A Fundação Perseu Abramo, por meio dos projetos "Reconexão Periferias" e "Brasil que o Povo Quer" realizou no ano de 2018 o Slam Nacional em Dupla. As edições foram preparadas no contato com organizadores de todas as regiões do país de Norte a Sul.

Os poetas foram incentivados a criar poemas a partir dos eixos temáticos da plataforma Brasil que o Povo Quer, bem como outras questões que fossem de interesse e relevância para as periferias brasileiras. O resultado foi maravilhoso, contribuindo para uma construção nacional fundamental no próximo período, de resistência ao avanço do autoritarismo no Brasil, que agora tem aval das urnas.

O Slam Nacional em Duplas foi um marco importante, já que no Brasil as competições aconteciam apenas individualmente. Os campeonatos de Slam foram trazidos para o Brasil por Roberta Estrela D’Alva, pela Zona Autônoma da Palavra (ZAP), que participou do time de poetas que organizaram a competição em duplas: Mariana Félix, Patricia Meira, Cristina Assunção, Meimei Bastos, Cláudio Junior, Bell Puã e diversos slams que acontecem pelo país.

Como fruto desta riquíssima jornada, foi lançado pela Editora da Fundação Perseu Abramo o livro “Slam Nacional em Dupla”, organizado por Emerson Alcaide, coordenador geral da equipe que viajou o território brasileiro todo e mobilizou milhares de jovens de várias periferias para pensar poesia e Brasil.

Alcaide é escritor, poeta, slammaster do Slam da Guilhermina e mestre de cerimônia dos slams: Sófalá – Red Bull Station, Slam Interescolar SP, Slam Nacional em Dupla – FPA, Torneio de Slams – Estéticas das Periferias. É, também, autor do livro (A) MASSA e O Vendedor de Travesseiros e já se apresentou na Venezuela, Argentina, Canadá, Trinidad (Caribe) e França. É também vice-campeão do mundo no Slam de Poesia de Paris (2014).

Por isso ele é o nosso convidado para a Entrevista do Mês, na qual nos conta um pouco sobre os slams, sobre como a palavra e a poesia tem transformado quebradas e como foi esta experiência para nós.

Emerson Alcalde durante a Etapa Sudeste (primeira eliminatória) do Slam Nacional em Dupla, realizado pela Fundação Perseu Abramo, por meio de seus projetos Brasil que o Povo Quer e Reconexão Periferias, em parceria com artistas e coletivos. Foto por Sérgio Silva / Fundação Perseu Abramo.

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Reconexão Periferias (RF/FPA): Emerson, você é um dos expoentes do slam e de uma literatura que se reivindica periférica atualmente. Você poderia falar um pouco para nós sobre como foi a chegada do slam no Brasil?

Emerson Alcaide (EA): Antes da chegada dos slams já existiam os Saraus de periferias como a Cooperifa e o Sarau do Binho, além das Batalhas de Mc’s e com este contexto o Slam chegou foi se instaurando. Em 2012, os Slams ocuparam as ruas e praças públicas conquistando maior público e se conectando com a periferia.

RF/FPA: Como você vê a relação entre o modo de fazer literário, o poético, tão ligado, pela tradição, na escrita e a poesia do slam? Quais as consequências que você percebe tanto no fazer literário quanto no impacto nos jovens que se engajam mais na Literatura a partir do formato slam?

EA: No início, os slammers ainda tinham a preocupação de fazer um poema e ser considerado um bom escritor, dentro dos cânones. Mas depois da explosão do slam e deste momento político, os poetas também explodiram o poema e não vejo mais esta preocupação em seguir uma tradição literária, o foco maior está na comunicação e expressão. De 3 anos pra cá, tanto o público quanto os competidores são predominantemente jovens. Eles foram sacando as possibilidades que o slam poderia lhes proporcionar e passaram a escrever cada vez mais diretamente, falando de si e de seu povo, sempre do seu lugar de fala. A identificação do público é direta, pois se identificam tanto com os poemas quanto com a pessoa que está declamando. Isto empodera.

RP/FPA: Existe relação entre o fazer literário da poesia slam e da poesia de cordel? Acha que seria forçoso dizer que esta relação se estabelece? Não haveria ligação por serem modos de fazer literário pela oralidade e, também, pelos marcadores sociais (periferias, nordeste, grupos marginalizados, etc)?

EA: Tem muita aproximação pela origem oral e popular. Mas ambos não dialogam na prática, são públicos distintos. O cordel, apesar de ser oral, ainda tem um forte sistema formal de criação, tem rimas marcadas e uma estruturação rigorosa. O slam explode o poema. O verso é livre. Não saberia fazer uma análise histórica e nem sociológica. A relação se estabelece pelo viés da oralidade.

RP/FPA: Você foi o coordenador do Slam Nacional em Dupla - O Brasil que o Povo Quer, plataforma da Fundação Perseu Abramo. Como foi essa experiência?

EA: Foi uma experiência fundamental tanto para mim quanto para os territórios. Circulamos pelas cinco regiões do país e fomos em lugares que nenhum outro slam tinha ido, como por exemplo o Acre. Só existe um Slam em Rio Branco e eles prepararam um grande evento para nos receber e fizeram a maior edição do país. Hoje, eles estão dentro do Circuito Nacional de SP graças a esta parceria. Ampliamos e inovamos com a modalidade em dupla, que já é muito forte nos EUA, mas no Brasil não existia. Os grupos criaram poemas especialmente para o evento dentro dos êxitos temáticos da plataforma Brasil que o Povo Quer.

RP/FPA: Acha que esse formato e mobilização em torno do SNDBQPQ* influenciou os slammers pelo país? Tem mudado os slams que acontecem? Há um legado ou relação de diálogo direto?

EA: Sem dúvidas influenciou toda a cena do país. Todos agora aguardam a segunda edição. Aqui em SP, eles tiveram a chance de gravar o programa “Manos e Minas” da TV Cultura e se não tivessem vindo para a final, não teria gravado este programa que, para eles, é uma vitrine e prestígio em suas localidades. A nossa ida até eles com o projeto, mostrou que eles não estão sozinhos e que suas ações reverberam dando maior ânimo para prosseguir. Estamos em constante contato fazendo parceria para outros eventos e divulgando seus trabalhos.

RP/FPA: O SNDBQPQ* resultou em uma publicação com os poemas dos poetas finalistas. Qual a importância de publicar poetas periféricos? E quais as perspectivas a partir desta publicação?

EA: Para todos que não são de São Paulo, esta foi a primeira publicação em um livro. Ficaram emocionados ao ver o material impresso. É muito difícil e caro publicar um livro. Em São Paulo, temos mais acesso, seja por editais públicos ou por gráficas em abundância, mas, em outras regiões, publicar um livro é um privilégio para poucos e esta publicação veio para romper a hegemonia do mercado editorial. A publicação é uma possibilidade de registro e de eternidade dos poemas e a divulgação nacional de seus escritos.

* SNDBQPQ: Slam Nacional em Dupla – Brasil que o Povo Quer