Depois de três anos do impeachment que, em 31 de agosto de 2016 deu início ao processo de desnacionalização e desmanche de políticas adotadas em treze anos de governo democrático, a ex-presidenta Dilma Rousseff voltou no dia 4 de setembro, pela primeira vez, ao Congresso Nacional, durante o seminário "Soberania Nacional e Popular: contra as privatizações. Em defesa do emprego e de nosso futuro", promovido pelo Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público, a convite do deputado Rogério Correia (PT-MG) e outros congressistas.

Ao chegar, Dilma foi aplaudida e ovacionada de pé ao ser anunciada no auditório Nereu Ramos da Câmara dos Deputados, onde falou por trinta minutos sobre soberania nacional e contra as privatizações propostas pelo governo Jair Bolsonaro (PSL) e focou seu pronunciamento em defesa enfática do controle do Estado sob suas estatais, sustentando sua opinião com termos econômicos e destacou três pontos, que considera fundamentais no ataque à questão nacional:

- A privatização das estatais, explicando a diferença entre privatização e desnacionalização, e que no Brasil trata-se de desnacionalização principalmente das maiores estatais do país como a Petrobras, uma vez que não há no país capital suficiente para comprar e desenvolver a Petrobras. Criticou também a venda dos bancos estatais e a destruição do BNDES, o que impossibilitará investimento em infraestrutura.

- O Fundo Amazônia, que não foi um presente para o governo brasileiro, mas uma contrapartida para uma política ambiental de redução do desmatamento, coibindo garimpo e exploração ilegal de minérios e a morte de indígenas.

- E o Projeto Future-se, programa do Ministério da Educação de Bolsonaro que destrói o ensino público e as universidades federais, visando interesses e captação de recursos privados para as universidades federais, incentivando as corporações educacionais, que passam a determinar os critérios do desenvolvimento do país.

Dilma aproveitou para criticar o neoliberalismo e qualificou Jair Bolsonaro como “um expoente do neofascismo", justificando a expressão “neo” a partir da questão do nacionalismo “Porque geralmente os partidos fascistas eram nacionalistas. E esse grupo que está no poder não tem o menor compromisso com a nação. Portanto, não tem compromisso com sua soberania. Porque a soberania tem necessariamente de dar respostas à questão nacional, à questão do seu país, do seu território, das suas riquezas e do seu povo”, disse.

Dilma lembrou que “quem abriu as portas” para o cenário político e econômico atual do Brasil foi a direita social-democrata, que no Brasil, diferente do restante do mundo “é golpista” e precisou destruir os partidos de centro, construir um impeachment sem crime de responsabilidade e prender Lula, a principal liderança política da América Latina para o surgimento desse governo neoliberal e neofascista: “nesse país, infelizmente, a social-democracia, que sempre, pelo menos no mundo, achou que aceitar o consenso neoliberal era fundamental, ela que achou isso no resto no mundo, aqui não, ela virou golpista. Uma parte dela pelo menos virou golpista, a outra, a gente convida para todas as nossas frentes, que devem ser ecumênicas e receber todos aqueles que se interessam pela sobrevivência do nosso país”, completou.

Se emocionou ao lembrar quando sobrevoou a floresta amazônica, "aquele mar verde", e de quando “o pessoal se forma e diz que tem um diploma e é universitário”, concluiu. “Eu tive certeza que eu estava fazendo alguma coisa de boa ao dirigir, e eu tenho muita honra disso, o Brasil durante o meu período. Muito obrigada!”, sendo novamente ovacionada.

Também estavam presentes no Seminário, o ex-prefeito de São Paulo e candidato à presidência no ano passado, Fernando Haddad, o ex-ministro Bresser Pereira, o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, representantes de movimentos sociais, sindicais, entidades da sociedade civil e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).