No ano de 2005, no primeiro governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), o Brasil inaugura a criação dos primeiros instrumentos de materialização da percepção da juventude brasileira enquanto uma categoria dotada de direitos. A criação da lei 11.129 que criava o Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) e o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem) colocava a juventude brasileira, naquele momento, em referência para a elaboração, construção coletiva, monitoramento e avaliação de políticas públicas para o segmento juvenil. Um marco nacional na história da juventude. Estas ações ocorrendo concomitantemente promoveu ao ano de 2005 a categoria de ano da juventude brasileira. De forma justa. Antes daquele momento nenhum gestor público articulado com movimentos representativos havia conseguido alcançar tamanha articulação na perspectiva de garantia de direitos juvenis e articulado com uma proposta de sistema nacional.

2020, exatamente quinze anos após, o Brasil está imerso numa pandemia do novo coronavírus, que tem provocado mudanças substanciais em todos os segmentos sociais, estratificados no Brasil, com maior relevância de impacto entre os mais necessitados. Logo, setores sociais como juventude, negros, rurais, mulheres e demais categorias representantes das minorias políticas padecem mais neste momento. Com a perspectiva de levantar a situação social da juventude brasileira, o Conjuve, em parceria com diversas instituições, promoveu a maior pesquisa sobre juventude e pandemia já realizada neste período. Porém, mais do que uma grande pesquisa neste momento, se trata de uma das maiores amostras juvenis já registrada no Brasil.

Entre os dias 15 e 31 de maio de 2020, foi aplicada a pesquisa Juventude e pandemia no Brasil, a qual contou com a participação efetiva de dezoito jovens, que também atuaram como coautores, dividido pelas cinco regiões do país e com mais de 33 mil participando como respondentes. A pesquisa foi separada em 7 blocos temáticos: Informação, Hábitos, Educação e aprendizado, economia, emprego e renda, saúde e bem-estar, Contexto e expectativas e perfil socioeconômico. O quantitativo de jovens e a divisão regional e etária dentro da própria juventude foi realizada de acordo com a referência da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (Pnad).

 

Caracterização da juventude brasileira

O Brasil possui, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma população de cerca de 211 milhões de habitantes[1]. Dentre estes, há 47,2 milhões que possuem idade entre 15 e 29 anos. O que caracteriza juventude no Brasil, de acordo com o Estatuto da Juventude. Mais uma conquista da juventude brasileira na primeira década do século 21 no Brasil, mais uma referência do governo petista para a juventude.

Entre a juventude foi criada uma subdivisão do que, doravante, passaria a ser considerada juventude no Brasil: jovem adolescente, cuja a proteção está sob o Estatuto da Juventude e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – ficou a juventude com idade entre 15 e 17 anos – jovens – com idade entre 18 e 24 anos – e, os representantes etários com 25 a 29 anos são os jovens adultos. Logicamente que esta divisão linear é mais organizativa etária e, por vezes com arbitrariedade dos signos e símbolos, mas com importante caracterização em escala maior para a população juvenil brasileira que era inexistente até aquela primeira década. Tão invisível que a palavra juventude não fazia parte da Constituição Federal, maior lei do país.

 

A pesquisa em si e a bolha da juventude

A pesquisa traz dados reveladores que devem ser levados em consideração. Tanto na análise quanto na construção e aplicação de políticas públicas. Pois, aponta por onde os jovens constroem suas leituras de mundo, formam pensamentos e tomam decisões. A mais relevante delas é a percepção de que os jovens se informam dentro de uma bolha geracional. Logo na Nota Técnica, já apresenta os canais por onde os jovens souberam da pesquisa – 24% deles souberam por amigos, que por consequência são, via de regra, da mesma faixa etária; outros 23% souberam pelas redes sócio-digitais, (erroneamente denominadas somente de redes sociais) local em que 23% ficaram informados sobre a pesquisa; 20% souberam pelos grupos os quais fazem parte, outro locus de relação intrageracional. A primeira categoria que consegue sair da bolha etária é a escola. Pois, 15% ficaram sabendo da pesquisa por um professor e 13% pela unidade escolar ou faculdade. Entre os outros 6%, 4% não soube responder e 2% viu por informações.

Estes dados nos relevam que é necessário o estabelecimento de diálogos mais aproximados com as juventudes e a inserção, respeitada logicamente, aos ciclos de interação intrageracional. Pois, a mimetização dos quefazeres, defeitos e qualidades são imitadas entre si porque eles se relacionam muito mais com seus pares etários. Traz ainda algo interessante que é a função estratégica do espaço educacional ser um local de relevância para estas ações serem materializadas. Pois, 28% dos jovens se relacionaram com as informações da pesquisa através deste expediente.

A pesquisa dividiu as cinco regiões do país da seguinte maneira, para se aproximar ao máximo da Pnad: 10% para o Norte; 28% para o Nordeste; 8% para o Centro Oeste; 40% para o Sudeste e 14% para o Sul. E as divisões entre os extratos juvenis foram: 21% para jovens de 15 a 17 anos; 47% para jovens de 18 a 24 anos e 32% para os de 25 a 29 anos. Ressaltando mais uma vez a aproximação com a Pnad para a definição da metodologia.

Ainda foi percebido na pesquisa uma apresentação de jovens brancos com autodeclararão maior em 8% entre os jovens brancos. Pois, na Pnad este número está em 38% e na pesquisa aparece em 46%. Este hiato pode se dar devido à dificuldade de identificação da cor da pele por dificuldade formativa e a pigmentação somente ser utilizada para a definição da resposta e também pode estar ligada ao momento de conservadorismo nacional em que ser branco é a aproximação do lugar e a negação do não lugar na sociedade brasileira de 2020.

