A reportagem de El País, traduzida por Beatrice F-Weber, da equipe do Observatório, traz um panorama da diversidade do cenário espanhol, com características regionais diferenciadas e seus distintos atendimentos.

 

 

O coronavírus em nove comunidades: uma epidemia em velocidades diferentes

(clique aqui e acesse o original, em espanhol)

O impacto do vírus nas regiões é muito particular, segundo a data de aparição dos primeiros casos, sua letalidade e as dinâmicas internas

A intensidade com que o Covid-19 atinge não é a mesma em todas as comunidades autônomas. A Espanha está enfrentando uma crise de saúde de diferentes velocidades. Após três semanas em estado de alerta, a curva começa a se achatar. O aumento diário de mortes foi superior a 19% há uma semana, o dobro do que nos últimos dias. As UTIs parecem ter superado, por enquanto, o pior da pressão - a taxa de novas internações diárias em terapia intensiva caiu para 10% neste sábado, oito pontos a menos que na semana anterior -, enquanto novos casos aumentam mais lentamente.

O vírus se espalhou em cada comunidade de maneira diferente. Talvez muitos fatores influenciem esta distribuição ímpar, como densidade populacional, conectividade de transporte, número de testes realizados - realizar mais exames significa diagnosticar pacientes mais leves e assintomáticos - ou o tempo decorrido entre a chegada do surto e a tomada de medidas de distanciamento social .

Analisamos a situação nos locais onde se originaram os primeiros surtos; em comunidades que se tornaram um foco mais tarde e nas quais, no momento, menos casos são registrados. Para fazer isso, mostramos como as mortes e os casos confirmados evoluíram desde que os 100 primeiros casos foram declarados. Em termos absolutos e de aumentos diários. Também foi analisado o número reprodutivo (R), que representa quantas pessoas cada pessoa infectada contagia. Quando esse número é menor que 1, a epidemia começa a diminuir.

Os primeiros surtos

Madrid: A comunidade de Madri concentra mais de 40% das mortes e 29% dos casos em todo o país. Tem as piores taxas, 67 mortes por 100.000 habitantes (a média nacional é 23). Um médico que trabalha na UTI de um grande hospital afirma, anonimamente, que houve dias ainda mais dramáticos do que na Lombardia, o marco zero da Itália. Ele assegura que o número de hospitalizados e o número de mortos não crescem mais na taxa exponencial do início. Um exemplo: Madri deixou de dobrar o número de mortes a cada dia - agora as mortes dobram a cada 8 dias. Observa-se, com isso, um achatamento da curva de falecidos. A esperança está no fato de que quase metade das internações ocorrem nesta região.

La Rioja: Um funeral no final de fevereiro em Vitoria (capital de Álava) se tornou um dos episódios de propagação da doença. Transbordou para o País Basco e para La Rioja. Segundo o Instituto de Saúde Carlos III, La Rioja tem uma fatalidade bruta  - número de pessoas que morrem em proporção do total da população - em cerca de 5% (na Espanha esse número chega a  quase 10%). O fato de que as medidas de distanciamento em Haro, um dos primeiros surtos, foram realizadas uma semana antes de ser decretado estado do alarme pode ter contribuído para isto. Ademais, o número de testes que eles realizaram: La Rioja é a comunidade que realiza mais testes por habitante, no nível da Noruega e acima da Coréia do Sul. É também a comunidade menos povoada (313.500 habitantes).

País Basco: A situação no País Basco é semelhante. Nas primeiras semanas, foi uma das comunidades com mais casos. Mas agora parece ter conseguido estabilizar o número de mortos.

Aragão: Em Aragão, o número de casos cresceu exponencialmente, mas não o número de mortes (que é uma métrica mais confiável, pois não depende muito do esforço nos testes). O tempo de duplicação das mortes evolui na contramão da maioria das comunidades autônomas: começou bem, mas tem reduzido, e agora as vítimas dobram a cada três dias. O número é baixo, mas metade de suas mortes ocorreu entre terça-feira, 31 de março e sábado, 4 de abril.

