Um fato para o qual costumamos dar pouca atenção é que no capitalismo não há nenhuma possibilidade de avanço da economia sem que o sistema de crédito antecipe poder de compra a empresas e famílias. Na ausência do crédito, simplesmente não há movimento econômico.
Por isso, quando se pretende medir o pulso de uma economia, tão importante quanto observar a evolução dos seus preços-chave (juros, câmbio e salários) e de alguns indicadores macroeconômicos clássicos (desemprego, inflação, taxa de investimento, etc.) é avaliar a saúde da estrutura de financiamento que dá suporte às atividades econômicas do país.

O Banco Central brasileiro pública a cada seis meses o seu “Relatório de Estabilidade Financeira”, onde apresenta um quadro da conjuntura financeira (nível de liquidez, comportamento do crédito, rentabilidade e solvência das instituições financeiras, percepção de risco, etc.).
No último Relatório divulgado pelo BC, relativo aos primeiros seis meses de 2017 (leia aqui), o quadro geral é ainda bastante preocupante, embora uns poucos indicadores (como  o crédito às pessoas físicas) tenham registrado alguma melhora.

Infelizmente, contudo, o crédito para as empresas (de todos os portes) continuou declinando, com queda de 7,3% nos doze meses encerrados em junho de 2017. Além disso, outro indicativo ruim foi o do percentual de ativos problemáticos na carteira das instituições financeiras que seguiu crescendo para a grande maioria dos setores econômicos (veja tabela abaixo). No comparativo entre dezembro de 2016 e junho de 2017, dos 25 setores considerados, dezessete registraram aumento dos ativos problemáticos, (números em vermelho), dois permaneceram estáveis e em apenas seis foi constatada alguma melhora.

Entre os casos que registraram maior volume de ativos problemáticos e que, ao mesmo tempo, mais se agravaram no primeiro semestre do presente ano, destacam-se os setores de telecomunicações (35,4% em junho ante 34,9% em dezembro), construção, madeiras e móveis (18,2% ante 16,5% em dezembro), máquinas e equipamentos (15,5% ante 14,4%), transportes (12% ante 9,5%) e varejo (10,2% ante 8,7%). Ou seja, esses números revelam que não apenas alguns setores especialmente estratégicos para o desenvolvimento produtivo nacional estão com dificuldades crescentes para arcar com seus compromissos financeiros, como por isso devem estar enfrentando dificuldades para acesso a crédito novo no nosso sistema financeiro.

Nestas condições, mesmo que se perceba alguma melhora na renda real das famílias ou alguma recuperação da atividade industrial, não parece provável uma retomada mais consistente do crescimento econômico. Como ocorria nos anos noventa, a coreografia do voo da galinha deverá voltar à cena econômica brasileira nos próximos semestres.