A histórica virada de Lula nas eleições presidenciais no domingo (25) tem alimentado uma série de análises tanto por seu caráter histórico quanto pelos fatores numéricos que resultaram na inédita virada de um candidato entre o primeiro e o segundo turno na disputa pelo Planalto.
A comparação entre os turnos reforça a análise de que o país não se divide em blocos eleitorais homogêneos, como sugere a leitura dos mapas que atribuem a cada estado ou município apenas a cor do vencedor.
Lula venceu com 64,26 milhões de votos, contra 59,83 milhões de Flávio. A distância entre os dois foi de 4,43 milhões de votos. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro havia ficado à frente por 2,22 milhões de votos em 4 de outubro.
Em três semanas, o candidato petista conquistou 10,4 milhões de votos a mais, avançando também em áreas consideradas “impenetráveis” para ele.
“Lula não perdeu votos em nenhum estado do primeiro para o segundo turno. Nenhum. Ele cresceu nos 27, nas cinco regiões e em 98,6% dos municípios. Ponha os dois mapas lado a lado e veja o vermelho avançar pelo território inteiro, não só pelo Nordeste”, explica Rafael da Guia, cientista de dados e coordenador da Estel Tecnologia.
Em termos proporcionais, Lula cresceu mais nas regiões onde tinha ido pior no primeiro turno. No Sul, no Centro-Oeste e no Sudeste, por exemplo, o voto no número 13 subiu cerca de um quarto.
“A ideia de que existe uma metade do país fechada para ele não se sustenta nos números. Os dois candidatos cresceram, mas não no mesmo ritmo. Em todos os estados, sem exceção, o Lula somou mais votos novos que o Flávio. De cada quatro votos que os dois ganharam no segundo turno, três foram para o Lula”, prossegue da Guia.
Houve também mudanças na liderança dos municípios. No primeiro turno, Lula estava à frente de Flávio em 2.663 municípios. No segundo, em 2.875. Foram 211 cidades que passaram da liderança de Flávio para a de Lula e apenas uma que fez o caminho contrário. Outras duas saíram de um empate para uma vitória petista.
“Minas Gerais, que muita gente trata como termômetro do país, virou: o Flávio saiu na frente no primeiro turno e o Lula venceu no segundo. O Norte também trocou de lado, por pouco mais de mil votos. Dá a medida de como a região é disputada”.
A virada em Minas se insere no avanço de Lula em toda a região Sudeste, onde ele ganhou, entre um turno e outro, grande parte dos seus votos adicionais — só em São Paulo foram 2,6 milhões a mais. Mesmo sem vencer na região, diminuiu muito a diferença, e isso teve peso decisivo na vitória.
O comparecimento às urnas também aumentou entre os turnos, com a participação adicional de quase 3 milhões de pessoas.
“O segundo turno reforça o que o mapa do primeiro já mostrava: não existe um Brasil cortado ao meio. Mesmo em Santa Catarina, um dos estados mais azuis, 1,4 milhão de pessoas votaram no Lula. E no Nordeste, onde ele chegou perto de 70%, mais de 10 milhões votaram no Flávio. As cores se misturam em todo lugar”, conclui o analista.
Confira o mapa do segundo turno
123,71 milhões de votos: Lula em vermelho (51,8%) e Flávio Bolsonaro em azul (48,2%).