O novo epicentro

Catalunha: Superou Madri na segunda-feira em pacientes internados na UTI (1.512 vs. 1.460). Evitar a lotação de UTIs na segunda comunidade mais populosa - 7,6 milhões de pessoas, um milhão a mais que Madri - tornou-se uma prioridade. Felizmente, o número de mortos parece ter parado em torno de 200 por dia e o número reprodutivo mostra sinais de que o vírus está claramente desacelerando.

Castilla-La Mancha: Apesar de representar menos de 5% da população espanhola, Castilla-La Mancha se tornou a comunidade mais atingida pelo Covid-19, depois de Madri e da Catalunha. Apesar de ter um perfil populacional semelhante ao de outros territórios menos afetados, como Galiza ou Extremadura, a proximidade de Madri e a movimentação de pessoas antes do decreto de alarme podem ter influenciado para o grande número de casos. As infecções na região dobraram em 20 de março, 10 dias após o fechamento das escolas em Madri. Desde segunda-feira, são realizados testes rápidos - trata-se da primeira comunidade a obtê-los - e registra uma média de 600 novos casos por dia.

Leão e Castela: O vírus entra em Leão e Castela com uma força semelhante alguns dias depois. É possível que uma parte das infecções esteja ligada a segundas residências: em março, houve quase 4.000 transferências de cartões de saúde de Madri para centros de saúde nesta comunidade (1.500 a mais que em fevereiro), segundo dados públicos da autoridade local. Os hospitais de Segóvia (perto de Madri) e Soria (perto de La Rioja) são os mais afetados.

Menos casos do que o esperado

Andaluzia: A comunidade mais populosa - 8,4 milhões de habitantes (18% dos espanhóis) - é a quinta em casos e a sétima em mortes. Isto pode ser, pois a região testou menos do que outras comunidades: 3.600 testes por milhão de habitantes, em comparação com 7.900 em Madri ou 9.000 no País Basco. Mas isso não explica o baixo número de mortes. Os últimos dias foram os mais difíceis, com 60 mortes em 1º de abril. Ontem foram 50. O número de mortes agora dobra a cada cinco dias. O número de mortes está associado às contaminações de duas ou três semanas atrás, uma vez que é este o tempo que leva para o vírus matar. O governo local argumenta que a crise da listeriose no último verão preparou o sistema de saúde e o fez agir mais rapidamente, criando um comitê de monitoramento de coronavírus um mês antes do surgimento do primeiro caso.

Galícia. A quinta maior comunidade autônoma tem a menor taxa de mortalidade da Espanha (2,8%, segundo o Instituto de Saúde Carlos III). Está em décimo primeiro no número de mortes causadas pelo coronavírus e em oitavo em casos registrados, com tendência de piora nos últimos dias. A região registrou metade de todos os seus falecidos (75 de 159) desde terça-feira. Diferentes causas são consideradas para que o surto demore a chegar. Por um tempo, os casos conhecidos foram importados, estando relacionados a excursões de idosos a Benidorm (Alicante) e Lloret de Mar (Gironia).  O fato de que a maioria da população nesta região utiliza carros particulares, e não redes de transporte público, como em outros locais do país, também retarda o contágio. O serviço de Saúde da comunidade também implementou a realização de testes dento dos próprios veículos, devido à saturação de demanda de testes em domicílio. 

Isolamento, uma vantagem:  A geografia pode ter sido uma vantagem para as Ilhas Canárias e as Ilhas Baleares. Os dois arquipélagos apresentam uma situação muito estável. As Ilhas Canárias, que mostram a menor taxa de positivos por 100.000 habitantes (67), foi onde o primeiro caso de coronavírus na Espanha foi confirmado: um turista alemão, em 31 de janeiro em La Gomera. Quase um mês depois, mil pessoas foram isoladas em um hotel em Tenerife por outro caso importado. A taxa de mortalidade nas duas regiões é uma das mais baixas (5,7 nas Ilhas Baleares e 3,2 nas Ilhas Canárias). As Ilhas Baleares registraram apenas quatro mortes de Covid-19 até 22 de março e, embora seu pior dia tenha sido sexta-feira com 12 mortes, as altas impediram a lotação dos hospitais. A região até se ofereceu para receber pacientes de outros territórios em suas UTIs, que operam com 60% de ocupação. Murcia também o fez, que é depois da Galícia a região com menor letalidade (4,3%).