Hoje, há 90 anos nascia um homem. Numa pequena aldeia milenar: Balsareny, Catalunha. Fez-se brasileiro e latinoamericano quando desembarcou aqui às vésperas da outorga do AI-5, em 1968. Foi batizado nas águas dos rios. Nas águas do Araguaia, seu rio, sua pátria. A pátria de Pedro flui, como o sonho e o sangue que alimentam nossas esperanças. Segue vivendo hoje, como Bispo Emérito de S. Félix do Araguaia, entre aqueles que escolheu como seus irmãos: os índios, os negros, os trabalhadores, os pobres. Em nome deles, por eles, para que celebrassem, escrevemos juntos a Missa da Terra sem Males e a Missa dos Quilombos. Para que rompessem o silêncio no Templo e no Pretório... quando a Ditadura se impôs ao país. Para homenageá-lo, a seguir, uma carta aberta que lhe escrevi em 2014, desde "La Mitad del Mundo", em Quito.

Pedro Tierra

 

Querido Pedro,

te escrevo, talvez, para recuperar uma trajetória que nos une há quase quarenta anos, desde uma manhã de domingo, no Pavilhão Cinco do Carandiru, Zona Norte de São Paulo, onde eu já cumpria o segundo ano de prisão e você veio trazer o abraço solidário a um grupo de homens que não conhecia e a maior parte deles sequer partilhava suas convicções de fé.

Vivia a Igreja, naquele momento o período mais fecundo, em quinhentos anos de história, de identidade e compromisso com os pobres do continente e, especialmente no Brasil, participava do esforço cotidiano que tecia, pacientemente, os laços da resistência à ditadura militar.

Sempre nos moveu, a você e a mim, a convicção de que a construção do destino do Brasil um país, livre, justo, generoso, capaz de acolher todos os seus filhos com dignidade, passa pela construção dos laços sociais, culturais, políticos e econômicos entre nós e os povos irmãos do continente.

Regresso a esse espaço que os equatorianos designam como “La mitad del mundo” agora já não para conhecer o monumento assentado sobre a linha do Equador, mas para conhecer a arrojada obra arquitetônica projetada por Diego Guyasamin, neto do mestre Osvaldo Guayasamin, tradutor incomparável da iconografia do mundo indígena para a precária percepção do nosso olhar ocidental, distorcido pela miopia...

Mais do que o espaço físico construído com trabalho, talento, imaginação e beleza que mobiliza essa gente de cobre que acorre à “La mitad del mundo” é a materialização de um sonho secular. O sonho secular da Pátria Grande. Garcia Márquez, o mais prodigioso narrador dos delírios que nos assaltam nesse continente, disse numa página, que esse talvez fosse o único sonho pelo qual valeria à pena morrer. Penso diante do que presencio nessa tarde: esse é um sonho pelo qual vale à pena viver.

Dispostos à frente do palco amplo, na mesa com guarnições de flores – naturais como você prefere – estão sentados diante de nós os Presidentes Maduro, da Venezuela, Juan Manuel Santos, da Colômbia, Rafael Correa, do Equador e as Presidentas do Brasil, Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, da Argentina, o Secretário Geral da Unasul Ernesto Samper, o Chanceler do Equador Ricardo Patiño e o Prefeito de Quito Maurício Rodas. Entre os presentes na plateia a Prêmio Nobel da Paz Rigoberta Menchú, de Guatemala, a representante das Madres da Plaza de Mayo, Fernando Lugo, ex-presidente do Paraguai, Manuel Zelaya, ex-presidente de Honduras.

Nutrida por nosso insuperável talento para a palavra a cerimônia se prolonga tarde adentro... Os oradores recuperam a saga passada e presente ditada pelo imperativo de construirmos o destino continental comum ou sucumbir... Para honrar a saga dos libertadores, a geração de líderes – homens e mulheres – que temos diante de nós, além de Michelle Bachelet, Presidenta do Chile. E essa extraordinária figura que impressiona o mundo com sua simplicidade, sua coerência e nos reencanta a todos, Pepe Mujica, Presidente do Uruguai. Não pode alcançar as alturas de Quito, por recomendações médicas. Deixou de Guaiaquil sua mensagem, seu legado aos jovens e a nós, calejados militantes que cumprimos a trajetória de sua geração, porque nos devolve a capacidade de sonhar. Esse momento deixará sua marca profunda no coração de cada um de nós. Mais sólido e permanente que a construção institucional da Unasul como mecanismo de integração de ações, o laço cultural entre a instituição e as sociedades sul-americanas. Ou seja abrir o longo processo para construir as bases, os critérios para que nossos povos comecem a pensar-se sul-americanos.

Seria longo reproduzir o conteúdo das falas de cada um, termino esse registro que quero partilhar com você e com os seus, aí em São Félix, com o momento final do encontro, quando os artistas das diferentes nações, depois de apresentar suas canções se juntaram no palco acompanhados pela recém-nascida Orquestra Sinfônica da Unasul para cantar a “Canción de América” que a voz de Mercedes Sosa um dia fez ecoar aos nossos ouvidos e tocar irremediavelmente nossos corações.

Um abraço forte, compadre, sempre
Pedro Tierra
La Mitad del Mundo, 05 de dezembro de 2014.