Quanto ao trabalho a pesquisa aponta que 32% trabalha e estuda. O que demonstra que estes terão uma formação com qualidade que poderia ser melhorada. Pois, ter de dividir o tempo entre trabalho e estudo é também gastar parte deste tempo em deslocamento e um tempo improdutivo, além de cansativo e estressante. Estes que trabalham e estudam não conseguem manter os seus estudos se não trabalharem, logicamente. 40% somente estuda. Estes que somente estudam possuem idades mais remotas e também pertencem aos extratos sociais mais elevados, o que lhes permitem somente estudar e se preparar melhor para a vida. Os que conseguem acessar a chamada moratória da juventude em escopo maior. Os 18% que somente trabalham e não estudam são os mais empobrecidos e que tendem a assunção futura do subemprego e trabalhos menos valorizados e remunerados. Os 10% que não estudam e nem trabalham já estão alcançando a categoria de subalterno entre os subalternos, os chamados “nem e nem”. Definição imprecisa, criticada, mas, em alguma medida existente no país. E, ainda entre os “nem e nem” existe os 2%, cerca de 1 milhão de jovens que também não estão procurando emprego. Pois, 8% destes 10% que não estudam e nem trabalha estão à procura de emprego. Estes 10% é o maior desafio para o país. Deste extrato saem os que a vida, o Estado e a sociedade “cancela os CPFs” matam prematuramente, os que são encarcerados e os mais vulnerabilizados na sociedade brasileira. Estes são os que as políticas baseadas na moratória da juventude e no estrutural funcionalismo[2] não alcançam. O que aponta para uma mudança substancial no conceito e na aplicação da política pública.

 

Participação social e negação da política

A pesquisa expõe uma face que já sabida, mas, agora empiricamente comprovada, que é o conservadorismo que rodeia e forma a juventude brasileira nesta segunda década do século 21. 39% destes jovens tem sua atividade de participação social a partir das religiões. Justificam que igreja tem em todos os lugares. Mas, para além disso as igrejas operam numa lógica de promessa do insondável e do infinito e do não criticado. Desta forma é mais fácil convencer e converter as pessoas à crença no divino. Uma vez que, se na terra há a negação, a igreja se apresenta como a salvação.

Desta amostragem 30% fazem parte de ONG ou alguma organização social. O que também não aponta que seja uma participação ativa em formação descolonial, emancipadora ou libertadora. Mas, que pode ser no viés do chamado “protagonismo juvenil”. Pois, se nestas instituições que eles participam houvesse do fato uma formação de compreensão da democracia e sua face representativa haveria, com certeza uma maior participação dos mesmos nos partidos políticos. Pois, somente 5% fazem parte dos partidos políticos. E apontam ainda que a política e os partidos estão desgastados e não são atraentes para eles. Orientações que a vida tem lhes dados em manutenção das coisas como estão e continuarem sendo mandados por quem lhes nega, via de regra. A negação da política tem sido uma máxima na formação juvenil no Brasil de 2020. Outro desafio a ser enfrentado e, vencido desejavelmente, para a construção de uma sociedade com maior representatividade e pluralidade, etária inclusive. Pois, os jovens que tem participado da política são os jovens fidalgos “filhos de algo”, são os de sobrenome Júnior, Filho, Neto etc., o que não garante a participação juvenil e rompimento etário, mas algo muito ruim que é a caracterização de uma política nacional baseada nas dinastias ainda. Pois, para isso basta perceber a linhagem que os representantes políticos do país têm. O que aponta que as mesmas famílias mandam no país a tempos e a formação dispensada para os filhos da classe trabalhadora é o seu afastamento destes lugares de poder. Forma-se a juventude filha da classe trabalhadora para terem ojeriza do poder e se afastar dele.

Coletivos ou grupos juvenis ocupam 27% desta amostra e 18% estão os movimentos. Daí a explanação acima serve para refazer a pergunta. Se não temos uma juventude apática, se eles estão inseridos em espaços de participação, se eles atuam ativamente na discussão sobre o país e, se o país é regido por um modelo presidencialista e de democracia participativa, por que, então os jovens odeiam a política? Logicamente porque são educados para odiar a política. Quem financia a formação deles tem a intencionalidade de afastá-los dos espaços de poder. Não deveríamos chamar de formação, mas de adestramento e deformação  na formação etária juvenil desta segunda década do século 21, o que não exime a escola desta formação também. A negação da política não é uma falha na formação, pelo contrário, se trata de uma estratégia.

 

Juventude e território

O território é o local de vida das pessoas. O território político e o geográfico não são duas coisas tão diversas. São faces do mesmo local que precisa de epistemologia de entendimento em que caibam os sujeitos que vivem nele e que o faz. Para a Pnad, 14% dos habitantes do país vivem no campo e 86% nas cidades . A definição de rural e urbano no país se trata de algo bem contestável, pois cidades eminentemente rurais e, distritos que são mais ainda, são caracterizados urbanos a partir desta definição política. De tentativa de apagamento do meio rural e de construção da ideia de que o urbano será o que sobrará. Que é o futuro do país e o fim da história. Mas, não é. Se trata de uma disputa ideologia de narrativa e de uma disputa de guerra fiscal entre os entes federados também entre o ITR (rural) e o IPTU (urbano).

A pesquisa ouviu 90% de jovens urbanos e 10% de jovens rurais. 37% das capitais, 22% das regiões metropolitanas e 40% do interior. Quiçá, o rural seja algo aproximado a estes 37% a partir da perspectiva de rural defendida pela pesquisadora Tânia Bacelar que é a do rural expandido ou de Nova Ruralidade.

Estes jovens rurais, ainda que façam parte de toda a juventude, possuem especificidades que precisam ser levadas em conta para a proposição e execução de políticas públicas. Mas, o modelo de desenvolvimento adotado no país tem sido a negação deste extrato da juventude como pertencente ao modelo de desenvolvimento.

A juventude rural além da invisibilidade epistêmica ainda sofre com a falta de políticas públicas em diversas ordens. Desde estradas mal conservadas, à falta de água, acesso à educação, à internet, saúde e outros equipamentos públicos são questões que penalizam a juventude moradora do meio rural brasileiro.

