Já há algum tempo crescem as críticas ao conservadorismo do Banco Central do Brasil comandado pelo ex-Itaú, Ilan Goldfajn. A sua vagarosa política de redução da taxa Selic frente a um quadro de grave desemprego e inflação abaixo do piso mostrou-se equivocada e minou a já escassa energia que seria necessária para impulsionar uma recuperação da nossa economia.

Mas desde a última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do BC), encerrada no dia 16 de maio, Ilan e seus diretores têm dado novas demonstrações de que são mais incompetentes do que seus críticos supunham. Ao manterem a taxa Selic em 6,5% em um momento em que o “mercado” apostava em uma queda de 0,25%, sinalizaram que consideravam o cenário externo preocupante, o que acabou precipitando uma maré de apostas na elevação do dólar frente ao real e fez o mercado financeiro acionar o modo “aversão ao risco”.
Em um primeiro momento, o BC fez que não era com ele e deixou a taxa de câmbio deslizar até os 3,99. Quando desconfiou que a marola se transformaria em tsunami, já era tarde. Teve que abandonar o discurso de “não intervenção” e entrou vendendo milhares de contratos de swaps cambiais (espécie de seguro pelo qual o BC se compromete a cobrir perdas decorrentes de flutuações na taxa de câmbio), conseguindo apenas diminuir o calor da fervura e adiar a tempestade por algumas horas.

Entretanto, desde a última quarta-feira (13), depois do Federal Reserve (BC dos Estados Unidos) sapecar mais um aumento de 0,25% em sua taxa de juros e anunciar que repetirá a dose em suas próximas reuniões, o nosso BC tem sido obrigado a intervir no mercado de moeda, ofertando uma ração diária de swaps em volume superior a cinco bilhões de dólares - mesmo assim, não conseguiu impedir que o dólar encerrasse a semana cotado a R$ 3,81 e “empesteasse o ar”.

Nos mercados em que o BC não tem como intervir diretamente, os sinais de deterioração do ambiente econômico foram ainda mais expressivos. Nos últimos trinta dias o índice Bovespa perdeu mais de quinze mil pontos (cerca de 18%) enquanto os juros dos títulos com vencimento em janeiro de 2021 saltaram de 8,42% para 10,05%, em clara demonstração de que o BC perdeu a condição de coordenar as expectativas e está a reboque das angústias dos agentes privados.

O estrago foi grande e com ele o “dream team” que subiu ao poder com o golpe de Temer nos levou definitivamente a um “sonho medonho,” desses que, como dizia o Chico, “às vezes, a gente sonha e se urina toda até sufocar”. Primeiro o Meirelles, tropeçou na língua e em seu esforço escarrado de austeridade fiscal. Depois, Pedro Parente no comando da Petrobras nos levou ao “pé da ribanceira”, provocando um colapso no sistema de transportes do país. Agora, é o presidente do BC quem tem a “carcaça rasgada” pelos seus amigos do lado de lá do balcão. Para a próxima reunião do Copom (quarta-feira, dia 20 de junho), um “bando de orangotango” já exige um novo castigo com a Selic voltando a subir. Mais uma vez veremos traduzido em números o penar provocado por esta morta-viva agenda neoliberal.