Na madrugada da última sexta-feira (28/2), um ataque aéreo coordenado pelo comando militar dos Estados Unidos e de Israel, atingiu Teerã, a capital do Irã, e deixou mais de 200 mortos.

iluminado por bombas e aviões, o céu de Teerã apresentava o início do que o país começaria a viver: mais um episódio do horror da Guerra que se espalha no Oriente Médio, especialmente desde os primeiros ataques de Israel à Palestina.

Os principais alvos, segundo justificativa apresentada pelos dois países, eram o Centro de Comando e Controle do Exército da Guarda Revolucionária Islâmica e o bunker onde o então líder supremo Ali Khamenei se encontrava – a morte do aiatolá foi confirmada horas depois.

A ofensiva liderada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, além de resultar no assassinato de centenas de crianças, teve como justificativa oficial “autodefesa” preventiva e o suposto poderio nuclear do país persa. No entanto, para o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Rodrigo Amaral,trata-se de mais uma falácia do liberalismo estadunidense. “O que o Trump faz seria, de certa forma, um ‘imperialismo aberto’, em que ele escancara uma vontade imediatista de derrubar o regime islâmico em prol de demonstrar a força do seu país e, consequentemente, acessar todos os recursos naturais do Irã”, explica.

O Irã é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, com produção estimada em cerca de 3,3 milhões de barris por dia (bpd) em 2026, segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Isso representa cerca de 12% das reservas mundiais, tendo a China como principal destino. “Além disso, o país é estratégico em termos geopolíticos, já que conecta a Ásia à Europa, e por onde passa o Estreito de Ornuz, rota de mais de 30% do petróleo mundial. Ou seja, ter o domínio do Irã é a grande e real ambição deste conflito”.

O especialista lembra que a guerra armada não é a única forma de imposição dos EUA aos seus adversários políticos. “O imperialismo não se resume apenas aos ataques com mísseis. As sanções econômicas ao Irã, por exemplo, acontecem há décadas. Por isso que neste momento os EUA apostam no isolamento iraniano de forma latente inclusive com ameaças aos seus parceiros comerciais”.

Terceira guerra mundial?

Imediatamente após a divulgação das primeiras imagens do conflito, plataformas de análise de redes sociais como Santiment e Google Trends apontaram um crescimento exponencial de buscas pela expressão “terceira guerra mundial”. Seja por memes ou postagens supostamente “técnicas”, a ideia de um conflito global logo tomou conta do debate virtual.
Amaral, no entanto, é categórico ao dizer que não há evidências concretas sobre o envolvimento de outras nações no conflito – sobretudo da China e da Rússia. “o uso da expressão ‘terceira guerra mundial’ é, sim, alarmista. Não há nada que indique de fato um envolvimento global. É uma guerra que tende a ser, na pior das suas hipóteses, regional que envolveria os vizinhos do Irã. Mas reitero que não acredito numa terceira guerra mundial neste momento. O uso dessa expressão vem desde a guerra fria (conflito ideológico, político e econômico entre os Estados Unidos (capitalismo) e a antiga União Soviética ocorrido entre 1947 e 1991) e que seria mediante o uso de armas nucleares. É importante ressaltar que o Irã não tem capacidade nuclear bélica e não há qualquer indício de envolvimento de Rússia e China, atores contra hegemônicos ao Ocidente”.

Problemas domésticos

Além do alarmismo sobre um possível conflito global, tem crescido a ideia de que a decisão de Trump para iniciar uma nova guerra seria um desvio de foco, já que os Estados Unidos passam por crises internas sem precedentes em sua história. Fatores como inflação persistente acima do esperado, pressões geopolíticas elevando preços de energia, a caça aos imigrantes e incertezas no mercado de trabalho criaram um ambiente econômico tenso.

A resposta de parte da população tem sido categórica. “De um lado temos uma ação militar que vira os olhos da mídia para a guerra e tira o foco das questões de problemas domésticos que o Trump já vinha enfrentando como as acusações de violaçṍes de direitos humanos contra imigrantes ou pessoas de ascendência latina no país, também há as denúncias de corrupção que ele vem sofrendo desde a primeira passagem pela presidência. Então, talvez o contexto de crise faça com que as ações externas sejam mais intensas e isso tem se mostrado bastante presente em sua segunda gestão”.

Amaral lembra que, além do conflito em andamento, Trump colocou em prática o sequestro de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, oferece apoio irrestrito a Israel em oposição irrefutável à Palestina e tem insistido na ideia de anexar a Groenlândia, território autônomo pertencente à Dinamarca. “Todas estas ações demonstram que existe uma vontade de tomar pela força uma posição hegemônica, mas que há evidentemente uma contradição no que diz respeito à legitimidade”.

O Brasil está em risco?

A política externa de Donald Trump já colocou em risco a soberania brasileira com o chamado “tarifaço”, que previa aumento de até 50% nas tarifas de produtos nacionais. A reversão da medida ocorreu após uma mistura de negociações diplomáticas, com papel central do presidente Lula, ações legais e, posteriormente, a decisão da Suprema Corte estadunidense de declarar as tarifas ilegais.

As ameaças econômicas ainda não estão totalmente descartadas, mas não devem ocasionar qualquer tipo de intervenção militar dos EUA no país. “Não acredito que isso seja possível, embora a possibilidade de intervenções econômicas ainda possam ocorrer. O que poderia ocorrer é uma mão mais forte da gestão de Trump devido à conexão das elites brasileiras com os seus próprios interesses”.