Alma inquebrável – bravo sonhador
De um fim brilhante, de um poder ingente,
De seu cérebro audaz, a luz ardente
É que gerava a treva do Terror!

Embuçado num lívido fulgor
Su’alma colossal, cruel, potente,
Rompe as idades, lúgubre, fremente,
Cheia de glórias, maldições e dor!

Há muito que, soberba, essa’alma ardida
Afogou-se cruenta e destemida
Num dilúvio de luz: Noventa e três…

Há muito já que emudeceu na história
Mas ainda hoje a sua atroz memória
É o pesadelo mais cruel dos reis!…

Celebrado este ano pelo transcurso do centenário de Os sertões, Euclides da Cunha é menos conhecido como autor de poesia. Manuel Bandeira, que se interessava por poetas bissextos, publicou uma famosa antologia deles (1947), em que incluiu dois de seus sonetos. E preparou também uma seleção que integraria a Obra Completa em dois volumes, publicada pela Aguilar em 1966. Oriundos sem dúvida de um estro menor, constam do caderno manuscrito Ondas; uma nota da mão do autor já adulto atribui sua composição aos 14 anos. Sabemos que Euclides foi um ardente republicano e, quando aluno da Escola Militar carioca, ativista das agitações que levariam à queda da monarquia. Por isso, não nos estranha encontrar, entre outras formas e temas, quatro sonetos dedicados a algumas das figuras-chave da Revolução Francesa: “Robespierre”, “Danton”, “Marat” e “Saint-Just”. Os ideais revolucionários, como se vê, começavam a inculcar-se cedo e calavam fundo nos estudantes da época. Reproduzimos aqui um desses sonetos, datado de 1883, sublinhando suas características românticas, enfáticas, exclamativas e até “condoreiras”. Na veemência das invectivas, no ardor humanitário, no apostrofar a injustiça – e sem esquecer Castro Alves –, mostra a marca do maior vulto que nossos poetas então veneravam, Victor Hugo. Este é lembrado ainda mediante uma alusão a seu romance O noventa e três, data da revolta reacionária católica resultante de uma aliança entre nobres e camponeses, em que a província da Vendéia se sublevou contra a Revolução Francesa. O Terror seria instaurado em 1794, e o mesmo ano veria, antes de findar, a morte de Robespierre. O romance receberia nova menção no título “A nossa Vendéia”, referente a dois artigos publicados em O Estado de S. Paulo no ano de 1897, nos quais, antes de tornar-se correspondente especial, Euclides opinava sobre a Guerra de Canudos. E esse seria o título provisório, afinal descartado, de Os sertões.