Mesa “Brasil, Crise Internacional e projetos de sociedade” apresentou questões sobre projetos de desenvolvimento para superar contradições do capitalismo no Brasil

A mesa “Brasil, Crise Internacional e projetos de sociedade”, conduzida por Wladimir Pomar, apresentou questões sobre o projeto, ou melhor, os projetos de desenvolvimento que superem as contradições do capitalismo vivenciadas no Brasil. E, principalmente, como superar as contradições dentro de um projeto socialista.

Pomar, membro do Grupo de Conjuntura da Fundação Perseu Abramo,  é autor do estudo “Brasil, crise internacional e projetos de sociedade”, integrante da série Projetos para o Brasil. O estudo fundamentou a apresentação desta mesa, que teve ainda como debatedor o economista Guilherme Melo e como coordenadora, Selma Rocha, membro do Conselho Curador da Fundação e da Escola Nacional de Formação do PT.

Na abertura do debate, Wladimir Pomar destacou que seu livro está baseado em algumas teses do capitalismo, fundamentado na acumulação de capital e força de trabalho livre em abundância. Ele destacou as contradições presentes neste processo: a concorrência dentro do próprio capitalismo que o leva para uma constante evolução técnica, a força de trabalho excedente para competição entres os trabalhadores e as consequências deste processo: o aumento da produtividade, o rebaixamento do custo e do lucro e descarte da força de trabalho. 

Brasil, crise internacional e projetos de sociedade durante o Fórum FPA

O autor ainda explicitou que o desenvolvimento do capitalismo é desigual  em cada país, é um processo descombinado, conflituoso, a exemplo das inúmeras guerras regionais que ocorrem no mundo e as duas grandes guerras mundiais deflagradas no século 20. Baseada nestas teses foi feita a pesquisa sobre o desenvolvimento no Brasil, explicou Pomar.

Tal desenvolvimento no Brasil não é homogêneo, ao contrário “é aos soluços”, reafirma Pomar. Desde o início do século XX até hoje, o capitalismo teve surtos de crescimento, ora com participação dos latifundiários, ora com participação da burguesia internacional, mas sempre amparado pelo Estado voltado para os interesses destes atores, deixando o povo à margem em todos esses soluços

Em relação à força de trabalho é outro caso, de acordo ainda com Wladimir, abundante durante os soluços do desenvolvimento brasileiro, pelo menos até as décadas de 1960 e 1970, absorvida nos latifúndios e posteriormente nas indústrias. Já no final do século 20, houve uma estagnação brutal do desenvolvimento brasileiro: “nossa crise era tão profunda que não permitia contratar ninguém”, destaca Pomar. 

O período neoliberal dos anos 90 causou fissuras profundas nas forças de trabalho e nas forças do capital no Brasil. Neste contexto, Lula foi eleito. Não havia lutas sociais fortes neste período, o aparato do Estado continuava sob domínio da burguesia, faltava infraestrutura.  

Pomar questionou ainda quais as saídas para a contradição do capitalismo, também apontadas no livro.  As soluções reformistas ou socialistas não conseguiram superar essas contradições, pondera, ao exemplificar que os países socialistas que sobreviveram: a China e Vietnã chegaram à solução tendendo ao socialismo sem a estatização da produção. No Brasil os socialistas não tem o Estado, nem até o governo, o que dificulta muito essa superação.

E concluiu que a discussão no Brasil, de ordem estratégica, não está colocada, está nublada para as forças de esquerda, e para o PT.

Guilherme Mello descreveu, por sua vez, a especificidade da crise financeira internacional de 2008, afirmando que pode ser superada com as lutas sociais e outras saídas que estão além das teorias econômicas conhecidas, ainda que não tenham surgido novas forças que possam tornar essa superação possível.

Em relação ao processo capitalista no Brasil, Mello coloca que os governos do PT trabalham os marcos da ordem para reformar o sistema. “A grande novidade é a distribuição de renda e a capacidade de planejamento do Estado em algumas áreas e na regulação do emprego e renda” afirma. Na disputa política, destaca ele existem discursos apontando para saídas que voltam ao passado, linha adotada pela Marina Silva e Eduardo Campos, apostas no investimento internacional, aumento de juros etc, inserção subordinada nas cadeias internacionais produtivas…o desenvolvimento vem por conta”, nesta visão, disse o economista.

Já o governo Dilma vem tentando um novo desenvolvimento, mas há enorme resistência diante da organização do Estado que persiste no país, aponta Mello, já que depende de uma reforma tributária, reforma do Estado. E na avaliação dele, a última alternativa seria mais  socialista, ir para o socialismo imediatamente, ainda que não haja uma disposição popular e das forças para isso. “Estamos entre o caminho do reformismo e o discurso do conservadores apontando para uma nova sociedade”, conclui Mello.

Fotos: Sérgio Silva