Eu não sei falar da Rio+20; não me inseri suficientemente no assunto. Mas ela está chegando, cercada de muito ceticismo e, entretanto, ainda assim com enorme importância para a sobrevivência do mundo, e eu me sinto obrigado a dizer algo que me está mais no coração que na cabeça. Li na edição desta semana da Plurale em site, num artigo de Leonardo Boff, sempre presente nesta bela e séria revista, que o Museu de História Natural de New York fez uma consulta a dezenas de biólogos conceituados sobre a possibilidade de estarmos próximos a uma extinção em massa da espécie, e a resposta foi positiva em 70%! Todo mundo sabe que os cientistas também falham nas suas previsões mas este índice é fortemente assustador e clama pelo esforço realmente máximo na tentativa de impedir a materialização da previsão catastrófica.

É precisamente a agenda desse esforço máximo que se deve buscar e estabelecer em acordo geral na oportunidade única desta próxima conferência mundial. Se é para lograr um acordo geral, obviamente não se deve discutir fantasias e inviabilidades, como disse sabiamente a nossa Presidenta (77% de IBOPE!), mas pôr em pauta os pontos econômica e politicamente viáveis, factíveis nas próximas décadas. Energias solar e eólica devem merecer atenções para o aumento da sua produtividade e o alargamento do seu uso mas certamente não vão ser capazes de substituir, nos próximos vinte e cinco anos, a potência das nossas grandes hidrelétricas e das termelétricas do mundo inteiro, que podem, estas sim, abandonar o carvão e o petróleo para utilizar o gás e o etanol, menos poluentes, e a energia nuclear, menos ainda. Tenho para mim que o maior ganho da Rio+20 poderá e deverá ser político, quero dizer, a consagração de avanços importantes na disposição de todos os governos nacionais de incluir, séria e definitivamente, os objetivos e as medidas necessárias à preservação do planeta e da nossa espécie entre os itens principais das suas Razões de Estado. E, consequentemente, na disposição de aceitar uma boa dose de governança mundial, que só pode ser da ONU, no estabelecimento e na imposição de regras e procedimentos para todos.

No mundo democrático, essa disposição dos governos depende de um crescimento expressivo das correntes de opinião que exigem o comportamento preservacionista; crescimento que vem ocorrendo claramente mas que ainda não sobrepujou a força dos grandes interesses econômicos que colocam o PIB acima de qualquer objetivo, mesmo o da sustentabilidade da própria espécie. Pessoalmente, acredito que este crescimento mais forte da opinião ambientalista ganhará novo ímpeto na medida em que se politizar mais o debate e o conteúdo das metas, acoplando-se às medidas meramente conservacionistas outros projetos e objetivos ligados à  responsabilidade social, a uma programação mundial voltada para a redução das tremendas desigualdades entre os povos e dentro dos povos, a um projeto de avanço político do acordo mundial para este fim. É preciso gritar ao mundo que está mais do que na hora de crescer menos e distribuir melhor a produção que se extrai do planeta, sob pena, sim, de soçobrarmos todos numa loucura produtivo-destruidora que resultará num envenenamento global crescente e suscitará uma violência em grau cada vez maior precisamente nas regiões mais ricas e produtivas.

Velhas propostas, como a Taxa Tobin incidente sobre a diabólica especulação financeira, e o Fundo de Redistribuição Mundial, uma espécie de Bolsa-Nação para os povos mais pobres, precisam ser ressuscitadas politicamente em nome da sobrevivência da humanidade. Com todo o incômodo que possam trazer para nós cariocas, é importante que africanos do norte, do centro e do sul venham ao Rio para a conferência; que espanhóis, gregos e italianos desempregados e espoliados também venham; que os americanos do “ocupem Wall Street” apareçam aqui neste grande encontro que se realizará num momento crucial da História, nesta cidade que é um entreposto internacional de sabedoria e amor à vida.

Não é preciso ter bomba atômica para ter peso nas negociações internacionais; o Brasil tem tradição e respeitabilidade, pela competência do Itamarati; o Brasil tem coerência na afirmação da paz e, desde a eleição do Lula, passou a inspirar admiração entre as nações pela qualidade da sua democracia. O Brasil tem importância e tem cacife: Porto Alegre virou símbolo mundial de um novo mundo possível; o Rio pode ganhar a condição de símbolo político da preservação da Humanidade.

*Roberto Saturnino Braga, economista, ex-senador (PT/RJ) e membro do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo Contatos: [email protected]