A terceira via é hipocrisia
1.
A mídia corporativa segue na cruzada para achar a “terceira via” para o que denomina – de modo hipócrita – de “polarização”. Para consolidar a carreira no monopólio de comunicações, jornalistas cavam argumentos sobre “tolerância” e “liberdade de expressão” para rechear os editoriais. O da partidarismo é escancarado. A narrativa é construída como se estivessem no século XVIII, em luta contra o absolutismo de Luís 16, às vésperas da Revolução Francesa. Mas a toada é antijacobina. O país não presta, o povo não sabe votar, o governo gasta demais, as instituições não são confiáveis. Os chavões cravam a demagogia nos textos rasteiros.
Antes se completava o rosário de lamúrias com o elogio ao irmão do Norte, como exemplo de honestidade e sabedoria. Lá, as coisas funcionariam a contento. O país presta, o povo vota nas elites, o governo não intervém no mercado, as instituições são fortes. Depois de morder a língua, agora reina o silêncio. Pudera.
O fato é que vivemos em uma democracia sacrificada: sobrevivente do fracasso de um golpe contra o Estado de direito democrático, orquestrado pelo condenado Jair Bolsonaro et caterva. No meio do caminho havia a liderança de um “presidente estadista” para barrar o pesadelo distópico. A breve lembrança desmonta a fábula da polarização. A narrativa não se sustenta. O falso Messias queria instaurar o regime de exceção. O Silva salvou da morte a democracia, a dignidade por um fio.
As acrobacias para apresentar os supostos polos como equivalentes, repetidas à exaustão, não passam de diversionismo. A máscara cai quando se toma conhecimento do voto nas últimas eleições pelos candidatos que, ora, se arvoram em alternativas. Todos pertencem ao bloco de partidos defensores das famigeradas emendas impositivas no Congresso. Nenhum hesitou em votar no facínora sempre que teve oportunidade (2018 e 2022). São capitães-do-mato das elites do atraso. Atendem ao capital.
Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Ratinho Jr. e Eduardo Leite endossam o autoritarismo na política, assim como na economia convergem no aprofundamento do neoliberalismo que desemprega, uberiza o trabalho, não defende a soberania nacional. A receita repete: privatização do patrimônio público, ajustes fiscais para ferrar com os programas sociais, contenção dos gastos sociais, redução dos serviços públicos, submissão à lógica da financeirização do Estado, arrocho salarial dos servidores, repressão aos movimentos sociais. Eis aí o “centro”, da mídia!
2.
O presidente dos Estados Unidos George W. Bush, em 2001, diante do atentado terrorista às Torres Gêmeas em Nova Yorque, garantiu ao mundo que: “A expansão global da democracia é a mais importante força para produzir o recuo do terrorismo e da tirania”. Bush evocava as vitórias nos três quartos de século sobre a Alemanha, Japão e Itália na Segunda Guerra, e também sobre o império soviético dada a inesperada desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). O sólido desmanchou.
A democracia (representativa) sinalizava um estilo de vida e uma forma de governo para levar a prosperidade e a paz ao planeta. O triunfo ideológico da democracia parecia desnorteante e completo. A situação é diferente hoje. Cresce a extrema direita, a democracia é adjetivada de “iliberal”. O Capitólio é invadido em Washington para impedir a certificação do resultado da eleição de Joe Biden. As sedes dos poderes são vandalizadas em Brasília. A democracia torna-se um valor relativo em setores da população. Vigílias clamam pela volta da ditadura militar, da tortura, da censura.
Donald Trump retira os EUA de mais de 60 organismos multilaterais, 31 deles ligados a ONU. O Conselho de Segurança desta é esvaziado. A desordem nas relações internacionais se instaura. Caracas é bombardeada em uma madrugada, e seu presidente sequestrado. Países vizinhos, no cúmulo do servilismo, aplaudem a ação. A “desdemocratização da democracia”, na expressão criada por Wendy Brown, está em curso.
A economia engole a política, a cultura e o social para fixar a ordem do egoísmo e acabar com os sonhos que recendem a Conjuration des Égaux (Conjuração dos Iguais ou Conspiração pela Igualdade, 1796), o movimento precursor do anarquismo e do socialismo. Neste contexto, a luta de classes se desdobra no nível nacional e no nível internacional. As alianças envolvem as classes e as nações. Aumenta a importância da vitória em 2026.
Significa fortalecer a resiliência democrática e popular frente a expansão da barbárie no mapa-múndi, e construir a utopia cidadã – o direito a ter direitos. O presidente Lula da Silva 4.0 injeta mais democracia nas veias abertas do Brasil, da América Latina e na multipolaridade. É a via de que precisam os trabalhadores, os estudantes, os agricultores familiares. Todos e todas, juntos!
* Luiz Marques é docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul
Este é um artigo autoral. A opinião contida no texto é de seu autor e não representa necessariamente o posicionamento da Fundação Perseu Abramo.
