Durante discurso na 10ª Cúpula da Celac e no I Fórum Celac-África, em Bogotá, no dia 21, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “não é possível alguém achar que é dono dos outros países” e questionou a legitimidade de ações de força contra nações soberanas, citando nominalmente Cuba e Venezuela. O presidente também associou esse movimento a uma nova tentativa de recolonização política e econômica da região.

Ele questionou ainda em que parágrafo ou artigo da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) está previsto que um país pode invadir outro. “Em que documento do mundo está dito isso? Nem na Bíblia. Não existe nada que permita que isso aconteça. É a utilização da força e do poder para nos colonizar outra vez?”, afirmou.

Lula foi contundente ao cobrar o papel da ONU e defendeu uma atuação mais assertiva para impedir que países mais poderosos se comportem como donos das nações mais frágeis. “Quando é que a ONU vai convocar uma reunião extraordinária para que a gente decida qual é o papel dos membros do Conselho de Segurança? Por que não se renova? Por que não se colocam mais países representando o Conselho de Segurança da ONU?”, questionou.

Juntos, os 55 países do continente africano e os 33 países da Celac reúnem cerca de 2,2 bilhões de pessoas. Além de Lula, participaram da cúpula o presidente colombiano, Gustavo Petro, o uruguaio Yamandú Orsi e o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves. Vinte chanceleres também marcaram presença.

Caravanas de solidariedade

Caravanas internacionais ligadas à Nuestra América Convoy chegaram a Cuba com alimentos, medicamentos e outros itens essenciais. A mobilização é uma resposta ao cerco econômico liderado pelos Estados Unidos e à intensificação das dificuldades enfrentadas pela população cubana.

A ação reuniu ativistas, parlamentares e artistas de diferentes países, entre eles o deputado britânico Jeremy Corbyn, o streamer Hasan Piker e o grupo de rap irlandês Kneecap. Também estavam no comboio a colombiana Clara López, o espanhol Pablo Iglesias, o americano Chris Smalls e os brasileiros Thiago Ávila e Ana Prestes.

O deputado Corbyn aponta as sanções impostas pelo governo Trump como um dos principais fatores por trás da atual crise energética em Cuba. Sem a chegada de petróleo, o cotidiano passou a ser uma questão de resistência, disse ele, ao defender um investimento internacional de US$ 18 bilhões para viabilizar a transição da ilha para a energia solar e eólica, recursos que Cuba possui em abundância.

Em vídeo que circula nas redes sociais, um dos integrantes do Kneecap, Móglaí Bap, questiona: “eu não me lembro da última vez que Cuba invadiu um país. Não sei, invadiu algum? Acredito que não”. A declaração foi usada pelo músico para criticar a narrativa que trata Cuba como ameaça, ao mesmo tempo em que denuncia o impacto do bloqueio econômico e do isolamento internacional sobre a ilha.

O grupo também relacionou a solidariedade com Cuba à própria experiência histórica da Irlanda. Segundo o Irish Times, Mo Chara afirmou que os irlandeses foram “a primeira colônia da Grã-Bretanha” e que cresceram sob a experiência do colonialismo, da opressão e da fome forçada. Para ele, esse passado ajuda a explicar a identificação do trio com causas anti-imperialistas e com povos submetidos a cercos, guerras e ocupações.

Ana Prestes, jornalista e secretária de Relações Internacionais do PCdoB, afirmou que “Cuba incomoda há muito tempo porque representa soberania e independência frente aos Estados Unidos, oferecendo um projeto social alternativo com sistemas humanizados de saúde, educação e cultura”. Ela destacou que a saúde do país “é referência mundial e o país exporta solidariedade por meio de médicos, enfermeiros e brigadistas, além de ostentar índices elevados em educação e esporte”.

Desde o endurecimento da política do governo Donald Trump em relação a Cuba, a ilha passou a enfrentar um agravamento de sua crise econômica e energética, marcado por maiores dificuldades para importar combustível, realizar transações financeiras e manter o abastecimento de produtos básicos.

Trump ampliou as sanções, restringiu as remessas, pressionou o fornecimento de petróleo e recolocou Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. As medidas aprofundaram o isolamento internacional e contribuíram para a intensificação dos apagões, da escassez de alimentos e medicamentos e da deterioração das condições de vida da população.

Cuba ficou sem energia em escala nacional em 16 de março, quando a rede elétrica entrou em colapso e deixou cerca de 10 milhões de pessoas sem luz, agravando ainda mais as condições precárias de vida de seus habitantes.