 

Arranjo familiar, políticas para a juventude e participação feminina 

A pesquisa apontou que para se pensar em políticas para a juventude é necessário se aproximar do seu arranjo familiar. Pois, há relação muito intrínseca sobre como vivem os jovens e sua relação com as famílias.

A pandemia do Coronavírus fez muitos jovens que já estavam emancipados em relação à moradia e à manutenção material da vida serem obrigados a voltar para casa e assim saborear a desemancipação dos corpos que impactam diretamente no aprisionamento das mentes também. 10% dos respondentes da pesquisa precisaram de regressar aos lares devido à perda de emprego, fechamento das universidades e outras questões que os fizeram regressar para manter as condições alimentares mínimas.

Estes jovens em sua maioria 69% vivem com as mães ou madrastas. O que já aponta um caráter de necessidade de incluir as mulheres mães ao fomentar as políticas para a juventude. 48% moram com irmãos e 52% com pais ou padrastos. Ao se cruzar os dados se percebe que a maior responsabilidade pela educação da juventude brasileira está sob e sobre as mães e às mães. Por isso que precisa de estar casada a política juvenil com a participação das mulheres mães, que em sua maioria são as mantenedoras dos lares ondem vivem as juventudes brasileiras. Em especial, as juventudes mais empobrecidas pelo modelo de desenvolvimento e gestão adotado no Brasil. São responsabilizadas por serem as responsáveis e têm a obrigação de serem mais responsáveis por serem, logicamente, responsabilizadas.

Se 37% dos jovens são dependentes das finanças de outrem, logo, estamos tratando das rendas femininas que necessitam de serem divididas com eles e elas. 28% são parcialmente dependentes dos cuidadores. Estes são os que, mesmo trabalhando, ainda não conseguem custear todas as suas despesas. Os valores que faltam para as mães, que vai desde fazer um exame até uma viajem, está sendo investido em parte da juventude brasileira. Somente para citar o impacto da negação da saúde e do lazer na vida das mães dos jovens por terem esta “obrigação” social. Os outros 35% somados as categorias pesquisadas são os jovens já emancipados. Eles podem estar bem espalhados geograficamente, mas, concentrados em uma classe social mais abastada ou entre a própria juventude nos jovens adultos, que conforma os jovens com idade entre 25 e 29 anos. Os jovens com idade entre 15 e 17 anos, mais uma vez, apresentam o maior índice de vulnerabilidade. 72% são totalmente dependentes das pessoas que cuidam deles. Para a política pública ajudar a resolver precisa de se haver um foco dentro do foco. O que se chama de interseccionalidade. Nada novo. Mas, muito necessário e com relevo de ser informado por fazer parte de produções orientadoras que partem de mulheres negras pesquisadoras, a exemplo da Kimberle Krenshaw e mais recentemente a Carla Akotirene. São lugares de assento para a construção de políticas reparatórias as pesquisas neste campo.

Com o advento da pandemia e este regresso para casa como novos desempregados se reconfigurou bastante as organizações familiares. Pois, antes da pandemia metade dos jovens estavam trabalhando. Estes se figuram entre os que mais perderam emprego com a pandemia. Além dos que perderam emprego, os 29% que estavam procurando emprego também deixaram de procurar por dois motivos: por não existir o emprego e devido ao isolamento social do trabalho obrigatório. 73% continuam trabalhando e 27% pararam de trabalhar durante este período.

Há um recorte racial que merece destaque neste ponto. Se 73% continuam a trabalhar durante a pandemia, entre os pretos é somente 69%. Se 27% pararam de trabalhar, entre os pretos é 31%. Enquanto 77% dos brancos continuam trabalhando e 23% perderam os empregos. A média entre a juventude que perdeu emprego é alta. Mas, levando em conta o recorte racial a juventude preta precisa de maior apoio das políticas públicas para conseguirem sobreviver e voltar a acessar o mercado de trabalho. Entre os pardos foram 71% para os que continuam a trabalhar e 29% para os que perderam o emprego.

Dos jovens pesquisados, 40% perderam a renda, já em comparação com a renda familiar, 50% das famílias tiveram a sua renda reduzida. Se já tinham um recorte etário de empobrecimento entre a juventude, temos ainda maior agora o empobrecimento pós pandemia. Não será possível recuperar a economia nacional pós pandemia sem recuperar a economia da juventude e seus recortes interseccionais. Sem recuperar a juventude preta em especial.

Entre os brancos 37% teve diminuição, entre os pardos 44% e entre os pretos são 45%. A realização de uma política baseada em critério racial não se trata nem de diálogos sobre cotas. Se trata de atuar nos extratos focalizados que a universalidade apresenta. Uma necessidade de busca de igualdade social a partir da equanimização das relações de acesso.

60% dos jovens tem em suas famílias a busca pelo auxílio emergencial de R$ 600,00 distribuídos pelo governo federal e 33% tem procurado a complementação da renda. Se os mais empobrecidos são os pretos, logo, estão mais vulnerabilizados e procurando soluções. A questão é: quais ações de complemento de renda existe disponível durante a pandemia que não deixa este jovem exposto e, consequentemente, suas famílias também? O que deveria era existir um Estado de Bem-Estar Social (Walfare State) que cuidasse deste segmento, mais especialmente, neste período, dotando de condições materiais de sobrevivência e garantia de direitos positivados pelo Estatuto da Juventude.

O que mais tira os jovens de casa é o trabalho. 19% deles afirmam sair diariamente somente para trabalhar. Em contraponto 6% saem todos os dias para fazer exercícios e 3% para comprar alimentos, se divertir ou namorar. A saída de casa e a exposição aos vírus e outras intempéries sociais que agridem a juventude ocorre em decorrência da busca de recursos materiais para a manutenção dos seus próprios e de demais corpos também.

