nel fero loco ove ten corte Amore
Guido Cavalcanti

de nada vale amor que mero
ocupa verso e rima: se vero
não poupa: se raro preocupa
amor que vale arde e machuca

se é chama volteia como quero
se dura se trai in natura: erro
sei que não sei: amor mor se matura
e da própria substância se satura

requer já outro amor que cumpra
prometa mais que ventura: pois nunca
mesmo a cumprirá: falho em candura
de amor se cai de suma altura

Antonio Fernando De Franceschi, homem dos sete instrumentos, publica pouco e espaçadamente. A exigência com que burila o que vai para a página impressa transparece no apuro formal, no despojamento da dicção, na busca da formulação exata. O rigor da expressão casa-se ao rigor no peneiramento do que publica. Disso resulta ser densa a escrita, como que “palavra por palavra”.

A poesia parece ser, para ele, a depuração do que vem à tona de suas mil atividades de militante da cultura. Da formação em filosofia decorre o pendor para a meditação, de que transvaza uma demanda do sentido por assim dizer autoral. Corteja a musa com constância e parcimônia, lutando não só contra a banalização, mas também contra o desgaste trazido pela usura das palavras.

Nesse lirismo recatado, a inspiração tende ao clássico. O que combina com o perfil de vate erudito, ligado às fontes da grande arte universal em que, poeta para poetas, se abebera.

Uma tal dedicação à literatura não se restringe à poesia, mas se estende a tarefas afins. Entre outras, criou há tempos e é editor dos Cadernos de Literatura Brasileira, publicação do Instituto Moreira Salles.

Após Tarde Revelada (1985), Caminho das Águas (1987), Sal (1989), Fractais (1990), A Olho Nu (1993), veio à luz Cinco Formas Clássicas (2002), de que extraímos o exemplar que figura na quarta capa. Versando o imemorial tema do império do amor, procede ao meneio maneirista do conceito, que se desdobra com a inexorabilidade de uma demonstração lógica: mas a gota de humor ácido que reponta a tudo subverte.