África será a grande protagonista política do Fórum Social Mundial, em sua versão centralizada, que abre seus trabalhos em Dakar, Senegal, no próximo dia 6 de fevereiro. 

Imerso em um debate político ainda inconcluso sobre seus rumos e projeto estratégico, o Fórum Social Mundial refletirá o contexto de crise internacional do capital na ótica de uma de suas principais vítimas, o continente africano e seus povos secularmente explorados e oprimidos. 

A tradicional Marcha de Abertura e o Dia de África e da Diáspora, no dia 7, serão os pontos altos do FSM. Serão com certeza os momentos de denúncia da dominação colonial que ainda marca Nações ainda em construção e as suas marcas verificadas na miséria e na fome endêmicas na maioria desses países, além da ferocidade do esgotamento dos recursos naturais e humanos do continente nesta atual fase de hegemonia neoliberal nos últimos trinta anos do capitalismo internacional. 

Ao mesmo tempo, será o resgate da africanidade, da contribuição que o continente representa para a humanidade no ponto de vista humano, social, político, cultural. O encontro da Diáspora Africana na simbólica Ilha de Gorée, patrimônio histórico da humanidade, de onde partiam os navios negreiros que alimentaram o tráfico de escravos por séculos, dará o tom da busca de novos tempos para África e seus filhos e filhas dispersos/as pelo mundo. 

Em novembro, antes da reunião do Conselho Internacional do FSM que se realizou em Dakar, aconteceu com forte presença africana o seminário da Assembleia dos Movimentos Sociais. O tom do documento final mostra o atual estágio de construção e de organização dos movimentos sociais no continente, desigual em suas trajetórias e ainda distantes da elaboração de políticas alternativas capazes de unificar lutas em escala nacional e continental. 

Espera-se que o FSM possa ser um momento de fortalecimento desses movimentos sociais, através do intercâmbio de informações e do debate político e ideológico com participantes de outros continentes. A recente emergência de lutas democráticas contra o autoritarismo de ditaduras civis e laicas em vários países africanos de população árabe e islâmica com certeza é um contexto imprevisto e desafiador para a reflexão e ação [email protected] participantes do Fórum. 

A possível participação de Lula, agora não mais como chefe de Estado mas como personalidade política mundial, poderá ser também um momento-forte dessa aliança Sul-Sul capaz de fazer avançar a solidariedade internacional e as lutas sociais nos vários continentes do hemisfério. As experiências de governo progressistas, de esquerda e centro-esquerda da América Latina são vistas pelos movimentos sociais africanos com esperança e ao mesmo tempo desconfiança, dada a desinformação sobre o alcance das transformações obtidas e um viés europeu esquerdista muito influente em muitos países. 

Os dilemas do FSM, enfrentados desde a preparação do evento centralizado em Belém do Pará, em 2009, em particular as expectativas dos movimentos sociais internacionais de um maior grau de organicidade nas respostas à hegemonia neoliberal, permanecem em aberto.  

Por um lado, as mudanças metodológicas introduzidas em Belém para a multiplicação de assembleias temáticas no espaço do FSM em busca de convergências a serem consolidadas numa Assembleia das Assembleias, terão um espaço maior para se viabilizarem. Dois dias serão dedicados às atividades autogestionadas, ou seja, aos debates das mais variadas cores e objetivos que marcam o FSM desde sua origem, e dois dias serão dedicados às Assembleias Temáticas, busca de convergências e Assembleia das Assembleias. 

De outra parte, os movimentos que se articulam na Assembleia dos Movimentos Sociais intensificaram suas relações desde Belém, na busca de um espaço que transcenda o debate oferecido pela metodologia do FSM para a construção de agendas e iniciativas de unidade e de luta internacional contra o neoliberalismo. Dois seminários foram realizados, em São Paulo e em Dakar, e em cada evento do FSM, tanto centralizado quanto regional, foram promovidas Assembleias de Movimentos Sociais e divulgadas suas propostas e resoluções. 

Para os partidos de esquerda presentes no FSM, em particular o PT e os integrantes do Foro de São Paulo, a presença em Dakar será a oportunidade de enfrentar o desafio da África já assimilado em nossa elaboração programática mas ainda distante de nossas ações e políticas internacionais.

A fragmentada esquerda africana esperará desse encontro o estabelecimento de laços mais regulares, de intercambio de informações e de oportunidades de formação política, de solidariedade ativa a suas lutas e enfrentamentos políticos. E com certeza a formação social dos povos latino-americanos com a forte presença africana fará com que tanto o PT como a esquerda de nosso continente reforcem suas perspectivas libertárias de luta pela igualdade racial em nossos países e de plena incorporação dos/as afro-descendentes às direções e deliberações partidárias. 

Assim, ainda que a participação de brasileiros/as e latino-americanos/as seja dificultada pelos custos da viagem e pelas dificuldades de língua e estrutura previstas em Dakar, beber da dura realidade e anseios de libertação de Mãe África será uma experiência rica a fortalecer o internacionalismo e a solidariedade em nossos movimentos sociais e partidos.  

*Renato Simões é Secretário Nacional de Movimentos Populares e Políticas Setoriais do PT.