 

Impactos na vida ativa dos jovens

A higiene pessoal é a única coisa que os jovens afirmam ter melhorados entre eles. As demais questões todas são apontadas como pioradas durante este período. 25% deles afirmam ter piorado o relacionamento dentro de casa, dentre estes, para 8% ficou muito pior. 42% piorou a alimentação e para 14% piorou muito. 55% piorou a qualidade do sono, sendo que para 26% piorou muito; 73% piorou as atividades de saúde e de lazer e para 44% a pioria foi muito pior; 65% teve piora no condicionamento físico e pior dado é que 70% piorou o estado emocional e para 58% aumentou a dificuldade de acesso a recursos financeiros. Como se diz na Bahia, ficou barril dobrado a vida de juventude nesta pandemia. Porque barril já era. Barril dobrado é o superlativo de difícil. É o muito difícil, o mega difícil, o hiper difícil, o dificilíssimo. –Palavra proparoxítona que parte da juventude com menos instruções escolares nem conseguem pronunciar-  O que é somente difícil é “barril”.

Estes dados apontam que qualquer ação de retomada de um país pós pandemia precisam de levar em conta cada dado deste apresentado. Pois, se trata de 23% da população brasileira que apresenta dados alarmantes em necessidades estruturais que, a conjuntura da pandemia somente expôs e tirou o cascão da pereba para aparecer a ferida.

Na vida, as questões mais difíceis residem na recuperação do ser humano, pois, como diria o poeta “gado a gente mata. Tange, fere, engorda e mata, mas com gente é diferente”. O país está desafiado a cuidar da sua juventude. Está obrigado a apontar soluções estruturais para a sua juventude para além das medidas emergenciais e conjunturais que se remete à pandemia. Porque se as propostas resolutivas não tiverem assentadas sob uma perspectiva estrutural somente valerá de “enxuga gelo” e paliativos. Serão ineficazes a longo prazo. Não se é preciso muita imersão teórica para a percepção das vulnerabilidades juvenis. Por que as juventudes – nas interseccionalidades que aumentam mais ainda a situação – ostentam as piores colocações na sociedade? Logo, é preciso coragem para identificar os problemas e buscar coletivamente e participativamente as decisões resolutivas.

Precisaremos ajudar a cuidar “da cabeça” de 7 em cada 10 jovens que estão com alteração psicológica neste momento. Apontar soluções econômicas e financeiras para 6 em cada 10 jovens brasileiros. Possibilitar atividades de lazer e equipamentos públicos com orientações para 6,5 em cada 10 jovens tupiniquins. E atividades de lazer para 7,3 jovens para cada grupo de 10 jovens.

A pandemia do Coronavírus não pode ser responsabilizada por esta hecatombe da juventude brasileira. Ela somente agrava o esquecimento promovido para este extrato social que o país segmentou e continua a segmentar. Responsabilizar a pandemia por esta tragédia que acomete à juventude brasileira é sair pela tangente e não assumir a responsabilidade social para com a juventude brasileira. É incoerência. É maldade. É promoção direcionada de um genocídio que vai desde o epistêmico cultural até os corporais. É preciso de coragem e empatia com a juventude.

Estas ações que devem ser promovidas para a juventude precisam de ser acompanhada por todos os recortes e intersecções possíveis. Não são todos os jovens que precisam de mais equipamentos públicos de saúde, cultura e lazer. Não são todos os jovens que precisam de acompanhamento psicológico, medidas educacionais, geração de emprego e renda e outros. É preciso de focar dentro da universalidade das políticas públicas. Pois, os dados abaixo não me deixam mentir.

 

Gênero, raça e juventude são faces de moedas distintas

A ansiedade acomete 62% dos jovens. Mas, quando se divide pelo sexo homens jovens ficam com 50% e mulheres com 67%. O que faz as mulheres jovens sofrerem mais com ansiedade? É preciso de ir muito longe para entender que numa sociedade marcada pelo cisheteropatriarcado as marcas ficam nos corpos e nas mentes?

O único ponto em que se iguala, conforme a pesquisa, em sofrimento entre homens e mulheres jovens está na solidão. 3,6 em cada 10 jovens sentem esta solidão. Quiçá as fluidezes das relações atuais provoquem uma solidão mutua mesmo entre a multidão. Aliás, especialmente entre a multidão. Talvez tenhamos construído valores supérfluos e fluidos que não preenchem os seres jovens.

Sobre a infelicidade 41% dos homens estão infelizes e 53% das mulheres. 35% dos homens estão assustados e 53% das mulheres. Sentem-se impotentes 4 em cada 10 jovens homens e quase 6 mulheres. É 41% contra 54%. 4 em cada 10 homens estão cansados e 5 em cada 10 mulheres jovens, número próximo acerca do sobrecarregamento que está de 42% para 54%. A impaciência está entre 46% para 59%. É possível promover políticas de juventude sem a priorização, mais do que necessária, no trato com as jovens mulheres?

Cada parte da pesquisa merece uma análise específica pois são dados importantes de serem interpretados. Aponto somente algumas reflexões que devem imperar categoricamente acerca das tomadas de decisões. As jovens mulheres precisam de mais foco e mais cuidado, o que deveria ser não somente por serem mulheres, mas é. Elas estão com maiores vulnerabilidades em todos os quesitos por serem mulheres. Logo, temos de ter outros focos dentro do foco da juventude. Isso não é ruim de se aparecer ou difícil de se fazer. É somente entender que estes dados são resultados das estruturas construídas no país e não somente da conjuntura da pandemia.

Quanto as questões raciais cabem uma lupa sobre os dados. 25% dos jovens brancos estão otimistas em relação ao futuro, enquanto 60% dos pretos e pardos estão otimistas e 4 em cada 10 jovens brancos estão pessimistas e 6 em cada 10 pretos e pardos. Estes dados falam muito.

