Como poderia acontecer depois de sua retórica eleitoral em 2016 quando, para “bater” nos democratas, criticava o acordo negociado com o Irã com a participação do governo Obama, e mais recentemente quando substituiu seu Secretário de Estado e o assessor de Segurança Nacional por novos titulares, Mike Pompeo e John Bolton, defensores de atitudes ainda mais beligerantes que os anteriores, Rex Tillerson e H. R. McMaster, Trump decidiu violar o Acordo Nuclear firmado com o governo iraniano em 2015 e retomar as sanções que anteriormente eram aplicadas pelos Estados Unidos e a ONU àquele país.

Em 2010, as sanções foram respaldadas pelo Conselho de Segurança da ONU (CS), apesar da proposta de acordo costurado com o Irã por iniciativa do Brasil e da Turquia para assegurar que o programa nuclear iraniano fosse comprovadamente apresentado e percebido como para fins pacíficos. Basicamente o que estes três países discutiram e acordaram, embora rejeitado na ocasião pelos Estados Unidos e, em seguida, pela maioria do CS da ONU, foi praticamente igual ao negociado com o Irã pelo G5 + 1, composto pelos cinco países com poder de veto no CS, além da Alemanha, cinco anos depois.

O Acordo previa que, em troca do desmantelamento do programa nuclear do Irã, as pesadas sanções econômicas que lhe foram impostas deveriam diminuir até desaparecer.

Poucos dias antes da violação do Acordo, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, apresentou uma série de papéis que seus espiões teriam surrupiado do governo iraniano e que comprovariam que este país não teria interrompido seu programa nuclear e as tentativas de construir uma bomba atômica. Além disso, em seguida disparou uma série de mísseis sobre supostos alvos iranianos na Síria. Entretanto, os papéis, além de pouco claros, são de 2013 quando ainda não existia qualquer acordo e atualmente a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e os países europeus Alemanha, França e Inglaterra são unânimes em afirmar que o Irã está cumprindo a sua parte do Acordo.

Há muito que Israel ameaça atacar o Irã e o lobby israelense nos Estados Unidos tem feito forte campanha para engajar o governo estadunidense nessa aventura. Parece que está conseguindo, ainda mais com ajuda de personagens como Pompeo e Bolton. Este último, quando era o representante dos Estados Unidos durante o governo Bush, foi um dos defensores da invasão do Iraque sob a falsa alegação da existência de armas de destruição em massa e era favorável à dobrar a aposta bélica e também invadir o Irã.

Este lobby é feito por meio de várias associações, onde uma das mais conhecidas é o AIPAC (sigla em inglês para “Comitê de Assuntos Públicos Americano Israelense”), além de outras que atuam junto ao governo e congresso estadunidenses. Mesmo críticos moderados consideram que Israel exerce uma influência indevida sobre a política externa dos Estados Unidos, pois sua política para o Oriente Médio é totalmente condicionada pelos interesses israelenses desde os anos 1950. E o custo financeiro e político é alto, pois na prática significa sustentar um regime que sistematicamente viola os direitos humanos da população palestina e árabe na região, bem como as diversas deliberações da ONU que condenam a ocupação dos territórios árabes pelos israelenses.

O presidente do Irã, Hassan Rouhani, descartou renegociar o Acordo. Resta ver qual será a posição concreta dos demais signatários, pois, embora não tenham apoiado a decisão de Trump, as sanções que o governo estadunidense imporá novamente deverão incluir a punição de empresas de terceiros países que mantiverem relações econômicas com o Irã. O Brasil, que é um importante exportador de carne e grãos para este país, seria muito prejudicado.