Quando estudamos períodos autoritários ou fascistas na escola, construímos uma imagem de um ditador mau e uma sociedade igualmente diabólica. Só que não é assim. Já dizia Hannah Arendt, quando desconstruiu a imagem de Eichmann, na ocasião dos julgamentos dos crimes alemães da Segunda Guerra: ele não carregava a imagem de um demônio (como se esperaria de um general nazista), mas de alguém terrível e horrivelmente normal. Funcionário público que cumpria seu trabalho com zelo e amor. Talvez um bom pai, filho, vizinho e amigo.

E assim é: os apoiadores do Golpe de 1964, em sua maioria, não eram torturadores, mas pessoas que queriam defender a sociedade da ameaça comunista que iria comer as criancinhas. Tampouco na Alemanha os defensores do Terceiro Reich eram, necessariamente, assassinos de judeus, comunistas, gays, ciganos, negros. Estavam apenas defendendo a “soberania” e “resistência” do povo alemão diante de uma ameaça econômica e social.

Olhando para os últimos acontecimentos nas exposições de arte do Santander Cultural, no Rio Grande do Sul, e no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, pode-se afirmar que uma considerável parte da população hoje “SÓ” quer defender as crianças de um processo de hipersexualização nas artes. Não são pessoas más, diabólicas, que querem o fim da democracia. São bons amigos, maridos, pais, filhos, vizinhos e colegas de trabalho. Talvez o que não percebam é o quanto o “SÓ” é capcioso. Ele esconde um passo para a construção de uma sociedade mais autoritária.

Primeiro ponto a tratar: a defesa da infância é uma justa e necessária causa, sempre. Uma parcela considerável de quem defende a livre expressão artística cultural contra a onda conservadora também tem a defesa do direito à infância como norte. Conhece experiências de Conselhos Tutelares, de políticas públicas de garantia de direitos de crianças e adolescentes. Combate publicidade para crianças; defende aumento do repasse para educação, com garantia de boas creches e escolas, com alimentação e material de ensino de qualidade; é contra a redução da maioridade penal, para evitar que sejam encarcerados em massa nossos adolescentes e jovens.

Agora, vejamos: no MAM, em uma exposição não inédita – Wagner Schwartz já tinha exposto no Sesc Belenzinho – o artista, quando teve seu pé e sua canela tocados por uma criança, é filmado, e a imagem é postada nas redes sociais. A mãe e a criança não sabiam que estavam sendo filmadas. Era apenas mais um dia de exposição. A imagem descontextualizada é usada para fazer pressão sobre o MAM para encerrar a exposição.

Há algumas semanas, a exposição do Santander Cultural foi cancelada por pressão do MBL por ter a imagem de uma criança gay. Crianças gays existem. Adultos gays dizem ‘nasci assim, sempre me senti assim’. Então, qual a questão? O problema aqui não parece ser a hipersexualização da infância, mas a expressão da homossexualidade. Porque a exposição não causaria tanto incômodo se houvesse um menino seguindo padrões de virilidade hipermasculinizada heteronormativa. Ou estou enganada? Ou meninos desde bem pequenos não escutam: ‘e tem namorada?’. E por que isso não parece incomodar?

Voltando ao ensino da história nas escolas, acho que ela falha em dois aspectos: é ensinada numa perspectiva factual e não processual. E não constituímos a dimensão dos processos que nos levam a determinadas situações históricas. Perdemos assim a dimensão do papel que desempenhamos e acabamos por repetir os erros do passado.

Em uma praça em Berlim, em frente a uma biblioteca, há uma placa que faz referência ao período medieval da Inquisição dizendo “uma sociedade que começa queimando livros, termina queimando gente”. O irônico é que a mesma praça foi, no século 20, palco de atos nazistas. À frase, eu ainda acrescentaria um elemento: uma sociedade que começa queimando livros e censurando a arte, acaba queimando gente.

Vale a reflexão: qual papel você desempenha na construção do processo histórico contemporâneo? Quando forem contar a história do início do século 21, como você será retratado?