Num país marcado pelo racismo estrutural em que as diferenças de cor da pele geram mais desigualdades, a juventude negra não sente todo o impacto do isolamento social. Primeiro não sentem porque as vidas deles continuam sendo quase que como era antes. As dores se agudizam mais, mas, não deixam de ser dores. Não se trata da substituição de uma vida de gozo por uma vida de privações. É somente a agudização das privações.  Um não superlativado. Enquanto para parcela significativa dos jovens brancos, os mais abastados, há uma mudança conjuntural no acesso ao consumo.

O que é não poder frequentar um cinema para quem nunca entrou em um? O que é não andar de avião para que nunca foi num aeroporto? O que é não ter academia para quem somente tem o campo da várzea como possibilidade? O que é não ter agora para quem nunca teve? Este é o debate. A questão de os jovens pretos e pardos sentirem menos os efeitos conjunturais residem em suas ausências que lhe presenteiam diariamente.

Em se fazendo um paralelo entre estes jovens negros que sentem menos os efeitos e as mulheres que sentem mais podemos inferir que, também entre os jovens pretos e pardos as mulheres padecem mais. Pois, os exemplos que utilizei acima, não é natural na vida das mulheres. Pois, para as mulheres jovens pretas e pardas os acessos são menores do que para os homens jovens pretos e pardos ainda. É uma dor maior dentro da dor. Um agravamento dentro do que já se é grave. E o que dizer de um subgrupo dentro deste subgrupo que são os jovens LGBTQIA+?

Os dados raciais apontam que o fato de os jovens brancos se demonstrarem mais pessimistas ainda não quer dizer que eles não tenham mais sonhos e possibilidades de sonhar do que os pretos e pardos. Quiçá os jovens pretos e pardos não temam o futuro porque não tenham o que temer e já se sentem predestinados a ser a reedição do que vivem diariamente e dos que vieram (e muitos já se foram) anteriormente. Assim, tem-se menos tempo para perceber que a pandemia está ou pode interferir em seus futuros. O racismo e suas violências correlatas atuam na diminuição do tamanho do mundo para o homem negro e para a mulher negra. Se isso ocorre também em maior escala, como em nosso caso, entre os jovens, logo, os jovens negros (e mais ainda as jovens negras) são outros dos outros. Aqueles e aquelas a quem os sonhos de futuro correm como o diabo corre da cruz. As políticas públicas devem servir para aproximar os seus focos estratégicos – neste caso os jovens e as jovens negras – em direção aos sonhos, que já deveriam ser seus, mas ainda não são.

 

Sobre medos e autoimunidade

O Brasil não somente forma mal. Mas, também informa muito mal. Nesta pandemia informaram para a juventude que ela é imune. Que não pega Covid-19 nos jovens e que “se pegar não passa de uma gripezinha”, como disse o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro.

A ideia de corpo atlético criou um falso sujeito imunizado. O jornal Correio, no Estado da Bahia, no dia 29/05/2020  fez uma matéria especial sobre o aumento da contaminação entre a juventude e os dados têm apontado isso também. E, pior é que, como alguns são assintomáticos eles transmitem para outras pessoas mais vulneráveis e acabam matando outras pessoas “por tabela”. Vamos aos dados.

75% dos jovens têm medo de perder algum familiar para a Covid-19 e somente 27% tem medo de perder a vida. Ou seja, 1 em cada 3 jovens tem medo de perder alguém, mas, não tem medo de morrer. Pois, a ideia de imunidade reverbera em seus pensamentos. 48% tem medo de pegar, 45% tem medo de passar para outras pessoas, mas, de morrer somente os 27% já apresentados acima. Aliás, este número se aproxima de outro bem da materialidade, pois 26% tem medo de passar por dificuldades financeiras. Logo, os que tem medo de morrer é o mesmo tanto que tem medo de passar por dificuldades financeiras. E, neste mesmo grupo 20% tem medo de passar por problemas psicológicos como estresse e crises de ansiedade, pânico e estresse. Somente 13% tem preocupação com questões educacionais como a perda do ano letivo, estudo interrompido e deficiência no aprendizado, o que se aproxima do medo de ficar sem os amigos, que soma 10% e 4% tem medo de desenvolver algum problema de saúde. Pois é, o Brasil criou a ideia do jovem iron man os serem que nada pega. E, não podemos somente colocar a culpa neles. Não se trata de isentá-los. Mas, a forma de comunicação utilizada, talvez, não tenha servido para ajudá-los neste processo educacional de forma mais assertiva.

Estes mesmos jovens têm se demonstrado, por outro lado, disposição para ajudar outras pessoas neste período. 72% dos homens e 82% das mulheres dizem já ter ligado para conhecidos e aferir se estão bem. 70% usou as redes sociodigitais para conscientizar pessoas, 29% fez alguma doação de materiais ou dinheiro para algum necessitado. Estes dados apontam a solidariedade que permeia o pensamento da juventude brasileira. Mais uma vez aparece as mulheres jovens com maiores disposições de solidariedade do que os jovens homens. Será que temos educados as mulheres para cuidar mais e os homens para cuidar menos?

Estes dados de solidariedade entre a juventude estão próximo ao que pensa a população em geral acerca da Covid-19. Isso nos orienta que a formação passada para toda a sociedade também é a mesma sentida pela juventude. Já que não se tem uma abordagem específica para com este público. Este público está mais vulnerável por conta da vulnerabilidade estrutural da juventude brasileira.

 

 Juventude e educação: dados e achado  

Três em cada quatro estudantes respondentes, de forma proporcional à sua série, dizem estar estudando neste momento de afastamento da sala de aula. Estar estudando não significa estar tendo aula. Ensino médio com 31% e graduação com 26% lideram a lista dos que dizem estar estudando. Outras categorias de estudantes estão bem aquém. No ensino fundamental das series inicias (1º ao 5º) apenas 0,4% afirmam estar estudando neste momento e do 6º ao 9º ano apenas 2%. Isso explicita uma questão biológica por estes estudantes serem menores e não possuírem melhores condições de acesso as ferramentas de atividades remotas, mas também expõe que as prefeituras municipais, principais responsáveis por estas modalidades não dispõem de planejamento pedagógico que consiga dar conta desta particularidade. Não somente agora, mas, entre a normalidade também. Na pós-graduação 4% dizem estar estudando neste momento.

