Um debate profundo e substancial sobre a situação brasileira foi realizado no dia 31 de março, em Paris, na Maison de l’Amérique Latine

Por Pedro Simon Camarão

Um debate profundo e substancial sobre a situação brasileira foi realizado no dia 31 de março, em Paris, na Maison de l’Amérique Latine. Pierre Salama, economista, latino-americanista reconhecido e professor emérito da Université Paris 13, dividiu a mesa com Glauber Sezerino, doutorando em Sociologia, Vanessa Oliveira, jornalista e integrante do “Movimento Democrático 18 de Março”, e Frederico Lyra, doutorando em Filosofia e representante da célula do PT em Paris. Durante uma hora e meia, uma sala lotada, com mais de cem pessoas, pôde identificar os fatores que transformaram o país em uma panela de pressão.

A origem da crise econômica
O fator econômico é fundamental para o nascimento de uma insatisfação generalizada. E, é preciso, antes de explicar como isso foi abordado no debate, citar uma entrevista que Pierre Salama concedeu ao jornal francês Libération em que ele defende que a origem da crise econômica brasileira não está na queda do preço das commodities e nem no problema da economia chinesa. Ele diz que é anterior aos anos de governo do PT. Quando FHC era presidente, ele teve todas as condições para fazer as reformas que o país precisava e não fez. FHC aplicou uma política econômica que fez com que o país ficasse preso às matérias-primas e incapaz de avançar no setor industrial. Ao mesmo tempo, FHC deixa de fazer a tão necessária reforma fiscal. Boa parte do que vem depois, é consequência disso.

O processo eleitoral de 2002 leva Luiz Inácio Lula da Silva ao poder. Na avaliação de Glauber Sezerino, Lula estabeleceu um novo pacto social que contava com o apoio do agronegócio, dos bancos e das indústrias e, para colocar o projeto em prática, o ex-presidente montou um governo de coalizão no qual cargos eram distribuídos em troca de apoio político. Ainda de acordo com Sezerino, o pacto permitiu diminuir a austeridade dos anos de FHC e promoveu o aumento do crédito e do consumo.

Até hoje, a imprensa francesa quando se refere ao Lula, lembra que ele é um ícone da esquerda que presidiu um milagre social no início dos anos 2000. A saída de mais de 20 milhões de brasileiros da pobreza através de programas de transferência de renda continua a impressionar o mundo. Impressiona também Pierre Salama, que não faz só elogios. O economista defende os resultados da política de aumento do salário mínimo mas, alega que o “boom” do consumo não gerou um “boom” da produção local, que, por sua vez, acabou substituída por produtos importados e Lula não teria proposto medidas para tentar alterar esse quadro. A mudança do cenário internacional em 2010 causa o agravamento do quadro brasileiro, de acordo com Sezerino. A alteração do cenário é tão brusca que quem antes era integrante do novo pacto social se vira contra ele. Que é o caso, especialmente, dos bancos e da Fiesp.

Durante o primeiro mandato, Dilma Rousseff dá continuidade à política que vinha sendo aplicada e o nível da produção industrial continua a cair. Salama afirma que quando caem os preços das commodities, a crise econômica no Brasil já havia começado. E em junho de 2013, todas as insatisfações acabam indo para as ruas. Salama alega que a nova classe C, que pôde se educar graças aos programas criados ainda no governo Lula, estava furiosa porque não conseguia encontrar o emprego que ela desejava, já que a indústria nacional não necessitava de mão de obra especializada.

Na visão do economista, o agravamento da crise política ocorre quando reeleita, Dilma aplica uma política contrária ao que ela havia prometido. O que faz com que as conquistas dos anos Lula e do primeiro mandato dela começassem a retroceder. É sempre bom lembrar que o Congresso Nacional tem papel importante para o alongamento e aprofundamento da crise econômica. Há meses, a oposição aliada a Eduardo Cunha vem travando a votação de projetos que poderiam tirar o país da recessão e pior, esse grupo fez um acordo para aprovar as chamadas “pautas-bombas”, que prejudicam as contas do governo. Ao mesmo tempo, a Operação Lava Jato dá condições para que a grande imprensa, controlada por apenas cinco famílias, como lembrou Vanessa Oliveira, e uma camada de políticos corruptos, instrumentalizassem a corrupção. Utilizaram a corrupção como um instrumento de pressão contra o governo para derrubar uma presidenta contra quem não pesa nenhuma suspeita de corrupção.

Como a direita cooptou os protestos de junho de 2013
Em junho de 2013, quando o Movimento Passe Livre inicia a série de protestos para impedir o aumento do preço das passagens de ônibus, as manifestações acabam servindo também para que uma grande parte da população reivindique melhorias na Educação, Saúde e infraestrutura. Após uma breve pausa, a onda de protestos recomeça e aí, na visão de Glauber Sezerino, uma classe média conservadora toma conta das ruas e do discurso. Essa camada da sociedade é a base para os movimentos contra a corrupção alimentados pela direita brasileira. Naquele momento, a grande imprensa fazia uma cobertura confusa dos fatos, chamando uma parcela dos manifestantes de baderneiros, apoiando que eles fossem repreendidos e, por outro lado, elevava a importância do que classificou como “manifestações pacíficas”, e incentivou que a população participasse “do lado correto”. Essa cobertura, no mínimo estranha, já ocorreu em outras épocas e delas não se guardam boas recordações.

