou como uma das principais inovações financeiras do Brasil. O sistema, no entanto, também passou a ocupar o centro de uma disputa política e comercial com os Estados Unidos.

Em relatório divulgado em 31 de março, o Escritório do Representante Comercial dos EUA voltou a atacar o Pix e alegou que o Banco Central daria “tratamento preferencial” ao sistema, em prejuízo de empresas americanas de pagamentos eletrônicos. 

A reação do governo brasileiro veio em tom direto. Durante agenda em Salvador, no início de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: “O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar o Pix, pelo serviço que ele está prestando à sociedade brasileira.”

Pix na mira dos Estados Unidos

A pressão do governo Trump sobre o Pix não começou agora. Em julho de 2025, os Estados Unidos abriram “investigação comercial” contra práticas brasileiras que consideram “desleais”. 

Nos documentos americanos, a principal alegação é de que o Banco Central teria favorecido o sistema brasileiro em detrimento de empresas privadas estrangeiras.

Um dos episódios frequentemente lembrados nesse contexto é a suspensão do WhatsApp Pay em 2020, quando o BC e o Cade interromperam o serviço para avaliar riscos ao Sistema de Pagamentos Brasileiro e à concorrência. O aplicativo pertence à Meta, de Mark Zuckerberg, aliado político de Trump. 

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Trump e os EUA voltam a agir como se pudessem ditar o funcionamento de um sistema financeiro nacional que foi desenhado, regulado e implementado por uma autoridade monetária brasileira.

Ao tratar o Pix como obstáculo comercial, Washington tenta deslocar para a arena internacional uma disputa que, no fundo, diz respeito ao sucesso de uma política pública brasileira.

Disputa bilionária no mercado de pagamentos

Segundo o Banco Central, o sistema Pix manteve forte expansão em 2025: só em dezembro foram registradas 7,934 bilhões de transações, alta de 24% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No segundo semestre de 2025, o Pix respondeu por 54,7% de todas as transações de pagamento feitas no país.

O BC também informou, ao fazer um balanço dos cinco anos do sistema, que o Pix movimentou R$ 26,4 trilhões em 2024 e já havia incluído 71,5 milhões de usuários no sistema financeiro. À medida que o Pix avança, diminui o espaço de intermediação de bandeiras e operadoras tradicionais, especialmente as dominadas por grupos americanos, uma “descolonização” do sistema financeiro brasileiro.

A economista Vivian Machado, do Dieese, resumiu o tamanho dessa perda potencial em entrevista ao Portal CUT, em julho de 2025: “Se calcularmos apenas R$ 1,00 por Pix dentre as 63,51 bilhões de transações feitas, os cartões de débito e crédito perderam a movimentação de R$ 63,51 bilhões em 2024.”

Ainda que a conta não esgote o efeito real sobre o mercado, ela ajuda a explicar por que empresas como Visa e Mastercard aparecem, ainda que indiretamente, no centro da pressão americana: são empresas estrangeiras que deixam de lucrar quando o Brasil se fortalece.

Defesa do modelo

Ao responder às críticas, o Itamaraty sustentou que o Pix visa garantir segurança e eficiência ao sistema financeiro, sem discriminar empresas estrangeiras. O governo brasileiro também destacou que a administração pelo Banco Central assegura neutralidade regulatória e que outros bancos centrais, inclusive o Federal Reserve, vêm testando ferramentas semelhantes de pagamentos instantâneos. 

Em relatório sobre a economia brasileira, o FMI afirmou que iniciativas recentes no setor financeiro, “incluindo o altamente bem-sucedido sistema de pagamentos instantâneos Pix”, colocaram o Brasil “na fronteira da inovação financeira” e ampliaram inclusão, eficiência e concorrência.

Em documento anterior, o Fundo já havia destacado que o Pix foi bem-sucedido em melhorar a inclusão financeira e viabilizar pagamentos de varejo mais eficientes. 

Pix entra em disputa comercial com os EUA

O sistema também passou a ser usado por Trump e sua equipe como argumento em disputas comerciais mais amplas. A crítica ao Pix se juntou a outras reclamações americanas sobre regulação digital, mineração, legislação trabalhista e proteção de dados no Brasil.

O pacote mostra que a Casa Branca não olha para o sistema apenas como meio de pagamento, mas como símbolo de um modelo estatal de coordenação que escapa ao controle de grandes empresas americanas. 

O Pix passou a representar, para os EUA, um problema concreto: reduziu custos para usuários, ampliou competição, fortaleceu pequenos negócios brasileiros e ocupou um espaço que antes era dominado por intermediários privados.

Quanto mais ele cresce, mais pressiona interesses consolidados no sistema de pagamentos internacional.

O que está em jogo, portanto, não é apenas o futuro de uma ferramenta digital. É a disputa sobre quem controla a infraestrutura dos pagamentos, quem captura a renda gerada por esse fluxo e até onde os Estados Unidos acham que podem interferir em decisões regulatórias e tecnológicas de outros países. No caso brasileiro, a resposta oficial foi clara: o Pix segue como ativo estratégico do país e deve ser aprimorado, não desmontado.