Conforme a Pnad de 20189, 6% dos estudantes do país estão matriculados no ensino fundamental; 17% no ensino médio; 13% no ensino superior e 1% na pós-graduação. Conforme os dados da pesquisa o maior hiato que existe está no ensino fundamental. A Pnad contínua do IBGE ainda aponta que, no Brasil, 95% dos estudantes do ensino fundamental estão na rede pública e somente 5% estão na rede privada. Quiçá, estes 2% que estão acessando educação remota esteja dentro deste 5% da rede privada. O que assola ainda mais a apresentação da desigualdade.

No ensino médio 88% estão na rede pública e 12% na rede privada. Neste quesito do ensino médio há uma quantidade maior de estudantes da rede pública acessando, mesmo que pouco e de forma precária, porque todos os Estados tomaram a decisão de realizar atividades remotas contabilizadas ou não como atividades validadas. No ensino superior e na pós-graduação temos 71% de estudantes na rede pública e 29% na rede privada.

A pesquisa juventude e pandemia teve a amostragem de 89% dos estudantes da rede pública e 11% da rede privada para o ensino fundamental. No ensino médio a amostragem foi de 74% da rede pública contra 26% da rede privada e na educação superior ficou em 51% da rede pública e 49% na rede privada.

Os dados acima somente são introdutórios e não apontam ainda a qualidade do ensino, os recortes geopolíticos de acesso, questões sociais, de raça, cor e gênero e demais outros. Além de cobertura de internet e quem são os que conseguem acessar esta educação remota.

Apenas 2 em cada 10 estudantes afirmam está recebendo atividades remotas neste período. Estes dados são diferentes dos de cima porque acima se apresenta os que estão estudando de forma espontânea. Aqui abaixo são os que estão sendo estimulados a estudar neste momento.

Aulas digitais com mediação de professor conta com 52% dos acessos neste momento e 50% está sendo feito por aplicativos ou plataformas on-line. Vídeos por youtube são 29% e uso de WhatsApp conformam 27% das utilizações de plataformas digitais de ensinamento e aprendizagem neste momento pandêmico. 14% informam ter recebido materiais impressos e 13% tem material sem mediação de professor. TV aberta figura em 7% com mediação de professor e 4% está com conteúdo sem a mediação de professor. Também vale ressaltar que 2% estão estudando por intermédio das ondas sonoras do rádio. Enquanto que 19% dizem não ter recebido nada de orientação de suas instituições de ensino. Deste 10% ficaram apáticos e não conseguiram estudar e 9% está estudando por conta própria. 5% não soube ou não respondeu. Estranho 5% não responder ou não saber questões tão obvias de repostas também. Estes dados também apontam que as instituições privadas, até mesmo para a garantia do pagamento dos familiares, apresentam maiores disposições de adesão ao ensino remoto, enquanto que nas instituições públicas tem-se mais receio acerca desta abordagem. Também vale apontar que muitas escolas destas já adotavam antes algumas atividades remotas com seus estudantes e nas públicas ainda não.

 

O que é estudar em casa durante a pandemia?

Quando se trata de educação remota em seu caráter pedagógico solta aos nossos olhos a lupa de observação como necessidade de não negar a ciência. Não há consenso entre os professores, gestores e estudantes acerca do que significa de fato esta proposta formativa e, desta forma, se confunde o ensino forjado e implementado por intermediação tecnológica com Educação à Distância – EaD. A EaD possui legislação específica. A partir da LDB em seus artigos 32, 47, 80 e 87 e diversos decretos a exemplo do de Nº 9.057/2017 caracteriza o que vem a ser EaD no Brasil. Acerca deste assunto há uma publicação.

Estudar em casa tem outras implicações para além do método e da metodologia. A pesquisa aponta que falta de tempo e aparato tecnológico não se trata de um óbice para que os estudantes desenvolvam o seu quefazer. Estes dados desnudam um equívoco de que o único problema para a implementação da educação remota é a falta de internet. O ambiente de casa e o controle psicológico está apontado como os maiores desafios a serem superados pelos gestores e por toda a sociedade.

Entre concordar totalmente e concordar mais ou menos, 80% dos estudantes afirmam que o medo, ansiedade e estresse são os maiores impedidores de eles conseguirem estudar. Ou seja, mesmo entre os que podem estudar 8 em cada 10 apontam limites psicológicos para a feitura da atividade. Dificuldade de organização para estudar a distância atinge entre totalmente e mais ou menos 82% dos estudantes, o mesmo quantitativo para a dificuldade de estudar sem o apoio do professor. 63% não possui um ambiente propício, o que já está no campo da infraestrutura dos lares ondem vivem os estudantes. 66% apontam que os professores possuem dificuldades em ensinar a distância e 53% afirmam que não têm os materiais digitais adequados para a qualificação do aprendizado e para 49% o tempo é um dificultador.

Estes dados apontam que tratar somente da estrutura em si para a promoção das atividades pedagógicas remotas se trata de um grave equívoco. Os maiores problemas estão no campo simbólico e de cuidados internos. Ou seja, o cuidado da casa, corpo e mente. Cuidar da infraestrutura jamais deve ser desprezado, mas, a formação de professores, acompanhamento sistemático aos estudantes e cuidado com as crises psicológicas pelas quais vem passando os estudantes se figuram no topo das respostas. Desta forma, um plano articulado e participativo com estudantes, familiares, professores e gestores deve ser uma saída. Pois, neste espaço político cada um apresentará suas dificuldades para serem sanadas e orientadas para uma execução exitosa.