Vanessa Oliveira destacou condutas antiéticas e até conspiradoras que, ao longo dos anos, os maiores veículos de comunicação brasileiros reconheceram que praticaram. Como o apoio a ditadura, a manipulação das imagens do comício do movimento “Diretas Já”, a edição criminosa do debate presidencial de 1989 ou a participação de Julio de Mesquita Filho na conspiração para o golpe de 1964. Mais uma vez, os jornalões atuam para fragilizar um governo. Pierre Salama ressalta: é a mídia brasileira quem dá vida para a instrumentalização da corrupção, porque ela só fala disso. A jornalista da mesa lembra que o contraponto a esse discurso, e que vem sendo muito importante, é feito por blogs de jornalistas consagrados que vêm ganhando cada vez mais importância no cenário nacional.

“Os movimentos contra o governo não representam a maioria da população”
A afirmação partiu do economista francês Pierre Salama. Latino-americanista, ele sugere uma análise mais detalhada das manifestações para que se constate que nelas só existem pessoas brancas. Não que isso seja um problema, mas a maioria da população brasileira é afrodescendente. E, somente, fazendo essa revisão, é possível identificar como essas passeatas são heterogêneas. Elas reúnem as classes A e B que, além de não representarem 80% do povo brasileiro, do ponto de vista do pesquisador, são contra todas as políticas sociais criadas por Lula e pelo PT, são revanchistas, querem apagar tudo o que foi feito. Frederico Lyra e Glauber Sezerino dividem a mesma opinião. O movimento é um retrato do crescimento do fascismo no Brasil e precisa ser combatido.

Esses protestos têm ainda um ingrediente confuso: uma parcela da classe C, que não está consciente do contexto e das intenções políticas do movimento. “É uma profunda heterogeneidade que existe entre essa fração C, dita de classe média, e o A e B que são revanchistas. A prova é que Michel Temer, aquele que já se acredita presidente, quando ele diz “eu vou fazer uma política de esquerda”. [porque] ele tem medo. Evidentemente, que ele tem medo. E por que? Porque essa fração C, especialmente, que manifesta e que não compreende nada, que está desiludida, que não vai fazer nada além de se manifestar, que é contra a Dilma, espera, ao contrário, que as coisas se consolidem, que o que foi adquirido não desapareça. Mas ele [Temer] escreveu, não tem muito tempo, um programa político. Ele trabalhou com José Serra. É um programa político que consiste em fazer com que os mais pobres paguem a crise atual.” Esse quadro permite que Salama seja otimista. Ele acredita que recuperar essa parcela da classe C, é a chance que Lula e Dilma têm para construir algo novo.

“Agora estamos desmoralizados. A catástrofe já aconteceu, mas se nós estamos aqui, vivos, podemos sair dos escombros e recomeçar. Já!” É assim que Frederico Lyra, representante da célula do PT em Paris analisa o momento atual. “É preciso defender as instituições. Essa democracia, sobretudo. Pelo tempo que ela nos fez ganhar e pelas regras atuais do jogo, que são desfavoráveis como sempre, mas mais ou menos claras, que nos são colocadas na mesa. O neoliberalismo destruidor, devastador, que aqueles que manobram e planejam o golpe de Estado querem implantar no Brasil, vai fazer com que o pré-capitalismo do período anterior a Vargas pareça uma brincadeira de criança. Vai ser um retorno a um passado terrível,” avalia Lyra.

Resistir é fundamental. “Dar o gosto da vitória a esses fascistas em potencial que estão nascendo no Brasil, isso é perigo e podemos pagar por anos e anos na História,” conclui Sezerino. Nos últimos anos, o Brasil não tem vivido apenas movimentos ligados à conjuntura política. Os movimentos sociais se reorganizaram e têm muitas bandeiras específicas e atuação muito forte. “2014 foi o ano com mais greves na história do Brasil. Todos [os novos movimentos sociais] são mais fortes e organizados. No entanto, eles não estão verdadeiramente juntos. Nossa missão é de criar uma constelação que possa englobar todos esses movimentos que existem mas que ainda estão dispersos, fragmentados, no território do Brasil. Uma constelação fraternal, sem sectarismo. É preciso que nós estejamos unidos na universalidade das nossas particularidades porque elas são de várias maneiras uma mesma luta,” afirma Frederico Lyra.

Duas opções para sair da crise econômica
Pierre Salama indica que para sair da crise é preciso decidir entre caminhos opostos na política econômica. “Essa crise se pagará. Não tem como escapar. Entramos em uma década difícil. Não se pode dizer eu apago a economia e faço o social. O social precisa um pouco da economia. E aí é interessante de ver o que pode se passar. Olha o orçamento: tem 10% de déficit do PIB. É gigantesco. Isso é a aposentadoria. São também os juros da dívida. Mas é também a amortização da dívida, que representa 9%. Há duas soluções. A primeira, a das classes A e B, desanexar o salário mínimo da inflação, isso que dizer, baixar o salário mínimo, desindexar as pensões do salário mínimo. Vai muito além de alongar a duração do trabalho que é o que se discute hoje.” A outra opção é o que se espera da esquerda. “O Brasil, o campeão do mundo, e isso inclui os anos de Lula, de taxas de juros reais extremamente elevadas. Isto é, Lula tirou milhões da pobreza mas ele multiplicou os milionários, e contrariamente ao que dizem as estatísticas oficiais, sabe-se que os mais ricos viram a sua parte de riqueza aumentar e não diminuir, como foi dito, na mão de Lula e Dilma. Então, trata-se de bater lá onde faz mal, quase como o que acontece aqui na França, como nos Estados Unidos, de recusar taxas de juros tão altas que enriqueçam os únicos que enriquecem hoje, os bancos. Então, ao invés de mexer nas aposentadorias tão fortemente como estão querendo fazer, creio que tem uma coisa que ao menos poderia ser feita, que é limitar as despesas do serviço da dívida, ou seja, dizendo claramente, limitar as taxas de juros que são absolutamente gigantescas e que custam extremamente caro aos mais pobres.”

Pedro Simon Camarão é jornalista, correspondente da FPA em Paris