Cada mulher preta carrega dentro de si um Baobá. Esse tronco nos sustenta, nos mantém, de pé, eretas, cabeça erguida, e é responsável pelo nosso caminhar.  Nas extremidades deste Baobá se encontram todas as nossas ancestralidades, mulheres que nos trouxeram. Quando essas extremidades se conectam em nossas células, acontece um feitiço, e daí a gente consegue enxergar um caminho  e também escurecê-lo . Daí se ligam presente, passado e futuro.

Hoje é dia de quilombo, na verdade todo dia é dia de quilombo. Um salve a Beatriz Nascimento, que em toda sua sabedoria, nos ensinou que toda pessoa  preta é um quilombo, e memória de quilombo é memória de liberdade, a bonança, memória de família, festa, e  memória de resistência, mas também é memória de tristeza, e ser memória de tristeza decorre do fato de que quilombo é resistência. Pra que quilombo? Por quê quilombo?

Quilombo é casca, é proteção.

Em 25 de julho de  1992, na República Dominicana, foi instituído o dia da Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha. No Brasil, em 2014 esse mesmo dia foi instituído como o Dia de Tereza de Benguela e o dia da mulher preta. Tereza de Benguela, rainha quilombola, do quilombo de Quariterê , no qual assumiu depois da morte de seu companheiro quilombola, João Piolho, morto pelo colonialismo no Brasil. Teresa de Benguela foi resistência, durante 20 anos cuidou de nós, pessoas pretas, e das nossas irmãs e irmãos indígenas, frente ao nojento sistema colonial, aniquilador, exterminador racista. Estou falando do século 18, mas poderia estar falando de hoje, sem anacronismos.

E desse tronco fértil a nutrição, como quilombos, vivemos entre resistir e existir, do sobreviver e existir, do estar e existir, do morrer e existir , do não morrer e existir, de ser mulher preta e existir.  Um salve a quem nos trouxe aqui. Estamos em marcha.

Crédito: Ella Santos