O cuidado para a sobrevivência e o tratamento dos medos precisam de chegar antes dos conteúdos. Pois, já apontado pelos próprios estudantes que conteúdos tem sido o menos importante neste momento. Mas, parece que não somente neste momento. Mas, em outros momentos também. Isso parece estruturar as escolas brasileiras. Vide o número de queixas diárias acerca destes assuntos. Cuidar dos estudantes como um ser holístico deve ser um princípio da educação.

Ensinar a controlar e planejar o tempo é o que metade dos estudantes pedem. Algo que supera o conteúdo e aponta que o tratamento para eles como gente normal precisa de ser entendido. Seis em cada 10 estudantes pedem formação para o controle das emoções. Apenas 35% pedem conteúdos curriculares neste momento. Conteúdos culturais, jogos e entretenimento é solicitado por 15%. Mais uma vez atividades voltadas para a formação para a vida e controle das emoções estão bem à frente das solicitações juvenis sobre proposições educativas para este momento. Não cabe mais somente (aliás jamais deveria caber) a escola do conteúdo e da cobrança por notas, que tem reprovado muita gente boa e com características empobrecidas e das minorias políticas para a própria vida.

Quando organizar o tempo for um conteúdo curricular estes estudantes perceberão como são usados os seus corpos e poderão dialogar de que forma isso ocorre e construir possibilidades distintas de uso pessoal e melhor adequado dos mesmos. Com a mente “ajustada e leve” poderão pensar e planejar até o próprio entendimento de que “mente vazia não é morada do diabo”, mas o tempo livre é um direito da própria juventude. Poderão pensar em diversas questões que lhe são importantes e que somente a ideia de preencher com conteúdo não dá conta da dimensão humana que devemos ter nos sujeitos.

A pesquisa ainda aponta que seis em cada dez jovens tem buscado aprendizado por conta própria no próprio youtube. Aponta que não tem agradado os conteúdos disponibilizados pelas unidades escolares e secretarias para eles. Cursos a distância e livros digitais têm sido consumidos por 43% dos estudantes e filmes por 33%. O que chama mais atenção é que as saídas para eles tem sido a busca intrageracional para a resolução de questões atinentes à educação. Pois, 23% apontam os grupos de WhatsApp para aprendizado com outros jovens têm sido uma estratégia deles, enquanto que 15% prefere não estudar por conta própria.

Os aplicativos de educação disponibilizado pelas secretarias de educação e escolas tem chegado em 2 de cada 10 estudantes. Os esforços das secretarias de educação chegam a 20% dos estudantes. Tem erro na forma ou no conteúdo ou nos dois. Mas, tem erro sim. 24% apontam que têm utilizado este instrumento. Cabe avaliar o que faz este instrumento não ser tão agradável para os discentes usarem como uma ferramenta de aprendizagem.

Ocorre que dentro da sala de aula física opera a imposição quase que ditatorial dos conteúdos, métodos e metodologias dos professores, gestores educacionais etc. com a sala de aula virtual abrem as possibilidades de os estudantes poderem dizer nãos sem olhares inquisidores. Desta forma a negação advém de uma dada democracia em poder escolher o que estudar. Por que não aproveitar estes dados para reorientar o formato educacional e orientar a formação estudantil a partir do que consegue atrair a atenção estudantil sem a imposição, mas com o diálogo. Isso não se trata de perda de qualidade, muito pelo contrário. Conteúdo é o último dos atributos (ou deveria ser) numa proposta formativa qualquer. Logicamente, que de acordo com as questões ligadas à idade/serie de cada estudante.

 

E quando a pandemia passar e a quarentena acabar...

Três em cada dez estudantes pensam em abandonar a escola neste ano. Estes dados ainda podem aumentar com o agravamento e continuidade das escolas fechadas, além do medo de contagio quando as unidades escolares forem abertas. Teremos uma situação de mais pobreza nas famílias pós pandemia e um Estado com o Produto Interno Bruto (PIB) reduzido também. Mas, para garantia de funcionamento das escolas e estudantes frequentando é necessário que haja o Estado de Bem-Estar Social (walfare state) funcionando. É necessário que o Estado doe bolsas para os estudantes e projetem este retorno futuro a partir de uma moratória direcionada. Pois, muitos apontam que vão parar de estudar para se dedicarem aos trabalhos e ter renda para se alimentarem.

Para além disso com o aumento do desemprego que assola a juventude muito mais do que outros extratos etários da sociedade, muitos estudantes vão ter de parar de estudar, em especial nas instituições privadas, porque não poderão arcar com os custos da mensalidade. E, até mesmo os das instituições privadas, porém empobrecidos também, poderão ter de evadirem-se das universidades para ajudarem suas famílias ou se sustentarem.

Sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), instrumento utilizado para o ingresso em instituições públicas e privadas, através de bolsas, 5 em cada 10 estudantes respondem que já pensaram em desistir também. Ou seja, 52% afirmam que não pretendem fazer o Enem. O que aponta para um trabalho forte de convencimento dos estudantes inscritos para a realização das provas. Mesmo porque ainda há 17% que ainda não sabe se fará ou não. Logo, somando os dois públicos podemos ter 7 em cada 10 estudantes que estão aptos a fazer o Enem desistindo dele. Isso é uma hecatombe. É a desistência em si mesmo. O que é muito grave para qualquer nação.

Entre os 31% que decidiram por fazer o Enem, 56% estão preocupados com o seu desempenho na prova; 67% não estão conseguindo estudar para as provas desde a suspensão das aulas e 49% já pensaram em desistir de participar da prova. Nos traz uma preocupação e uma orientação: atuar em animação com os que se inscreveram deve ser tarefa de cada unidade escolar. Saber todos os que se inscreveram e criar grupos que vão desde trabalhar conteúdos, mas também de incentivar a seguir e não desistir. Pois, muitos estudantes que farão o Enem perderam entes queridos para a Covid-19, além de eles também estarem inseridos entre os novos mais empobrecidos. Este chamado “novo normal” é um novo normal que tem novos mais empobrecidos ainda. E, quanto mais novo, mais empobrecido também.

 

Em que confiam os jovens? 

65% dos jovens afirmam acreditar nos sites oficiais de informação. Uma demonstração de que ainda é muito aceitável a presença do Estado como um informante oficial entre a juventude. Para 47% as notícias da TV são importantes e 37% acreditam nos sites de notícias. Rádios e campanhas de TV ou internet possui adesão de 25 % e 26% respectivamente. Campanhas nas ruas convencem a 19% dos jovens, podcast a 16% e panfletos nas ruas 17%. Canais do youtube está com 11% de credibilidade, facebook e instagram tem 5% de crença e mensagens de WhatsApp amarga a lanterna com 3% de credibilidade.

Todos estes dados apresentados trazem algo necessário de ser analisado: a instabilidade na crença juvenil. Pois, os que acreditam mais ou menos em todos possuem uma margem de aproximadamente 40% de possibilidades. Então, uma mentira contada, mesmo que no descredibilizado WhatsApp e reforçada por outras pessoas e meios de comunicação tendem a serem aceita como verdade por mais da metade desta juventude.

Os dados impressionantes são sobre o aplicativo de mensagem mais utilizado, que é o WhatsApp, possui este descredito nas “verdades” que ele apresenta. 67% confiam pouco ou nada nele. E, dentre os menos conhecidos está o Podcast, 22% não soube responder sobre este instrumento de comunicação. O que nos aponta que ainda se trata de um ilustre desconhecido entre parte significativa da juventude, mas os que conhecem tendem a acreditar, pois entre os mais ou menos e os confiáveis somam 62%.

É preciso criar canais de comunicação com a juventude confiáveis e aceitos por eles também. A pandemia do Fake News criou uma geração de gente desconfiada. De jovens que precisam de perder tempo verificando a mesma informação em diversos lugares para poder dar créditos a ela. Os canais de informações mais instantâneos são justamente os menos credibilidades pela juventude. Devido à possibilidade de propagação de mentiras.

Para 91% dos jovens as informações sobre o Covid-19 têm chegado. 86% sabem sobre as formas de transmissão e contágio e 74% sobre os sintomas da doença. 72% sabem sobre medidas de controle e 63% sobre a propagação dos casos no Brasil. 6 em cada 10 sabe sobre os casos no mundo, enquanto somente menos da metade, 46%, sabe sobre os locais de atendimento caso peguem a Covid-19. Apenas quatro em cada dez sabe como é o tratamento.

O percebido é que as informações sobre o Covid-19 estão sendo bem supérflua e sem instrução maior acerca de prevenção e tratamento ou, pelo menos o seu entendimento não tem sido satisfatório por parte da juventude. Não tem tido efetividade. Sobre sintomas, por exemplo, fica-se muito nas generalizações da falta de ar e febre alta. No entanto, outros sintomas não têm sido divulgados para a juventude ou a mensagem tem se perdido no trajeto por conta do canal utilizado para isso.

Sobre a economia 7 em cada 10 jovens acham que a situação vai piorar. 54% acham que o governo não apresentará melhoras. 4 em cada 10 acham que a educação vai piorar, enquanto 2 em cada 10 acha que vai melhorar e para 3 em cada 10 permanecerá igual. A qualidade de vida deve piorar para metade dos jovens. 3 em cada 10 acha que o sistema de saúde deve piorar, que é o mesmo número que apresenta descrença na sociedade brasileira. Mas, 42% acredita na melhoria da sociedade brasileira e 55% acredita na melhoria das formas de trabalho.

Os melhores resultados de crença no futuro vêm justamente da educação. Para 96% dos jovens haverá a feitura da vacina para o Coronavírus. 85% consideram muito importantes os testes para a detecção do vírus; mesmo quantitativo que acreditam na melhoria das relações familiares pós-pandemia. Para nove em cada dez é relevante saber quando os estudos voltam e para oito em cada dez quando voltam a trabalhar. 66% acha importante saber se terá a mesma renda e 67% quando a pandemia vai acabar. Talvez, estas informações sendo passadas de forma didática (as que existem, pois parte delas não existem respostas ainda) pode servir para acalmar os ânimos e mentes da juventude brasileira. A educação carrega consigo os sonhos de futuro da juventude. Não é frase de efeito ou de retórica. Eles estão dizendo isso.

Para metade dos jovens o trabalho a distância será uma realidade. O mesmo quantitativo dos que creem em novas formas de educação a distância também e da solidariedade. 46% acreditam que haverá mais investimentos na saúde e na pesquisa. Para 44% a sociedade valorizará melhor os professores pós pandemia. 37% acreditam que com a expansão das tecnologias digitais ampliará as possibilidades de trabalho, o mesmo quantitativo que acreditam na melhoria da filantropia social e cuidado com os mais vulneráveis e 27% acreditam que melhorará o tratamento ao meio ambiente.

Fazer pesquisa é como comprar ingredientes para se fazer comida. Após ter os alimentos comprados depende-se muito de muita coisa. Do fogão para cozinhar, da panela, da quantidade etc, mas, necessariamente, depende da condição do cozinheiro ou cozinheira em colocar a quantidade correta de cada ingrediente para que seja equânime cada quantidade. Aí está. Cabe aos gestores públicos e a todos que tem envolvimento direto com a juventude ajustar cada ponto apresentado por eles e suas idiossincrasias para que deem conta deste grande potencial que o país tem e tem tratado como problema social apenas: a juventude; nome que se dá aos sujeitos jovens. Sigamos.

[1]https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/box_popclock.php

[2]     https://ensaiosenotas.com/2014/05/06/funcionalismo-e-estrutural-funcionalismo/

 

Jocivaldo Bispo da Conceição dos Anjos é coordenador de Políticas Públicas para a Juventude em processos Educacionais no Estado da Bahia